Crivella era ‘subordinado’ a operador de propina, diz desembargadora

Crivella era ‘subordinado’ a operador de propina, diz desembargadora

No despacho que decretou buscas no gabinete e na residência do prefeito do Rio, Rosa Helena Penna Macedo Guita, do Tribunal de Justiça fluminense, elencou provas apresentadas pelo Ministério Público que vinculam o mandatário ao suposto esquema de pagamento de propina na gestão municipal

Caio Sartori/RIO

14 de setembro de 2020 | 18h55

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Foto: Gabriela Biló / Estadão

Ao autorizar mandado de busca e apreensão contra o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), a Justiça elencou provas apresentadas pelo Ministério Público que vinculam o mandatário ao suposto esquema de pagamento de propina na gestão municipal. Os celulares de Rafael Alves, apontado como operador da organização criminosa, foram peças-chave para associá-lo ao prefeito. Esses quatro aparelhos haviam sido apreendidos em março, durante buscas contra Rafael. Durante aquela operação, Crivella ligou para o empresário, mas quem atendeu foi o delegado que cumpria o mandado. Segundo a desembargadora que assina a decisão, o prefeito, alvo de operação na semana passada, é quase um subordinado do empresário.

Documento

O telefone para o qual o prefeito ligou – sem saber que o aliado estava com os agentes – havia sido encontrado sob uma pilha de roupas. Rafael, que não tinha cargos na Prefeitura mas atuaria como gerenciador de propina em troca de contratos com empresas, tentara escondê-lo. Apenas um dos quatro aparelhos foi entregue voluntariamente pelo investigado – os outros dois, além desse que recebeu a ligação de Crivella, estavam num carro de Shana Harouche, mulher de Rafael, no qual também foram encontrados R$ 50 mil, relógios e joias. Indícios, segundo o MP, de que ele se preparava para uma eventual fuga.

“Da análise do conteúdo dos telefones celulares de Rafael Alves, apurou-se que o Prefeito Marcelo Crivella figura como um de seus mais frequentes interlocutores, tendo sido detectadas, no aparelho encontrado sob a pilha de roupas, 1.949 mensagens trocadas entre eles”, aponta a desembargadora Rosa Helena Guita, do Tribunal de Justiça do Rio.

Muitas delas tinham linguagem cifrada, ‘deixando transparecer que seu conteúdo não poderia ser tratado por meios de comunicação convencionais’. As conversas mostravam ainda que vários encontros eram marcados entre Rafael e Crivella, seja na Prefeitura ou na casa do mandatário – os dois moram no mesmo condomínio, na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade.

A operação contra o prefeito, que também passa por investigação no âmbito dos ‘guardiões’ pagos pelo município para evitar que a população denunciasse as más condições na Saúde, atrapalha a sua estratégia de campanha. Crivella, cuja gestão é impopular e não tem uma marca clara, busca associar o principal adversário, Eduardo Paes (DEM), à corrupção. Com os casos recentes em que se envolveu, o prefeito encontrará dificuldades para levar o debate eleitoral a temas morais. Após não conseguir o apoio do rico PSL, Crivella escolheu a tenente-coronel Andréa Firmo, do próprio Republicanos, para ser sua vice.

Subserviência

Por ter sido o principal articulador econômico para a campanha de Crivella em 2016, Rafael Alves – que conseguiu para o irmão, Marcelo Alves, a vaga de presidente da Riotur – exercia influência constante sobre o comandante carioca. Segundo o MP e a Justiça, o prefeito acatava ordens do empresário como se fosse um subordinado: desfazia atos administrativos a pedido dele, por exemplo. “A subserviência do prefeito a Rafael Alves é assustadora”, afirma a magistrada.

Rafael, de acordo com as investigações, trabalhava de uma sala na Prefeitura que ficou conhecida como ‘QG da Propina’. Ele nunca foi nomeado pelo Executivo carioca, mas sua função seria a de coordenar o suposto esquema de recebimento de pagamentos ilegais para viabilizar contratos de empresas com o município.

