Cuidados em Saúde Baseados em Valor: redução de custos e aumento de qualidade ao paciente

Cuidados em Saúde Baseados em Valor: redução de custos e aumento de qualidade ao paciente

Renato Velloso*

31 de outubro de 2021 | 06h30

Renato Velloso. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quase todo mundo já ouviu ou falou, em contextos diversos, que a qualidade é mais importante que a quantidade. Quando se trata de atendimento médico, é uma das questões principais, mas, infelizmente, ainda não é colocada em prática como deveria. Para essa lógica funcionar, é importante que o paciente esteja no centro das decisões, seja ouvido permanentemente e avalie a qualidade da consulta e dos procedimentos que realizou. E, na sequência, que a remuneração da equipe de saúde esteja atrelada à qualidade dos serviços prestados e não apenas ao volume. É aí que entra o Value Based Healthcare (VBHC), ou Cuidados em Saúde Baseados em Valor, no qual o profissional de saúde é remunerado por performance.

Trata-se de um conceito que se tornou conhecido em 2006, quando Michael Porter lançou o livro Repensando a Saúde (Redefining Health Care), com a ideia de que os sistemas de saúde devem focar em entregar o melhor resultado com a melhor experiência ao paciente, além de diminuir a ineficiência clínica, mas sem deixar de lado a economia nos custos. Na prática, é um grande desafio, pois, em geral, os custos na saúde já partem de patamares elevados.

Garantir a qualidade, reduzir o custo para o paciente e aumentar a eficiência do serviço de saúde é a missão de todo executivo do setor hoje. Apesar de algumas vezes parecer uma meta inatingível. Não é simples. Exige uma gestão muito próxima e afinada, engajamento dos médicos e de todos os colaboradores, sistemas de escuta do paciente e muita tecnologia. É a inovação que possibilita liberar a equipe de processos burocráticos do dia a dia para que ela tenha mais tranquilidade, tempo e foco no que realmente importa: o paciente.

A pandemia expôs como as mudanças no ambiente afetam sensivelmente o físico e o mental, e a crescente necessidade de repensar o modelo assistencial. Em sua maioria, o mercado atua com um modelo de pagamento apenas por produtividade (fee for service), o médico não é remunerado pelo serviço que está prestando e sim por produtividade. Este alinhamento não favorece o paciente, que não consegue perceber o valor do serviço de saúde que lhe foi entregue.  Na contramão, no conceito do VBHC, a remuneração é proporcional à qualidade, e não à quantidade, que é mais justo tanto para a fonte pagadora quanto para quem recebe.

Para suportar o modelo de VBHC, é feita uma combinação de guidelines médicos em um prontuário eletrônico desenvolvido em conjunto com o time de TI que irá agregar entre outras tecnologias, a Inteligência Artificial que irá propor a ele o tratamento a ser adotado, a partir dos dados que ele inseriu no sistema, fazendo com que ele tenha mais tempo para olhar e conversar com o paciente. Ao final do processo, o paciente é o maior beneficiário, pois o modelo evita desperdício de tempo e dinheiro, como pedidos de exames desnecessários ou que o paciente tenha que contar seu histórico cada vez que chega na clínica.

Outro exemplo bem-sucedido é o da americana Cleveland Clinic, uma das vencedoras do prêmio VBHC 2020. A depressão em adultos nos EUA é elevada e seu impacto no sistema de saúde também, pois é fator de risco altamente prevalente para doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes, além de estar associada a maior morbidade e mortalidade. Indivíduos com depressão muitas vezes têm controle sub-ideal de doenças crônicas, relacionados a uma série de comportamentos de saúde (baixa adesão à medicação).

A depressão, com ou sem acompanhamento de condições crônicas, tem sido associada ao maior uso de serviços de saúde, incluindo maior utilização de pronto-socorro e custo farmacológico. Muitas pessoas deprimidas e não diagnosticadas chegam ao médico e acabam tratando apenas as comorbidade secundárias, sem identificar a depressão. Isso acontece porque as barreiras médicas incluíam o tempo limitado gasto com o paciente e um viés de que a depressão nem sempre é identificada facilmente, principalmente quando a pessoa traz queixas que não necessariamente estão associadas à depressão.

A Cleveland organizou uma força de trabalho com equipes interdisciplinares e, desde 2017, cada paciente com 12 anos ou mais é solicitado a responder ao questionário de rastreamento de depressão anualmente, antes ou durante a consulta com seu médico de atenção primária. Além de outros questionários e índices que medem a qualidade do serviço, com foco em desfecho clínico de acordo com a opinião do próprio paciente.

Se tornou possível que a pessoa e a rede de saúde avaliem a sua saúde de forma integral e acompanhem o estado clínico preventivamente em um único lugar, o que pode evitar ou tratar com antecedência possíveis doenças crônicas.

Em levantamento realizado com 135 mil indivíduos, identificou-se que pacientes com depressão têm duas vezes mais chances de procurar atendimento em um ambiente de emergência, em comparação a pacientes semelhantes que não estão deprimidos. Há também uma proporção maior de pacientes identificados como deprimidos que foram hospitalizados em comparação com aqueles que não relataram sintomas depressivos. Após a intervenção da equipe de atenção primária na Cleveland, a taxa de utilização diminuiu pela metade, representando uma economia no custo desnecessário de 1,3 milhão de dólares em tratamento.

No modelo tradicional, o paciente se consulta em um lugar, faz exames em outros e os procedimentos muitas vezes num terceiro ou quarto local diferente. Isso faz com que ninguém conheça tão bem esse paciente, que suas informações fiquem dispersas e que ele tenha diferentes experiências ao longo de toda a jornada. Dessa forma, só é possível olhar a queixa do paciente e não para ele de forma integral. Fora o tempo que ele perde e o custo para manter todas essas operações independentes.

Para resolver esse ponto, o mercado tem caminhado para a consolidação de empresas de saúde. Em busca de promover maior sinergia e eficiência tanto operacional quanto financeira, vários players têm feito fusões e aquisições tanto de planos de saúde quanto de redes de hospitais. A consultoria RGS Partners mostrou que, no último ano, o Brasil registrou 60 negócios desse tipo, movimentando 1,088 bilhão de dólares.

É um caminho, mas é só o primeiro passo. Em paralelo, é preciso criar sistemas e soluções tecnológicas que suportem a equipe para olhar, ouvir e perceber cada paciente de forma global.

Afinal, como bem definiu a Organização Mundial da Saúde, em 1948, “Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. Um conceito do século passado que ainda não foi efetivamente compreendido.

*Renato Velloso é CEO do dr.consulta

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