Culturas milenares à beira do abismo

Culturas milenares à beira do abismo

Anita Mattes*

08 de setembro de 2020 | 07h30

Anita Mattes. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Salvem mil anos da arte de vidro”! Esse é o apelo feito recentemente por alguns maestros da cultura tradicional de produção de vidro artístico soffiato da ilha de Murano, situada na região de Veneza.

Para tais profissionais, melhor seria fechar a bottega histórica da família que continuar a manter o forno aceso sem nenhum pedido de compra ou turista para adquirir sua arte milenar de modelar o vidro incandescente. Essa arte, com significativas influências árabes e asiáticas, tem seus primeiros registros de existência datados a partir do ano de 982 D.C. e transformou nos últimos séculos essa pequena ilha veneziana no centro mundial de artesanato e arte tradicional, dando origem à vidraria e ao design mundial contemporâneo.

É compreensível a preocupação dos bottegai, uma vez que até metade de agosto, época de maior faturamento do ano, alguns ainda não haviam vendido nenhuma peça e outros nem sequer aberto as portas. Os mais resistentes decidiram continuar com as bottegas abertas simplesmente para manter o forno aceso, tendo em vista que se ele apagasse demoraria cerca de 15 dias para voltar a queimar normalmente peças a 1500 graus.

Contudo, o colapso da ilha de Murano teve início há alguns anos, sendo que atualmente não restam mais do que 600 fábricas (150 oficiais) das mais de 6.000 mil existentes nos anos 80, as quais alimentavam, à época, quase 10 mil famílias da região.

Inicialmente, sofreram com a globalização econômica que facilitou o comércio de peças falsificadas e a concorrência de baixo custo, obrigando o encerramento de quase 1500 fabricas nos anos 90. Calcula-se que, atualmente, cerca de 75% das peças disponíveis no mercado como made in Murano são falsas.

Como se não bastasse esse fator de mercado, a região vem sofrendo os efeitos das mudanças climáticas nos últimos anos. As elevações das marés responsáveis pelas graves e cada vez mais frequentes enchentes provocaram impactos que paralisaram Veneza e todas as ilhas ao redor, gerando um cenário apocalíptico. O mar chegou a níveis (187 centímetros) que não eram vistos desde novembro de 1966, cobrindo mais de 80% da superfície habitável da região, fechando escolas, museus e fábricas e causando um prejuízo de centenas de milhões de euros.

Ainda mais recentemente, com a pandemia do COVID-19, as atividades econômicas e culturais de Murano foram estacionadas por meses, criando-se o receio de que tal doença pudesse provocar um golpe fatal na produção daquele patrimônio cultural imaterial milenar e único.

Visando evitar o infortúnio, foi editada a lei Rilancio, que prevê a distribuição de 55 bilhões de euros para reerguer o país após a epidemia, dos quais 5 bilhões estão orçados para o turismo e a cultura, de modo que os borgos históricos mais atingidos possam sobreviver. No entanto, segundo algumas associações artísticas locais, essas medidas emergenciais não serão suficientes. De acordo com elas, seria necessário e imprescindível que houvesse também um plano de salvaguarda específico com ações e medidas de longo prazo que permitissem defender a ilha de Murano do turismo de massa e low cost viciados em souvenir industrial.

O primeiro passo para evitar a extinção desse patrimônio, segundo clamam essas associações, seria o reconhecimento pela Unesco do seu valor cultural universal, inserindo-o na Lista Representativa de Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco, nos termos da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, adotada em Paris em 17 de outubro de 2003.

A boa notícia é que, após seis anos de tramitação burocrática referente à tal candidatura, a Unesco finalmente aprovou o dossiê elaborado pela Itália e pela França para a “arte da perola do vidro de Venezia”. A decisão final provavelmente será tomada no próximo encontro do Comitê de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, em sua décima quinta sessão, programada para novembro / dezembro de 2020.

Realmente, pensar na cultura tradicional como centro da riqueza histórica de uma comunidade, visando a valorização e a consolidação da identidade única de um determinado território é imperioso, especialmente nessa nova fase pós-pandemia que estamos vivendo. No caso específico da ilha de Murano, pode ser uma excelente oportunidade para refletir sobre novas ideias e inovações, bem como para estimular os moradores a redescobrir e a investir em abordagens diferenciadas que envolvam as dimensões sociais e ambientais para um turismo mais sustentável, a fim de equilibrar as necessidades e interesses dos habitantes locais e as de seus visitantes.

*Anita Mattes, advogada na área de Direito Internacional e Patrimônio Cultural, é cultore della materia na Università degli Studi di Milano-Bicocca, doutora  pela Université Paris-Sanclay, mestre pela Université Panthén-Sorbone e conselheira do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCult)

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