Das vontades e suas consequências

Das vontades e suas consequências

Rodrigo Augusto Prando*

19 de abril de 2019 | 09h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Aqueles que lecionam ou já tiveram a possibilidade e assistir a uma aula sobre ética e valores morais sabem que o ser humano é um ser moral. Somos, a partir de uma determinada idade e condição intelectual e psíquica, responsáveis pelos nossos atos, por nossas ações. Somos, portanto, os únicos animais com capacidade de, antes de realizar uma ação, prever as consequências desta ação. Mais ainda: temos, também, elementos balizadores que nos colocam diante daquilo que é certo ou errado. Pois bem, no campo da política, do exercício do poder político, há algumas diferenças.

Nicolau Maquiavel afirmou, alhures, que o governante – o Príncipe – não pode se ligar inexoravelmente à moral do cidadão comum. Que, na conquista e manutenção do poder, o político deve ponderar quando manter, por exemplo, a palavra empenhada ou quando deve deixar de cumprir o que foi prometido.

Numa clássica passagem de ‘O Príncipe’, o florentino indagava se era melhor o príncipe ser amado ou temido e, logo responde: seria melhor que fosse amado, se todos os homens fossem bons, como não são, ao menos que seja temido, pois pensariam muito antes de se levantar contra aquele poderoso. Toda a obra de Maquiavel é de uma atualidade cortante e, por isso, encontra-se no panteão dos clássicos.

Noutra oportunidade, asseverei que seria interessante que o presidente Bolsonaro pudesse sentar com seus ministros e assessores e todos pudessem, juntos, ler e discutir as ideias maquiavelianas. Bolsonaro, hoje, não é mero cidadão, mas presidente da República, figura máxima do Poder Executivo.

Não faz muito, foram divulgadas informações e análises acerca dos cem dias de governo. No geral, as análises indicaram que o presidente e seu governo foram, em certa medida, erráticos.

Bolsonaro e alguns ministros, por exemplo, insistiram num discurso mais afeito à campanha do que à liturgia do cargo. Quis o presidente manter-se ativo e destacado nas redes sociais e, com isso, acabou por desprezar o ato real de governar e de liderar.

Em pouco tempo, de janeiro a março, sua aprovação caiu cerca de 15%, bem como subiu sua rejeição. Some-se a isso, as rusgas com Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, que chegou a pedir que Bolsonaro parece de brincadeira e passasse a governar o Brasil.

Especialmente num momento em que tramita a reforma da previdência, essa indisposição com Maia não seria produtiva para o Planalto. Foi, assim, que Bolsonaro decidiu, pouco antes de completar os cem dias de governo, chamar para uma conversa os líderes dos partidos, objetivando, com isso, tecer alianças e eliminar as animosidades com os parlamentares.

E, no limite, as animosidades tinham origem na forma como Bolsonaro e os bolsonaristas tratam os políticos, todos considerados da ‘velha política’, do ‘toma lá dá cá’, fisiologistas e até corruptos.

O discurso em que ele, Bolsonaro, é guindado à condição de representante maior da ‘nova política’, portanto, puro, quase virginal, e todos os outros, da ‘velha política’, já embolorados, é assentado num antagonismo. É discurso válido para uma campanha, mas é péssimo e corrosivo para costurar a governabilidade e construir uma base de apoio político.

Destarte, logo após compreender que esses 100 primeiros dias foram capazes de dilapidar parte considerável de sua popularidade e capital político, Bolsonaro reagiu e buscou, em evento, apresentar cerca de 18 atos para dinamizar suas ações e apresentar uma agenda positiva.

Mas, logo depois, veio um balde de água fria. Bolsonaro que se apresentou como liberal na campanha eleitoral interviu na política de preços da Petrobras e, com isso, a companhia perdeu, rapidamente, cerca de 32,4 bilhões de reais com a queda no valor de suas ações.

Sabe-se que a proibição do aumento do diesel foi por receio de nova paralisação dos caminhoneiros, especialmente porque foi uma categoria que apoiou Bolsonaro em sua campanha.

Se procurarmos a origem das crises do atual governo, praticamente todas elas foram geradas no bojo do próprio governo ou, então, de atitudes voluntariosas do presidente e daqueles que estão mais próximos dele.

Assim, as vontades presidenciais apresentam consequências claras. Seja no plano interno ou nas relações externas, muitas das falas do presidente, de afirmação de suas vontades e de suas crenças, valores e ideologia, trouxeram consequências prejudiciais.

Bolsonaro foi aos EUA e alinhou-se automaticamente a Trump, inclusive declarando que ele deverá ser reeleito, distanciando-se da prudência diplomática; foi a Israel e, com isso, desagradou os países árabes, especialmente porque são grandes compradores de carne produzida no Brasil; foi ao Chile e teceu elogios ao ditador Augusto Pinochet, tendo péssima repercussão.

No Brasil, manteve um ministro desastroso, inepto, por três meses no Ministério da Educação; deu ‘caneladas’, como afirmou recentemente, por conta da ausência de diálogo com os atores políticos; humilhou Gustavo Bebbiano, seu ministro, demitido por ser um desafeto de um de seus filhos, entre outros episódios confusos ou equivocados mesmo.

Há, contudo, esperanças de que o presidente Bolsonaro tenha compreendido que a realização de suas vontades tem consequências. Todas as vontades realizadas trazem consequências aos indivíduos, mas quando o indivíduo em questão é o presidente da República, os resultados podem ser ótimos ou desastrosos para o País ou para grupos específicos. A fala engraçada do deputado do baixo clero que Bolsonaro foi não tem mais graça sendo proferida pelo presidente.

Talvez continue engraçada para os seus mais diletos apoiadores, mas não para conjunto da sociedade brasileira, para quem ele deve governar.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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