Cultura contra a tirania

Cultura contra a tirania

José Renato Nalini*

23 de março de 2022 | 15h20

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Qualquer gesto contra a cultura pode ser considerado um indício de adoção da tirania como tática de governar. É preciso estar atento para que tais sintomas sejam detectados pela lucidez e se possa articular reação contra o retrocesso.

Em seu conhecido ensaio “Notas para a definição de Cultura”, T.S.Eliot (1888-1965) invoca o filósofo britânico Alfred Norton Whitehead (1861-1947), para quem “uma diversificação entre as comunidades humanas é essencial para a provisão de incentivo e do material para a odisseia do espírito humano. Outras noções de hábitos diferentes não são inimigas: são dádivas dos céus. Os homens requerem de seus vizinhos algo assaz semelhante para ser entendido, algo assaz diferente para provocar a atenção e algo grande o bastante para fazer jus à admiração”.

Todos aprendemos e ganhamos quando mergulhamos em culturas distintas das nossas. Pense-se no valioso acervo de conhecimento que a China nos legou: basta mencionar o pastel e o chá. O macarrão, popularizado na Itália, é invenção chinesa. Dos japoneses assimilamos a cozinha – a juventude brasileira adora o sushi – o haicai, a ikebana. Oriundos de ilhas vulcânicas, são exímios no trato com a terra generosa e abundante deste continente.

Assim com todos. À evidência, somos contra a guerra. Mas não necessariamente contra os russos, que também não desejam violência. Tanto que são presos aos milhares. E estes são os que tiveram audácia de se opor à tirania causadora da guerra.

Já os ucranianos, quem assistiu ao “Winter on Fire”, ainda disponível na Netflix, fica ardoroso fã dessa raça valente, que se opôs ao ditador e resistiu, bravamente, com o preço de sacrifício e morte de seus melhores.

Nossa cultura é exuberante. Rica, múltipla, para todos os gostos. Nossa música está em todo o planeta. Nossa arquitetura também. Soubéssemos explorar nossa biodiversidade e estaríamos também trilionários. Apesar do português, que parte da Europa diz ter servido de código durante a II Grande Guerra, nossa literatura emociona quem toma contato com os nossos escritores.

As artes plásticas são cativantes, o cinema concorre com as vanguardas, a fotografia não destoa dos mais festejados no restante do mundo, nosso teatro é pioneiro e destemido, ainda temos artes circenses, o grafismo, os quadrinhos, tudo o que pode fazer uma barreira ao primitivismo que tenta sufocar o talento.

O próprio Eliot proclama: “um povo não deve ser nem unido nem dividido em demasia para que sua cultura floresça. O excesso de unidade pode dever-se ao barbarismo e pode levar à tirania; o excesso de divisão pode ser devido à decadência e também pode levar à tirania: qualquer excesso impedirá um desenvolvimento na cultura”.

Algo para se pensar e refletir num Brasil que se polariza, que procura conspiradores e inimigos em alguns estrangeiros, enquanto se mostra servil em relação a outros. Um Brasil que fanatiza e que não estranha haver separação, rusgas, ofensas e rupturas entre irmãos e amigos íntimos.

Para tudo isso existe um remédio disponível: a cultura. Todas as suas formas, todas as suas manifestações. Pois “o grau apropriado de unidade e de diversidade não pode ser determinado para todos os povos em todos os tempos”, lembra Eliot. Mas dá para notar quando alguns excessos ou falhas são perigosos. Não é preciso ser sábio ou ter a percepção de um estadista para perceber isso.

O nosso país das crescentes desigualdades, escancaradas pela pandemia, tem o compromisso de cumprir os objetivos nacionais permanentes explicitados na Constituição Cidadã, a mais nítida expressão da vontade popular, pois elaborada pelo constituinte em nome do povo. Retoricamente, o povo é o único titular da soberania. Tem de fazer valer essa prerrogativa.

A distribuição iníqua de renda tem de motivar todos os segmentos a uma cruzada nacional de eliminação das fronteiras suscetíveis de serem eliminadas. De redução daquelas ainda insuscetíveis de completa remoção. Uma abertura ao diálogo. A busca de uma livre mistura para a formação de uma comunidade cultural. A unidade possível é o reconhecimento da utilidade das diversidades. O Brasil é uma constelação cultural invejável. Será ainda mais interessante se continuar a absorver outras culturas. Essa já foi uma vocação anunciada deste hemisfério que, para os que aqui chegaram, em 1500, pareceu mostrar-se como o verdadeiro Éden, o Paraíso perdido por nossos ancestrais.

Enquanto houver vontade de permanecer juntos, de arredar as diferenças, de construir um amanhã comum, haverá esperança para o Brasil. E é a cultura o fermento capaz de nos guiar por esse caminho.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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