Cuidado ao usar

Cuidado ao usar

José Renato Nalini*

22 de outubro de 2020 | 15h35

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Falta um mês para as eleições municipais. As mais importantes para a cidadania. Precisamos de cidades convivíveis! Que não sejam assustadoras, violentas, hostis à vida humana.

São Paulo é um exemplo do que não deveria ser uma cidade. Cresceu desordenadamente. Acabou com os três rios que serpenteavam as várzeas hígidas e piscosas. Sepultou centenas de córregos. Erigiu o asfalto, homenagem cruel ao mais egoísta dos meios de transporte: o carro.

Jogou a população de menor renda para as regiões distantes, condenando-a a se submeter a dois ou três percursos diariamente. Horas perdidas até chegar ao destino laboral.

As represas, que em todo o mundo servem para o entretenimento e o lazer, ganharam densidade populacional de baixa renda. A pandemia veio mostrar que há milhões de invisíveis, de excluídos, de hipossuficientes, de miseráveis, de desempregados e de desalentados.

Ilusão acreditar-se que um Prefeito consiga administrar a contento esta insensatez conurbada chamada São Paulo.

Assim, é preciso uma vez mais acreditar que o povo, único titular da soberania, ou do que restou dela, tem de participar ativamente da gestão da coisa pública. O governo assenhoreou-se de infinitas tarefas e, por óbvio, não dá conta delas. Tudo o que ele faz é menos eficiente, mais demorado, mais custoso e ninguém consegue eliminar de vez a suspeita de que existe algum “malfeito”.

Mas o controle popular pode sanear condutas irregulares. Se o povo soubesse fiscalizar, não haveria a necessidade de se criar estruturas fiscalizatórias. O remédio para administrar uma cidade é contar com a colaboração ativa da população. Cada rua, cada bairro, cada região, precisa elencar suas principais carências e exigir do Poder Público Municipal resposta para o planejamento.

Mas o povo precisa também colaborar de outra forma. Educando as comunidades. E não estou falando no eufemismo da “favela”. Estou falando daqueles grupos que habitam certa região. Eles precisam zelar pela preservação da limpeza, evitando que resíduos sólidos sejam arremessados em qualquer espaço. A população local tem condições de fazer de terrenos baldios hortas ou pomares. Ou viveiros para formar mudas que serão utilizadas no replantio das árvores – tão poucas para 22 milhões de seres humanos – mas cruelmente derrubadas e destruídas a cada fim de semana.

O que o município gasta com a coleta de lixo é um absurdo. Assim como o seu transporte para os antigos “lixões”, hoje também chamados de aterros sanitários, outro eufemismo.

A população deve exigir do Poder Público efetiva observância da lei de logística reversa. Quem produz algo que não vai se decompor no ambiente, é responsável pela destinação útil desse produto. Não é possível que o planeta continue a ser envenenado pelo mau uso de substâncias perigosas, que atravessam os filtros ambientais porque o poder econômico fala mais alto do que a preocupação com a saúde do ser humano.

Para escolher o melhor candidato, é preciso verificar o teor de suas promessas. Quem muito promete, pouco faz. Até porque, o orçamento da maior cidade da América Latina está todo comprometido. Em sua maior parte, para custeio. Sua parcela mais expressiva é o pagamento de salários e de aposentadorias e pensões.

Nada mais aborrecido e ineficiente do que o horário eleitoral “gratuito”. Gratuito para quem, cara pálida? É você, trabalhador, que paga por esse desfile de obviedades.

Vamos usar com prudência, mas com coragem, as redes sociais. Vamos propagar os bons candidatos e alertar os riscos de eleição de pessoas que não poderiam estar a disputar cargos eletivos.

Fala-se muito mal das redes, cujo “dilema” foi bastante comentado nos últimos tempos. Mas é o que temos. Elas devem também servir para conscientizar o eleitor. Sabendo usar, elas são armas poderosíssimas. Quem não acreditou ficou perplexo com os resultados das eleições presidenciais em 2018.

E cuidado também com o vereador. Ele precisa legislar para a cidade, não ser um portador de pedidos ao Prefeito. Para São Paulo e para os outros municípios serve uma advertência que os antigos tinham bem presente: se o governo não atrapalhar, ajuda muito.

Até porque, nossa vocação para o trabalho é atávica. Já está no DNA bandeirante. Mas se tivermos Prefeito e Vereadores bons, honestos, francos e não mentirosos, já teremos dado um enorme passo rumo à urgente e imprescindível transformação da vida política tupiniquim.

Cuidado ao usar as redes, mas contando com elas nestas eleições e também nas próximas.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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