Cui Bono? mira em e-mails de Dina, a vice da Caixa

Cui Bono? mira em e-mails de Dina, a vice da Caixa

Deusdina dos Reis Pereira foi citada em conversa entre lobista e seu antecessor na vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias do banco, Fabio Cleto

Julia Affonso e Fausto Macedo

18 de janeiro de 2017 | 05h15

Caixa. Foto: Estadão

Caixa. Foto: Estadão


A Operação Cui Bono? (a quem interessa?), que investiga fraudes na liberação de créditos da Caixa Econômica Federal para grandes empresas entre 2011 e 2013, rastreia e-mails da vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias do banco, Deusdina dos Reis Pereira, a Dina.

A PF não atribui atos ilícitos ou põe Dina sob suspeita, mas ela foi citada em conversas recuperadas pelos investigadores. A executiva substituiu no cargo Fabio Cleto – que virou delator.

A Cui Bono? foi deflagrada na sexta 13. A Justiça Federal acolheu pedido da Procuradoria da República e da PF e autorizou análise de correspondências de Deusdina. Os investigadores pediram para entrar na vice-presidência de Tecnologia da Informação da Caixa pois haveria ‘mensagens importantes nas contas de correspondências eletrônicas institucionais utilizadas’ pela executiva.

O principal alvo da Cui Bono? é Geddel Vieira Lima, nomeado vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa durante o Governo Dilma. Além de Geddel, fariam parte do esquema o lobista Lucio Funaro, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Fábio Cleto, ex-vice presidente de Governo e Loterias do banco.

Uma das conversas capturadas entre Funaro e Cleto, segundo relatório da PF na Cui Bono?, é de 9 de maio de 2015. O lobista pede para Cleto ‘entrar em contato com ‘Rafael’ para agilizar os papeis da BR Vias.

“Dina tá com ele agora”, diz Cleto. “Dina: ‘Fabio, falei com o Giovani e disse que está td ok com o PA do risco. Como ele me disse que pra fechar o ponte precisa do último ok do risco, vou falar com o Jair’.”

No relatório a PF afirma. “A pessoa mencionada como ‘Dina’, trata-se, ao que parece, de Deusdina dos Reis Pereira, subordinada a Fabio Cleto, já que àquela época ocupava a Diretoria Executiva de Fundos de Governo. Atualmente, ocupa o cargo que outrora pertencia a Fabio Cleto, vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias (VIFUG).”

Segundo o site da Caixa, Deusdina, graduada em Administração de Empresas, entrou no banco em 1??989. Exerceu o cargo de vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias, interinamente, no período de 10 de dezembro de 2015 até 12 de dezembro de 2016.?? Hoje é titular do cargo.

Em outra mensagem capturada, de 24 de maio de 2012, Funaro ‘reitera o questionamento sobre a situação de débitos da Seara recebe a resposta negativa de Cleto’.

Às 12h18, o lobista questiona o então vice da Caixa. “Oi bom dia descobriu p mim qto a seara deve aí.”

Cleto devolve minutos depois. “Não. A Dina é quem consegue acessar o sistema de pessoa jurídica do Banco com uma senha da época que ela trabalhava lá. E ela está vindo para Salvador. Só vou conseguir isso segunda cedo.”

Geddel teve dois imóveis vasculhados pela PF na Cui Bono?, desdobramento da Operação Catilinárias, deflagrada em dezembro de 2015 – na Catilinárias, a PF localizou um celular na casa de Eduardo Cunha. Mensagens recuperadas do celular deram vida à Cui Bono?

O peemedebista foi ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer. Aliado muito próximo do presidente, Geddel caiu da cadeira da Secretaria de Governo em 25 de novembro, em meio ao escândalo protagonizado pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que o acusou de pressioná-lo para que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizasse a construção de um residencial de alto padrão em uma área nobre tombada em Salvador. Geddel tem uma unidade no empreendimento.

COM A PALAVRA, A CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

Quando Cui Bono? saiu às ruas, na sexta 13, a Caixa informou. “No que diz respeito à Caixa esclarecemos que o banco está em contato permanente com as autoridades, prestando irrestrita colaboração com as investigações, procedimento que continuará sendo adotado pela Caixa.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO QUE DEFENDE GEDDEL VIEIRA LIMA

Quando Cui Bono? foi deflagrada, na sexta 13, o advogado Gamil Föppel, que defende Geddel Vieira Lima, afirmou que a ‘malfadada operação’ decorre de ‘ilações e meras suposições não comprovadas’. Em nota, reclamou que a decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal em Brasília, que autorizou a Operação Cui Bono?, foi apressada e ‘não traz nenhum fundamento idôneo que justificasse’ as medidas.

“Além disso, não há indicação pela polícia ou MPF (Ministério Público Federal) de qualquer fato/elemento concreto que pudesse representar corrupção ou lavagem de dinheiro, até porque tais atos jamais foram praticados por Geddel.”

Föppel chamou o relatório da PF de ‘ficcional’ e ‘repleto de suposições’, Argumentou que o documento não aponta concretamente ‘qualquer valor que tivesse sido recebido por Geddel’.
“Geddel nada recebeu. Informa que está, como sempre esteve, à disposição das autoridades”, afirmou.

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