Cultura gera paz?

Cultura gera paz?

José Renato Nalini*

24 de março de 2022 | 16h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Estes dias ouve-se falar em “cultura da paz”. É anseio generalizado, só não comungado pelos acometidos de anomalia mental. E não são poucos. Todavia, muitos falam em cultura sem saber exatamente do que se trata. Existe uma tendência a se considerar cultura como sinônimo de civilização.

Recorro, com frequência, a um ensaio de T. S. Eliot, chamado “Notas para a definição de cultura”. Embora escrito a partir da II Grande Guerra e publicado em 1948, suas lições continuam atuais. Ele considerava inadequada a utilização do verbete “cultura”, pela maior parte de seus usuários.

À essa altura, a humanidade estava inteira apavorada porque o mesmo século 20 oferecera a carnificina de dois conflitos globais. Entre as tentativas de redesenhar o mundo, incluía-se um plano de colaboração internacional que também contemplasse educação e cultura. À Conferência das Nações Unidas com o intuito de estabelecer uma Organização – que seria a ONU – compareceu o Primeiro Ministro inglês Attlee, que iniciou sua oração afirmando que, para compreendermos nossos vizinhos, devemos compreender sua cultura, através de seus livros, seus jornais, rádios e filmes. Estaria contida toda a cultura desconhecida em tais elementos?

Nesse mesmo encontro, a Ministra da Educação, Srta. Wilkinson, discursava: “Agora estamos reunidos: trabalhadores em educação, em pesquisa científica e em diversos campos da cultura. Representamos aqueles que ensinam, que descobrem, aqueles que escrevem, que expressam suas inspirações através da música e da arte. Por fim, temos a cultura. Alguns podem argumentar que o artista, o músico, o escritor, todos os trabalhadores criativos nas humanidades e nas artes não podem ser organizados, seja nacional, seja internacionalmente. O artista, diz-se, trabalha para satisfazer a si próprio. Esse poderia ter sido um argumento plausível antes da guerra. Mas aqueles de nós que se lembram da luta no Extremo Oriente e na Europa nos dias que precederam a guerra aberta, sabem o quanto a luta contra o fascismo dependeu da determinação de escritores e artistas em manter os contatos internacionais que conseguiam alcançar através das barreiras fronteiriças que se erguiam rapidamente”.

Partilho dessa convicção de que os seres humanos conscientes da insanidade contida em uso de violência e de armamento para ceifar vidas de outros humanos, podem e devem fazer algo em favor da convivência pacífica. A longeva concepção de que a humanidade está em processo de aprimoramento, a cada ciclo se tornando um pouco menos imperfeita do que o anterior, ainda alimenta os otimistas. Como observava Eliot, “uma nova civilização está sempre em construção: o estado de coisas que desfrutamos hoje ilustra o que acontece com as aspirações de cada época por um futuro melhor. A questão mais importante que podemos levantar é se existe um modelo permanente pelo qual podemos comparar uma civilização com outra, e através do qual podemos prever o progresso ou o declínio de nossa própria civilização. Precisamos admitir, comparando uma civilização com outra, e comparando os estágios de nossa própria civilização, que nenhuma sociedade e nenhuma de suas épocas compreende todos os valores da civilização”.

Parece evidente que nem todos os valores que cultivamos são compatíveis entre si. Principalmente nestes dias, constata-se uma imensa divergência na hierarquia dos bens da vida nutridos por várias “tribos” que tentam deter a hegemonia do pensamento. Nem é certo definir culturas como sendo superiores, em relação a outras, que taxamos como inferiores. O Brasil, por exemplo, teria muito a aprender com os “verdadeiros donos do território”, os indígenas que foram dizimados, em verdadeiro genocídio, que – lamentavelmente – ainda perdura.

Quando o branco “civilizado” chegou aqui, há pouco mais de quinhentos anos, a cobertura vegetal estava intacta. Era tão luxuriante a natureza, tão coloridas as flores, principalmente bromélias e orquídeas, a penugem dos pássaros, que os portugueses achavam ter redescoberto o Éden, jardim do qual o primeiro casal fora expulso por soberba.

Seria a cultura capaz de preservar o patrimônio natural que antecedeu a colonização considerada inferior? Ou pode-se considerar mais culta uma sociedade que extermina a biodiversidade ou que se resigna a vê-la dizimada sem reagir?

Não é de se estranhar que a “cultura”, como a conceituam muitos, seja necessária, mas insuficiente para gerar a paz de que o mundo necessita.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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