Da Filadélfia para o Brasil, a Black Friday é um indicador da economia

Marcelo López*

21 Novembro 2017 | 04h30

Está chegando o feriado de Ação de Graças nos EUA, um dos feriados mais esperados e populares naquele país. Temos muito o que dar graças, sem dúvida, mas o que nos interessa nesse artigo é o dia seguinte, ou Black Friday. O termo foi cunhado na Filadélfia há muitos anos, quando os lojistas tentaram emplacar o Big Friday. Como a confusão era muita, os policiais que tomavam conta das ruas apelidaram a data de Black Friday e, sem mais, o termo pegou.

A Black Friday se popularizou na década de 90. Hoje, é considerada a mais importante data de vendas no varejo nos EUA e o começo da estação de compras até o Natal. Para as varejistas, essa é a data mais importante do ano.

Esse ano, a expectativa de vendas pela internet é de 3.52 bilhões de dólares, uma alta de 5.4% sobre a mesma data do ano passado. Para investidores, essa data também é muito importante e vamos acompanhar de perto as vendas de gigantes como Amazon, Wal Mart e Target – as campeãs de vendas no período. A venda de eletrônicos, especificamente, também é interessante. É bom ficar de olho nas vendas de tablets e celulares.

Para os consumidores, Black Friday possui várias vantagens. Além da mais óbvia, o preço, podemos citar também a possibilidade do consumidor conseguir o produto desejado há tempo, a escolha do modelo e a garantia de obter o produto antes que ele esgote (se for o caso). É bom se preparar física e psicologicamente para essa data, já que incidentes (e casos bem peculiares) são comuns nesse dia.

Para os lojistas, o dia é crucial. É ele que define como serão as vendas de final de ano, o período mais rentável do negócio. Claro, é também uma boa oportunidade para os lojistas se livrarem de boa parte dos estoques. Um dia de vendas fracas não somente impacta a maneira como os consumidores veem o negócio, mas também impacta o valor das ações das empresas na Bolsa.

Os analistas também acompanham de perto o feriado. Usam a data para prever as vendas de Natal e, consequentemente, atualizar seus modelos, o que implica um valuation maior ou menor para as empresas. Se os analistas acreditarem que uma empresa em particular não teve um bom dia no Black Friday, certamente o otimismo ficará abalado com relação às vendas de final de ano. Dessa maneira, o Black Friday é usado (com bastante eficácia) como um leading indicator.

Alguns economistas, especialmente os Keynesianos, que acreditam que aumento nos gastos é saudável e importante para a economia, acompanham de perto os números dos varejistas no Black Friday. Em 2015, por exemplo, as ações do Wal Mart, Nordstrom, Macy´s and Kohl caíram na segunda-feira, após um Black Friday não tão empolgante.

Apesar de importante para o setor varejista, o Black Friday não se provou como um bom indicador para o mercado acionário como um todo. Um estudo conduzido por Mark Hulbert concluiu que há baixa correlação entre o que acontece durante o Black Friday e o comportamento das Bolsas de Valores. Até mesmo porque muitos compradores, querendo evitar a confusão (e que confusão; há episódios de pessoas sendo esmagadas na multidão, briga por mercadoria, incluindo tiros e uso de spray de pimenta), resolvem comprar na segunda-feira, ou Cyber Monday, que também se popularizou nos últimos anos. Na verdade, o contrário vem ocorrendo nos últimos anos: quando as ações sobem na sexta e na segunda, elas caem até o final do ano. Assim, podemos acessar o Black Friday como um excelente termômetro para o setor varejista, mas um ineficaz indicador para o mercado em geral.

*Gestor de recursos na L2 Capital Partners

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