Curso de inglês aceitou dinheiro de organização de Cabral para contratar seguranças, diz funcionária

Curso de inglês aceitou dinheiro de organização de Cabral para contratar seguranças, diz funcionária

Rosemere Rosa, do setor financeiro da empresa, declarou que empresário pegou o valor entre 2011 e 2015

Constança Rezende, do Rio de Janeiro

29 Agosto 2017 | 18h55

Sérgio Cabral. Foto: Reprodução

Uma funcionária de cursos de inglês franqueados do grupo Brasas admitiu nesta terça-feira, 29, que a empresa emitiu notas fiscais frias para Luiz Carlos Bezerra, suposto operador do ex-governador Sérgio Cabral Filho  (PMDB). Segundo Rosemere Rosa Freitas Rodrigues, que cuidava do setor financeiro da empresa, o empresário John O’Donnell teria aceitado o valor para contratar seguranças informais para o curso.  O Ministério Público Federal (MPF) diz que Bezerra movimentou R$ 1.195.300 em contratos fictícios com as empresas de O’Donnell, em 109 repasses.

O esquema teria durado de maio de 2011 a outubro de 2015 e foi feito por meio de uma empresa fictícia de Bezerra e de sua mulher, Cláudia Bezerra, a CSMB informática. Segundo o MPF, a empresa de Bezerra foi criada para a “simulação de prestações de serviços com o fim de ocultação de dinheiro ilícito”. A CSMB nunca possuiu empregados e tem como sede o endereço residencial do casal, em Botafogo, bairro da zona sul do Rio.

“Esses serviços nunca foram prestados. Nós emitíamos as notas, e o Carlos Bezerra ou a  Cláudia, por mais vezes, iam entregar os envelopes de dinheiro na sede da empresa, no Centro. Por conta da falta de segurança no Rio, o curso resolveu participar do esquema, pois estávamos perdendo alunos e precisávamos contratar seguranças”, disse Rosemere. Ela é testemunha de acusação no processo, ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal.

O empresário e o seu filho, John O’ Donnell Junior, resolveram colaborar com a Justiça e estão soltos. Bezerra e O’ Donnell são amigos. O filho do acusado é afilhado do empresário, e o filho deste também foi batizado por Bezerra.

John O’ Donnell relatou ao MPF que, a partir de 2011, e principalmente de 2014 em diante a vida financeira dos Bezerras teve uma “mudança radical”. Eles passaram a fazer viagens internacionais com hospedagem em hotéis de luxo, compra de veículos importados e consumo irrestrito de roupas de marca. Eram gastos incompatíveis com o padrão de vida anterior da família.

O outro filho do empresário, Peter O’ Donnell, admitiu a Bretas que a outra empresa da família, a Striker, de boliches que funcionam no Norte Shopping e Barra Shopping, também foi usada no esquema. Entre fevereiro e abril de 2015, a empresa de boliche teria movimentado R$ 60 mil por meio de seis repasses para a empresa de Bezerra.

“Meu pai disse que precisava ajudar o Bezerra. Nunca houve prestação de serviço”, afirmou o jovem, também testemunha de acusação do MPF no processo.

Em depoimentos anteriores para Justiça, Bezerra confessou a lavagem de dinheiro que era destinado a organização criminosa de Cabral. “Eu emitia uma nota fiscal e o serviço não era prestado”, admitiu a Bretas. Questionado, ele também disse que o dinheiro era entregue em espécie para o “curso Brasas”. “Eu falei para ele (O’ Donnell) que eu precisava esquentar o dinheiro, e ele concordou. Mas também não sabia a origem, como eu também não sabia”, afirmou.

Defesa. Por nota, a assessoria do grupo Brasas disse que Peter O’Donnell confirmou em juízo as informações que já constavam no processo. Também destacou que o empresário John O’Donnel está afastado do Grupo Brasas desde o ano passado.

“O Grupo Brasas reafirma que sempre esteve ao lado das autoridades prestando informações ao Ministério Público.  O Grupo Brasas possui 54 unidades em todo o Brasil, sendo 29 delas franqueadas. Cada franqueada possui um CNPJ próprio e tem total autonomia gerencial e financeira sobre suas unidades. O Grupo Brasas sempre esteve associado à excelência no ensino da língua inglesa e um sólido compromisso com a formação dos seus alunos”, informou.