Seu poder era tanto que, segundo as investigações, empresas indicadas por ele tinham prioridade para receber pagamentos, mesmo que não estivessem dentro dos critérios prioritários do município – por causa da crise financeira que vive, o Rio não consegue quitar em dia todos os fornecedores. Há registros de mensagens do empresário em que ele determina os pagamentos como se fizesse parte do governo.

Por essa influência e pelo que sabe sobre Crivella, Rafael Alves é tido como um ‘homem-bomba’. A expressão foi usada pelo marqueteiro Marcelo Faulhaber em conversa com ele. Para a Justiça, essa alcunha é uma ‘expressa alusão aos seus conhecimentos sobre o funcionamento de toda engrenagem criminosa que envolve o Prefeito e os demais membros da organização’.

Rafael, por sua vez, fala a Faulhaber que Marcelo Alves jamais seria demitido da presidência da Riotur, por causa de ‘tudo que sei dele e da família dele’ – em referência a Crivella. A todo momento, Rafael e Faulhaber dão a entender que têm conhecimento de casos ilegais relacionados ao prefeito e sua família. O marqueteiro, inclusive, rompeu com Crivella e enviou a Rafael uma captura de tela da conversa que teve com o mandatário. Nela, diz que ‘esse é um governo que rouba, que o prefeito sabe que rouba, e que mesmo assim não faz nada’.

Faulhaber afirma ainda que tem registros de tudo o que aconteceu na campanha de 2016 envolvendo o tesoureiro Mauro Macedo, sobrinho do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus – Crivella é bispo licenciado da agremiação. Atualmente, o marqueteiro trabalha para o principal adversário do prefeito na sua tentativa de reeleição, Eduardo Paes.

A Universal enquanto CNPJ também é citada na decisão da desembargadora, cujo sigilo judicial caiu nesta segunda-feira, 14. As conversas entre o empresário e o marqueteiro dão a entender que eles sabem de ‘fatos comprometedores’ envolvendo a igreja. E, além disso, há um relatório de inteligência financeira anexado à investigação que mostra movimentação de R$ 5,9 bilhões nas contas da igreja, ‘o que sugere envolvimento no esquema criminoso de lavagem de dinheiro’.

COM A PALAVRA, O PREFEITO MARCELO CRIVELLA

Crivella nega as acusações, ataca a Rede Globo e afirma que pediu para a Justiça quebrar o sigilo da decisão cujos detalhes vinham sendo noticiados pela emissora. Ele alega que a operação é uma tentativa de interferência no processo eleitoral. “Desde o primeiro momento, o prefeito Marcelo Crivella informou que ele já havia colocado à disposição do Ministério Público, antes da operação, os seus sigilos bancário, telefônico e fiscal, por conta de denúncias publicadas na imprensa”, diz a assessoria.

O prefeito afirma ainda que refuta as denúncias e as ‘ilações’ que estão sendo feitas envolvendo seu nome. “O prefeito está absolutamente tranquilo e ciente que enfrenta uma batalha com uma emissora de televisão, cujos interesses deixaram de ser atendidos em sua gestão.”

COM A PALAVRA, RAFAEL ALVES

O Estadão não conseguiu contato com a defesa de Rafael Alves, mas ele sempre refutou as acusações, que considera precipitadas. Segundo seus advogados, o suposto operador do ‘QG da Propina’ tenta há mais de nove meses prestar esclarecimentos ao MP, mas ainda não teve a oportunidade.

COM A PALAVRA, A IGREJA UNIVERSAL

A Igreja Universal, assim como Crivella, associa o caso a uma suposta perseguição da Globo. E, mesmo não sendo oficialmente uma participante das eleições, diz estar sendo atacada às vésperas da disputa – ‘ou seja, em um momento oportuno para causar polêmicas’, segundo a igreja. A agremiação também critica o vazamento de peças do processo e os dados de movimentação financeira identificados no relatório.

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