Cunhada de Vaccari lucrou 100% em negócio com empreiteira da Lava Jato

Cunhada de Vaccari lucrou 100% em negócio com empreiteira da Lava Jato

Marice Correa de Lima, que está com prisão temporária decretada, comprou apartamento Bancoop da OAS por R$ 200 mil e vendeu um ano depois por R$ 432 mil; relatório do Ministério Público Federal aponta 'caráter fraudulento da operação'

Redação

15 Abril 2015 | 14h26

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba 

A cunhada do tesoureiro do PT fez um excelente negócio imobiliário com a empreiteira OAS – alvo da Operação Lava Jato – e lucrou 100% em um breve espaço de tempo, apontam investigadores da força tarefa que desmantelou esquema de corrupção na Petrobrás. Os investigadores falam em “caráter fraudulento da operação” realizada por Marice Correa de Lma, a cunha de João Vaccari Neto. Eles suspeitam que o negócio “serviu para ocultar e dissimular a origem ilícita dos recursos, tratando-se de possível vantagem indevida paga pela OAS a João Vaccari Neto”.

Nesta quarta feira, 15, a Polícia Federal prendeu o tesoureiro do PT e fez buscas na residência de Marice, que também tem contra si decreto de prisão temporária. Ela ainda não foi localizada. Os investigadores acreditam que Marice irá se apresentar.

O negócio realizado por Marice, em 2012, é referente a um apartamento da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop), emblemática entidade fundada por um núcleo do PT nos anos 1990.

Rastreamento bancário e fiscal mostra que a cunhada de João Vaccari Neto comprou em 2011 o apartamento 45 do edifício Navio-Mar Cantábrico no Guarujá, litoral de São Paulo. Pagou, na ocasião, R$ 200 mil, segundo sua própria declaração ao Imposto de Renda. No ano seguinte, porém, segundo a declaração de 2013, ela vendeu o imóvel para a empreiteira OAS por R$ 432 mil.

“Ou seja, em pouco mais de um ano obteve um lucro de mais de 100% sobre o valor investido no bem, revendendo com lucro para a própria incorporadora que assumiu a obra, o que, naturalmente, não é razoável”, assinala relatório do Ministério Público Federal.

Trecho de escritura de apartamento de cunhada de Vaccari

Trecho de escritura de apartamento de cunhada de Vaccari

A Bancoop é alvo de uma longa sucessão de ações movidas por cooperados que alegam ter comprado unidades habitacionais, mas até hoje não receberam as chaves. Eles sustentam que a Bancoop repassou a construção dos prédios para a OAS e que a empreiteira cobrou valores superiores aos ajustados na origem dos negócios.

A OAS é alvo da Lava Jato porque teria integrado o cartel que se instalou na Petrobrás para esquema de propinas destinadas a ex-dirigentes da estatal e a deputados, senadores, governadores e ex-políticos. A Lava Jato mostra que Vaccari e a OAS mantém ligações muito próximas. O tesoureiro do PT teria arrecadado até US$ 200 milhões em propinas para o PT – uma parte pode ter saído do caixa da OAS.

Supostamente com a diferença da compra e venda do apartamento no Guarujá a cunhada do tesoureiro do PT teria adquirido outro imóvel por R$ 91 mil de entrada e concedido empréstimo para Nayara Vaccari, filha de Giselda Rousie de Lima e João Vaccari Neto, de R$ 345 mil.”Nesse mesmo ano calendário de 2013 há fortes indícios de movimentação financeira incompatível, entre os meses de setembro de outro, junto ao Banco do Brasil”, assinalam os investigadores.

A força-tarefa constatou que, naquele mesmo ano, de acordo com dados do registro de imóveis, a OAS vendeu em 2014 um apartamento igual, unidade 44-A do Edifício Salinas (Condomínio Solaris), por R$ 337 mil, “valor muito abaixo do que foi pago a Marice Correa de Lima, o que reforça o caráter fraudulento da operação”.

O nome de Marice apareceu nas primeiras fases da Lava Jato, no início de 2014. Ela teria recebido dinheiro no dia 3 de dezembro de 2013 de propina da construtora OAS. Os valores teriam sido entregues em espécie a mando do doleiro Alberto Youssef no endereço Rua Doutor Penaforte Mendes, 157, apartamento 22, Bela Vista.

Posteriormente, em delação, Youssef declarou que no ano de 2010 Vaccari também recebeu a quantia em espécie de R$ 500 mil paga pela empresa Toshiba por contratos com a Petrobrás. Parte desse montante também foi dado em dinheiro para Marice.

Esquema montada pelo PF para suposto elo com pagamento de propina da OAS

Esquema montada pelo PF para suposto elo com pagamento de propina da OAS