‘Dá para todo mundo morder uma farpela’

Interceptações da Polícia Federal na Operação Favorito, desdobramento da Lava Jato no Rio, deflagrada na quinta, 14, pegaram militar ajustando ação de organização de empresários que fraudaram compra de álcool em gel da Marinha e miravam contratos de hospitais de campanha em meio à pandemia

Pepita Ortega e Fausto Macedo

17 de maio de 2020 | 17h09

Atualizada às 18h42 com posicionamento da Marinha*

A força-tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro identificou ‘manobras ilícitas’ para a contratação, com dispensa de licitação, de empresa do grupo de Mário Peixoto para fornecimento de álcool em gel para a Marinha do Brasil. A suposta fraude foi descoberta a partir da captação de diálogos entre um dos principais operadores financeiros de Mário Peixoto, Alessandro de Araújo Duarte, e o militar João Paulo Mendonça da Silva. As conversas foram registradas na representação da Procuradoria pela abertura da Operação Favorito nesta quinta, 14, que teve Peixoto como principal alvo.

O Ministério Público Federal também viu indícios de participação ou influência do empresário Mário Peixoto sobre a Organização Social IABAS, contratada pelo Estado do Rio de Janeiro implantação de hospitais de campanha para tratamento de pacientes contaminados pelo novo coronavírus.

Segundo os procuradores, os diálogos entre o operador de Peixoto e o militar não demonstram apenas fraudes pontuais para a aquisição de insumos pela Marinha, mas retratam um vínculo de confiança entre ambos ‘para o direcionamento de contratos em curso, com o auxílio de terceiros e com risco em potencial de se ampliar’.

Em uma das conversas transcritas na representação enviada ao juízo da 7ª Vara Federal Criminal do Rio Alessandro diz a João Paulo: “qualquer coisa que pensar em serviço lembra de mim primeiro”. Depois, ao fim da conversa, escuta do militar: “dá para todo mundo morder uma farpela”.

Na decisão que determinou a abertura da Operação Favorito – que havia sido adiada por conta da pandemia – o juiz Marcelo Bretas, que comanda a Lava Jato no Rio, indica que a conversa a dupla ‘claramente combina uma forma de burlar licitação para fornecimento de álcool em gel’ para a Marinha.

Documento

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“O funcionário alega que Alessandro deveria conseguir ‘três preços diferentes com três CNPJ’ para apresentar no certame a fim de mascarar a contratação da empresa do investigado”, registra o documento.

Em outra conversa interceptada, Alessandro e João tratam da entrega do material, o que, segundo Bretas, ‘leva a crer que a pessoa jurídica vinculada ao primeiro se sagrou vencedora da licitação’.

Outro diálogo registrado pelos investigadores, no dia 16, indica que João cobrou de Alessandro cotação de outras empresas, o que, segundo o Ministério Público Federal, ‘demonstra que ambos continuam fraudando as cotações de preços para direcionar os contratos às empresas do grupo criminoso’.

COM A PALAVRA, A MARINHA

“A Marinha do Brasil (MB), por meio do Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC), informa que foi instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar indícios de fraude na compra de álcool em gel. O IPM será encaminhado à Justiça Militar, que promoverá as ações judiciais decorrentes.

O CIASC também informa que o militar envolvido nas denúncias foi afastado de suas funções. A MB reitera seu firme posicionamento contrário a quaisquer atos irregulares e, além de apurar rigorosamente todas as denúncias, sempre procura promover a punição daqueles que, comprovadamente, incorram em desvios de conduta.”

COM A PALAVRA, OS INVESTIGADOS

A reportagem busca contato com os investigados. O espaço está aberto para manifestações.

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