Da esperança à melancolia, um retrato do jovem na política

Da esperança à melancolia, um retrato do jovem na política

Paulo Loiola*

18 de fevereiro de 2021 | 07h15

Paulo Loiola. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Nosso problema é real e quantificável: jovens participam pouco da vida política e isso traz consequências: a falta de diversidade nos faz planejar políticas piores. A população entre 16 e 24 anos, 13,7% da população brasileira segundo o PNAD de 2019, representou apenas 3,07% dos candidatos em 2020, símbolo de um potencial desperdiçado.

O resultado da falta de representatividade é um sentimento contra a política, ancorado na realidade da falta de oportunidades, capturado por estruturas que exploram essa dor. Não acolher esses jovens é entregar nosso futuro ao pensamento retrógrado que vem ganhando força no mundo.

Para entender a participação, primeiro precisamos entender como pensa esse jovem. No município de São Paulo, por exemplo, a pesquisa da Nossa São Paulo com o Ibope Inteligência traz dados interessantes: entre os jovens de 16 a 24 anos apenas 5% sentem que a qualidade de vida melhorou. Porém, encontra-se neles uma boa parte do orgulho em residir na cidade, 37% sentem muito orgulho, enquanto na faixa de 25 a 34 anos esse valor é de 24%. São eles os que têm menor expectativa de deixar a cidade, apontado por 52%, frente aos 71% de quem tem 45 a 54 anos. São eles também os que mais sentem orgulho de seus bairros.

Segundo os próprios jovens a prefeitura, igrejas, universidades e ONGs são os que mais geram impacto positivo em suas vidas, enquanto a mesma pesquisa mostra que o maior incômodo dos jovens é a violência (29%) e a desigualdade (21%), retrato da cena social que foi naturalizada no país. A esperança (23%) vence a decepção (13%) entre eles, apesar de ser a faixa etária mais afetada pelo desemprego recorde de 31,84% no terceiro trimestre de 2020.

Os jovens são os mais animados com a atual composição mais diversa da Câmara. 40% indicaram que o aumento da diversidade é bom para a cidade, contra o conservadorismo dos mais velhos – somente 14% dos que têm entre 45 e 54 anos fizeram a mesma afirmação. São jovens também aqueles que têm mais vontade de participar da vida política da cidade.

Um dado que desmonta preconceitos é a demanda por uma relação mais presencial durante as votações do poder público municipal legislativo, essa indicação é feita quase três vezes mais por jovens de até 24 anos (26%) do que entre os que têm mais de 55 anos (10%), indo contra o senso comum de que o jovem só quer participar nas mídias sociais.

São jovens os mais esperançosos, os que buscam o progresso e a necessária mudança que precisamos, são jovens os mais orgulhosos em pertencer, ao mesmo tempo que sofrem com violência e desemprego. O que fazer?

Problemas complexos não pedem soluções simples, porém, podemos dizer que a falta de representação do jovem na política brasileira é um dos fatores que afeta nossa baixa capacidade de respostas políticas efetivas. Se faltam exemplos para seguir, como sonhar?

Não se pode afirmar que não há interesse dos jovens em geral na política quando temos como exemplo o movimento estudantil; basta lembrar que tivemos forte movimentação dos estudantes secundaristas em 2015 e a atividade de grêmios universitários. O que acontece hoje é que os jovens são um dos públicos mais impactados pela falta de perspectiva, estão desmotivados ou ocupados demais com sua sobrevivência, sobrando pouco tempo a ser dedicado à política. Nesse momento governos, empresas e sociedade civil organizada têm um grande desafio em dialogar com esse jovem e construir com eles as soluções para o País.

Um dos grandes obstáculos para a aproximação dos jovens na política está ligado à falta de representatividade. Certamente o jovem não se sente representado, é natural um certo incômodo já relacionado à idade, mas para além disso, há pouquíssimas ações transformadoras por parte de governos ou partidos para envolvimento dos jovens em seus quadros, não há também lideranças jovens em destaque que possam motivar e mostrar um caminho para quem está fora da política, salvo raras exceções.

Para impulsionar esse interesse precisamos lançar mais lideranças políticas jovens dentro de partidos e movimentos, gerando uma aproximação mais orgânica com esse grupo, além disso, atualizar as estratégias de comunicação é essencial para que a mensagem chegue aos jovens.

As pautas precisam estar mais próximas: temas como gênero, família, corrupção, emprego, meio ambiente, mobilidade e justiça social são preocupações, mas devem ser abordados de maneira estratégica. Essa estratégia passa por um maior diálogo com influenciadores, pela busca ativa de jovens lideranças, diálogo constante, por uma linguagem mais visual, pelo suporte, inclusive financeiro, por políticas de inclusão no mercado de trabalho, na universidade e na política institucional.

Os novos partidos parecem estar na frente dos demais em termos de práticas de comunicação, enquanto os mais tradicionais têm estruturas de juventude bem montadas internamente, mas desempenham pior na comunicação direta, talvez impactados pela alta média de idade de suas lideranças. O Brasil precisa de um pacto de oxigenação política, formar novas lideranças e ter atenção especial aos mais vulneráveis, nosso futuro depende disso.

*Paulo Loiola é mestre em gestão de políticas públicas e estrategista político, administrador, sócio fundador da Baselab, com MBA em Responsabilidade Social, Terceiro Setor e em Gestão Energética

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