Cunha diz que Lava Jato é seletiva e poupa ‘corruptores internacionais’

Ex-presidente da Câmara, interrogado pelo juiz Sérgio Moro, nesta terça, 7, diz que fala 'com a autoridade de quem foi responsável pelo impeachment da ex-presidente da República'; peemedebista diz que sua condenação 'parece decidida' e revelou ter aneurisma como 'Dona Marisa'

Ricardo Brandt, Beatriz Bulla, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

07 de fevereiro de 2017 | 19h47

cunhadepoimento

O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) afirmou nesta terça-feira, 7, ao juiz federal Sérgio Moro – dos processos em primeiro grau da Operação Lava Jato, em Curitiba – que é alvo de um processo político e que corruptores internacionais são poupados.

“Gostaria também de dizer que estamos com um processo político aqui e que empresas estrangeiras, queria protestar, são poupadas de responsabilização e empresas brasileiras pagam bilhões no exterior além da perda de mercado.”

ASSISTA À PARTIR DO 6º MINUTO LEITURA DA CARTA A MORO 

Cunha foi interrogado como réu em uma ação penal em que é acusado de ter recebido em suas contas na Suíça propinas de ao menos R$ 5 milhões referentes à aquisição, pela Petrobrás, de 50% do bloco 4 de um campo de exploração de petróleo na costa do Benin, na África, em 2011.

O negócio foi tocado pela Diretoria Internacional da estatal, cota do PMDB no esquema de corrupção.
O Ministério Público Federal sustenta que parte destes recursos foi repassada para Cláudia Cruz, mulher de Eduardo Cunha, também em contas no exterior – a transação está sendo investigada em outra ação, específica contra a mulher do peemedebista.

“A ação penal é indivisível, mas não houve, por exemplo, a responsabilização da Keppel Fels na sentença divulgada na semana passada, apesar da imputação direta da empresa pelo delator Zwi (Skornicki), ou da Samsung, onde é publica sua participação nos crimes de corrupção, que depôs o presidente da Coréia”, afirmou Cunha, ao final da audiência que durou cerca de três horas.

“As punições não podem ser seletivas e poupar os corruptores internacionais. Falo com a autoridade de quem foi responsável pelo impeachment da ex-presidente da República para defender a legalidade no nosso País.”

Doente. O ex-presidente da Câmara alegou estar com uma aneurisma na cabeça e que não consegue tratamento adequado na cadeia. O peemedebista está detido em Curitiba desde outubro de 2016, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no esquema Petrobrás.

“Eu também sofro do mesmo mal que acometeu a ex-primeira-dama Marisa Letícia, aneurisma cerebral. Aproveito para prestar minha solidariedade para a família pelo passamento.”

Cunha é réu em dois processo com Moro. Na ação em que foi ouvido hoje, o processo está em fase final. Após ouvir os réus, a Justiça abre prazo para as alegações finais da acusação e da defesa, antes de proferir sua sentença.

Segundo ele, o Complexo Médico-Penal, em Pinhas, onde estão preso, não oferece condições de segurança e saúde.

“O presídio onde ficamos não tem a menor condição de atendimento se alguém passar mal. São várias as noites em que presos gritam sem sucesso por atendimento médico, que não são ouvidos pelos poucos agentes que ficam à noite”, argumentou o ex-presidente.

Carta. As críticas ao processo e o argumento de que está doente foi feita por Cunha ao final do interrogatório, em que leu uma carta ao juiz Moro.

“Não é a minha prisão que vai me impedir de poder  elencar as minhas opiniões. Que os verdadeiros culpados sejam punidos, mas respeitado o contraditório a eles e o devido processo legal. E que não haja antecipação de cumprimento de pena por prisão cautelar ao arrepio da lei”, completou.

Cunha questionou ainda os argumentos que sustentam sua prisão preventiva, negando que ele ofereça riscos à ordem pública ou que possa fugir.

“Entendo que estamos diante de um processo que a condenação parece que já está decidida, e que a gente está apenas cumprindo uma mera formalidade processual”, afirmou Cunha.

“Não, ai senhor Eduardo, as questões e provas serão analisas e o senhor está sendo ofensivo”, interrompeu Moro.

No final do depoimento, Cunha disse que a denúncia não comprova que ele foi o responsável pela indicação do ex-diretor de Internacional da Petrobrás Jorge Zelada e que não há provas de corrupção.

O Ministério Público Federal sustenta que Zelada teria acertado propina para o PMDB e para o ex-presidente da Câmara.

“Era isso que eu queria ressaltar aqui.”

 

 

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