Dá para ser ESG sem combater a sociedade do cansaço?

Dá para ser ESG sem combater a sociedade do cansaço?

Camila Magalhães e Arthur Guerra*

23 de julho de 2021 | 06h30

Arthur Guerra e Camila Magalhães. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ser ESG (Environmental, Social and Corporate Governance) – ou seja, promover as melhores práticas ambientais, sociais e de governança – virou foco e meta das empresas “antenadas”. Na batalha da concorrência, quem não se preocupa em oferecer iniciativas nessas três áreas já está em desvantagem. Mas estaria também o mundo corporativo preocupado em lidar com a sociedade do cansaço?

A onda de encorajamento nos últimos anos por parte dos líderes da autossuperação dos colaboradores e a valorização da rapidez, da realização de múltiplas tarefas e da entrega de melhores resultados, somada à autocobrança dos funcionários, trouxe às empresas uma triste realidade: o aumento de transtornos mentais como ansiedade e depressão, responsáveis não apenas pela queda na qualidade de vida, mas pelo declínio da produtividade e prejuízos econômicos em nível global.

O Brasil é hoje o país com maior prevalência de ansiedade no mundo (9,3% da população, ou seja, 18,6 milhões de brasileiros) e o segundo país das Américas com maior número de pessoas depressivas (5,8% da população), atrás apenas dos Estados Unidos (5,9%), segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgados em 2019.

Dados do Estudo São Paulo Megacity mostram que, após dor crônica (35%), os transtornos associados a mais dias de afastamento do trabalho foram transtornos de humor (16,5%) e ansiedade (15,0%). Trabalhadores com transtornos mentais comuns relataram aproximadamente 50% mais dias de afastamento do que aqueles com doenças físicas, mostrando que os transtornos mentais estão associados a maior incapacitação e, portanto, maior perda de produtividade. Assim sendo, esforços na direção da prevenção e do diagnóstico precoce devem ser implementados com mais veemência.

A pandemia deve trazer ainda maiores consequências em prejuízo da saúde mental dos colaboradores. Um estudo realizado com mais de 45 mil brasileiros ainda no início da pandemia constatou que, entre os que mantiveram suas atividades laborais, 30% referiram estar trabalhando mais do que o normal e 39% relataram apresentar dificuldades moderadas ou intensas para realizar suas atividades de trabalho. Entre a população entrevistada, 44% apresentaram problemas no sono, 40% referiram sentimentos de tristeza frequentes e 53% perceberam um aumento de ansiedade e nervosismo.

A promoção da saúde mental é essencial para que os colaboradores tenham a capacidade necessária de executar suas habilidades pessoais e profissionais. Uma empresa que diz ESG deve ter em sua lista de iniciativas a promoção de um ambiente mentalmente saudável, garantindo assim ganhos sociais não apenas à corporação, mas à sociedade como um todo.

Mais do que a oferta de produtos e benefícios, soluções vêm de planejamentos e implantações calculadas e permanentes no cuidado e na gestão. Isso inclui sensibilização dos líderes, cargas de trabalho compatíveis com a realização das tarefas, garantia de intervalos de descanso, diagnóstico do ambiente, análise dos indicadores relacionados à saúde dos colaboradores, treinamento de agentes de transformação e multiplicadores, quebra do estigma e do preconceito.

Cuidar da saúde mental, criar ambientes mentalmente saudáveis, comportamentos humanísticos e solidários são a base da sustentabilidade das relações e dos ganhos.

*Camila Magalhães e Arthur Guerra, psiquiatras e fundadores da Caliandra Saúde Mental

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