Crises que nos desafiam a sermos melhores

Claudio Senna*

23 Julho 2017 | 04h30

Estamos em crise. Isso é um fato.

Todos os jornais trazem manchetes que noticiam crises, conversamos, debatemos e pensamos em maneiras de nos livrar delas. Com tantas dificuldades, parece que somos impotentes diante da instabilidade e complexidade que as crises trazem. No Brasil, vamos completar mais um ano em que esse assunto tomou conta de nossas agendas. É claro que a nossa situação é grave, mas não somos os únicos a sofrer com este cenário. No mundo inteiro, ao olharmos qualquer sociedade com maior proximidade, vamos descobrir que crises aparecem de surpresa, desafiando governos, empresas privadas e organizações públicas, que, muitas vezes, se mostram incapazes de lidar com tamanha complexidade.

Apesar das crises terem se tornado o novo normal, poucos de nós compreendem plenamente sua dinâmica e são capazes de encontrar maneiras de enfrenta-las. O fato é que vivemos em uma época de grande insegurança, que passou a configurar uma nova ordem, mais instável, dinâmica e veloz, onde a monotonia e a segurança ficaram no passado. Este novo paradigma passou a ser chamado de mundo VUCA, uma sigla que em inglês significa volátil, incerto, complexo e ambíguo (volatility, uncertanty, complexity and ambiguity).

O termo VUCA nasceu no meio militar e ficou popular quando as forças americanas foram surpreendidas pelo ambiente operacional para combater o terrorismo no Iraque e no Afeganistão. A guerra contra o terror é totalmente diferente de uma convencional, para qual as forças militares estavam preparadas. Nesse novo ambiente, não existem decisões certas ou erradas, existem dilemas, onde as escolhas podem ser melhores ou piores.

Mas o termo VUCA não se aplica unicamente ao ambiente militar. O mundo corporativo logo se identificou ao encontrar similaridades com um ambiente de negócios cada vez mais complexo e instável.

Essa instabilidade está relacionada, principalmente, à velocidade da evolução tecnológica, ao volume das informações, à globalização dos mercados e ao alongamento das cadeias logísticas mundiais. Somado a isso, temos fatores ambientais e sociais que potencializam e amplificam as chances de crises. A população mundial caminha para atingir 8 bilhões, concentrada cada vez mais em centros urbanos. Com isso, megacidades sofrem com as consequências de nos aproximarmos dos limites da capacidade da natureza. Qualquer seca mais severa ou chuva mais intensa pode causar o colapso de serviços básicos, como abastecimento e transporte.

Também não podemos nos esquecer das questões econômicas. Com negócios interdependentes e conectados globalmente, um problema no distante leste asiático pode inviabilizar uma linha de produção no ABC paulista, por exemplo. A globalização gerou negócios mais lucrativos, mas também mais instáveis e transitórios.

Sou da época do LP analógico e dos toca discos de agulha. Me lembro perfeitamente do dia em que vi, e ouvi, o primeiro CD. Naquela época, fiquei maravilhado com a pureza do som digital e tive certeza que o CD veio para ficar. Estava enganado, logo veio o DVD, o MP-4 e o iTunes. Hoje, ouço música por um serviço de streaming. Por quanto tempo o streaming vai durar? Ninguém sabe. Só sei que para continuar a ouvir minhas músicas prediletas, provavelmente, vou ter que mudar de tecnologia várias vezes ainda nos próximos anos. Tanto as tecnologias como os modelos de negócios se tornaram mais perecíveis, com ciclos de vida mais curtos, colocando em risco empresas e empregos.

Por conta dessas características, temos que admitir que crises se tornaram rotina. Ciclos de crises vão se suceder continuamente e temos de aprender a conviver neste novo paradigma instável, complexo e ambíguo. As empresas e organizações precisam se adaptar ao mundo VUCA.

Mas essa adaptação nem sempre é fácil ou possível. Quanto a isso, podemos classificar as empresas e organizações em três categorias. A primeira é composta pelas organizações vulneráveis, aquelas que diante de uma crise ou alteração disruptiva não conseguem resistir e se tornam obsoletas e irrelevantes.

São aquelas organizações que não têm capacidade de se adaptar e responder com alterações em seus modelos de negócio.

A segunda é composta pelas organizações resilientes. Resiliência é a capacidade de “sair do buraco e se recuperar”, conforme a professora Rosabeth Kanther nos conta em seu artigo: “Surpresas são a regra e a resiliência a nova arma” (Harvard Business Review – 2017). Uma organização resiliente consegue absorver o impacto de uma crise e voltar a ser o que era antes.

A terceira categoria é composta por organizações que Nassin Taleb chama de anti-frágeis (Antifragile – 2012). Essas, além de conseguirem superar as dificuldades de uma crise, conseguem sair delas melhores do que entraram. São organizações que conseguem aprender com as diversidades e se tornam melhores ainda. O caótico e o inesperado fazem bem a organizações que possuem esta capacidade, pois as empurra para novos padrões de evolução e desenvolvimento.

Para sobreviver e, principalmente, evoluir em ambientes complexos e cheios de surpresas e desafios, é cada vez mais importante entender as dinâmicas e possibilidades que uma crise traz. Iremos conviver com crises cada vez mais frequentes e agudas, então, já que isso é inevitável, que estejamos melhor preparados, com instrumentos mais robustos além da nossa intuição e improviso. Que o conhecimento e sabedora nos guiem para sairmos melhor dessa crise em que nos encontramos.

*Autor de Gerenciamento de Crises – usando Mapas Críticos para organizar o que é complexo e caótico (Alta Books)

Mais conteúdo sobre:

Artigocrise