De capital da Lava Jato a centro de comando da campanha do PT

De capital da Lava Jato a centro de comando da campanha do PT

Preso há seis meses, sem poder ser candidato nem votar, Lula assistiu sozinho o desempenho do "escolhido" Fernando Haddad da TV de sua cela em Curitiba

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

08 Outubro 2018 | 05h03

Vigília em apoio a Lula em frente a PF em Curitiba. Fotos: Ricardo Brandt/Estadão

Curitiba, a capital da Operação Lava Jato desde 2014, foi transformada nessas eleições no centro de comando da campanha presidencial do PT. Preso há seis meses – completos ontem – após condenação em segundo grau por corrupção e lavagem de dinheiro, Luiz Inácio Lula da Silva comandou da cadeia a campanha de Fernando Haddad e foi fiador das alianças e do apoio petista ao candidato. Sozinho, na cela especial preparada para ele na sede da Polícia Federal, o ex-presidente acompanhou neste domingo a votação e o desempenho de seu escolhido pelas notícias da TV.

Transformada em comitê eleitoral, a cela de Lula na cobertura do prédio berço da Lava Jato – as investigações do escândalo Petrobrás começaram na PF de Curitiba em 2013 –  não foi suficiente para isolar o ex-presidente. Por meio de amigos, advogados e aliados políticos que o visitaram diariamente, o petista conduziu a estratégia de arrastar a candidatura presidencial do PT em seu nome até o prazo final dado pela Justiça Eleitoral, negociou alianças regionais nos estados e ditou as palavras e os passos de Haddad, que em mais de uma oportunidade assumiu o papel de “porta-voz”.

Na segunda-feira, 1, quando o juiz federal Sérgio Moro tornou público o primeiro termo da delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci, que compromete Lula e o PT, Haddad fez sua última visita antes da votação.

A aliados e apoiadores, Lula distribuiu mensagens e ordens em bilhetes e cartas manuscritos. No último, enviado aos apoiadores via cópia reproduzida em redes sociais, o ex-presidente usou “seu aniversário oficial” para pedir votos em Haddad – oficial porque o registro feito pelo pai no cartório data seu nascimento no dia 6, mas a mãe afirmava que ele nasceu no dia 27, data que ele considera. “Dia 6 de outubro é o meu aniversário oficial. Espero ganhar de presente no dia 7 de outubro o voto do povo brasileiro no Haddad”, escreveu o ex-presidente.

Rotina. Os escritos são parte da rotina que Lula adotou, nesses 184 dias de cárcere. No acampamento de vigília dos petistas, uma placa registra os dias de prisão do petista – como as placas em empresas, que anotam quantos dias não ocorre um acidente de trabalho.

Com uma mesa colocada na cela, de cerca de 15 metros quadrados, Lula escreve, usa ela para leituras e para as reuniões diárias com seus advogados – o mais presente é o advogado Manoel Caetano Ferreira Filho, espécia de defensor, conselheiro e companhia. Toda manhã, depois do café com pão e manteira e da caminhada na esteira autorizada pela Justiça, o ex-presidente conversa com “doutor Caetano”, como é conhecido.

Na quinta-feira, 4, dia das visitas da família – dois filhos estiveram com ele nessa semana – e dos amigos, Lula receberia seu biógrafo Fernando Morais e o jornalista Mino Carta, mas a Justiça proibiu o encontro. Os dois são jornalistas e entrevistas com o petista estão proibidas por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

Reforço. Apesar de seu papel de liderança na disputa, Lula não pode concorrer, por estar inelegível, nem votar neste domingo. A capital do Paraná amanheceu fria e chuvosa nesse domingo de eleições gerais, como se o inverno não tivesse acabado. O clima varreu dos arredores da PF, no bairro Santa Cândida, os apoiadores de Lula que estão acampados em vigília pela soltura do petista.

Antes formada por mais de 200 pessoas, a vigília foi reduzida há algumas dezenas de pessoas, que tem como pontos de concentração três imóveis alugados no bairro. Um deles, um terreno em frente ao prédio da polícia, abriga a estrutura de manifestações. Na manhã de ontem, só seguranças e alguns poucos apoiadores ocupavam o local.

Nesta segunda-feira, 8, a vigília que atualmente é mais simbólica do que efetiva, deve voltar a reunir uma multidão nas ruas do entorno da PF. Haddad chega pela manhã para sua primeira reunião de segundo turno com Lula, o coordenador da campanha, como a militância o trata abertamente no incansável ritual de saudação diário, em que gritam: “bom dia presidente Lula”, “boa tarde presidente Lula” e “boa noite presidente Lula”.