Dá para ser otimista?

Dá para ser otimista?

José Renato Nalini*

19 de setembro de 2020 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Cobra-se otimismo, como se uma recuperação do olhar esperançoso rumo ao futuro tivesse o condão de alterar a realidade.

Gostaria muito de encontrar sinais promissores no cenário brasileiro, em primeiro lugar. Depois, no panorama global e até planetário.

Esforço-me, porém não consigo. Como desligar-me da perseverante presença da Covid19, a matar “somente 800 pessoas” a cada dia e me alegrar com o índice de “apenas” trinta mil infectados no mesmo período?

A média móvel não é suficiente para afastar a ameaça de continuidade no morticínio, que elegeu preferencialmente os idosos, mas depois se espalhou, de forma democrática, por todas as demais faixas etárias.

Quem consegue se animar quando vê a cruel devastação de todos os biomas brasileiros? A Amazônia e o Pantanal entregues às chamas. O cerrado também e outros espaços preservados, que se convertem, paulatinamente, em terra calcinada, palco de morte e não de vida.

O mundo, entre perplexo e revoltado, vê o Brasil destruir seu maior patrimônio: a biodiversidade e uma das últimas florestas tropicais que subsistiram nesta triste Terra.

Parece ter razão o escritor Donald Ray Pollock, que escreveu “O mal nosso de cada dia” (ed.Darkside), ao afirmar: “A única chance do mundo é nos matarmos todos antes que o destruamos”.

Chance que parece estar em curso. De múltiplas maneiras. A chacina de jovens entregues à criminalidade, algo que mostra ao mundo que existe organização quando se quer, em número superior a 70 mil por ano, aqui em nosso país. Somem-se mais 30 ou 40 mil mortos no trânsito.

O morticínio recebe nítidos estímulos com a corrida armamentista. O argumento de fornecer aos honestos condições de enfrentar os delinquentes é falacioso, além de ser tosco. A prática é capaz de comprovar que o ser humano armado para a sua própria defesa é mero fornecedor de instrumentos letais para as gangues. Estas sim, são expertas em usar das armas para perpetrar seus crimes e para matar suas vítimas a cada incursão. Basta verificar a intensificação da crueldade e da violência nas práticas delitivas. O autor de furtos, o “batedor de carteira”, é hoje um habitante da arqueologia criminógena. A ousadia não tem limites e a resposta do Estado vem na multiplicação de presídios e na cultura massiva do cárcere.

Dir-se-á que a esperança reside na religião, que sublima os instintos anômalos e encaminha as pessoas para a salvação. Realmente, uma parcela consegue se pautar pelos mandamentos em regra monoteísticos das grandes religiões. Mas a facilidade com que se cria uma Igreja no Brasil, para fazer jus à imunidade fiscal e propiciar vida confortável às suas lideranças, faz com que o resíduo de lucidez ainda em curso desenvolva uma ojeriza a qualquer crença institucionalizada. Algo que não é só nosso, mas que herdamos de reiterada prática universal. Mais uma vez, invoque-se o romancista Donald Pollock: “Não gosto de quem vê a religião como um golpe para ganhar dinheiro. Pessoas assim são nojentas, e as que caem na lábia delas são estúpidas ou desesperadas. Então, sempre que posso, eu as retrato como vermes”.

A estupidez, estágio anterior à formação educacional de qualidade, é algo facilmente detectável no Brasil. E o desespero se tornou mais candente, pois além da peste – ou ela se tornou um fator agravante – existe o desemprego, a falta de saneamento básico e de infraestrutura, a insuficiência de moradia, a miséria e a fome.

Enquanto isso, preserva-se a destinação a Fundos Partidários e Eleitorais, ensaia-se o palco para eleições, obriga-se a cidadania patriota, hoje reservada aos idosos – faixa de risco da Covid19 – a comparecer a células de aglomeração pessoal, tudo para fazer de conta que a Democracia está vigorosa, florescente e capaz de tornar o brasileiro a cada momento mais feliz. Não faria mais sentido colher a manifestação dos brasileiros pelas redes sociais, em lugar da perversa logística de cada eleição tradicional?

À evidência, não tenho o monopólio da verdade e talvez o longo período de isolamento, a leitura da mídia espontânea e da TV aberta sejam responsáveis por não vislumbrar final feliz para a tragédia em curso. Gostaria de merecer contribuições hábeis a reformular meu realismo. Pois não sou pessimista. Respondo como José Saramago um dia já respondeu: “Eu não sou pessimista. O mundo é que anda péssimo!”.

Enquanto isso, não consigo enxergar o mundo maravilhoso que alguns bons amigos identificam no horizonte, para mim, neste momento, plúmbeo e melancólico.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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