Crise reputacional exige inteligência e responsabilidade, não negacionismo

Crise reputacional exige inteligência e responsabilidade, não negacionismo

Carlos Fernando dos Santos Lima*

24 de setembro de 2020 | 12h40

Carlos Fernando dos Santos Lima. FOTO RODOLFO BUHRER / ESTADAO

Fale mal/Mas fale de mim/Não faz mal/Quero mesmo assim/Você faz cartaz pra mim/O despeito seu/Me põe no apogeu. Muitas vezes temos a vontade de cantarolar o velho samba de Ataulfo Alves quando ouvimos críticas a respeito de nossa conduta. É natural do ser humano reagir de forma confrontacional nessa situação, menosprezando a análise objetiva dos fatos, apenas remoendo a emoção negativa.

Assim parece agir o governo Bolsonaro em todas as críticas que lhe são feitas. Não fossem apenas as barreiras intelectuais impostas por um conjunto de crenças defasadas, especialmente a de uma geopolítica da década de 50 do século passado, professadas por Jair Bolsonaro e sua equipe, ainda há uma dificuldade dos principais agentes políticos do governo federal em aceitar argumentações científicas e lógicas, preferindo se esconder em uma retórica de pós-verdade, onde o que importa é apenas a reação emocional e adesão dos seus nichos políticos, mas não a análise isenta para a correção de rumos, sempre em busca do interesse público.

Assim tem sido em questões importantes e urgentes para nosso país, como o combate à covid e às queimadas que acontecem nos diversos ecossistemas brasileiros. Não fosse apenas o prejuízo inerente à falta de políticas públicas efetivas, esse comportamento ainda incentiva condutas equivocados e até mesmo criminosas por parte da população. Dessa forma, menosprezar os fatos terá, no máximo, um efeito retórico positivo momentâneo, pois não trabalhar com soluções efetivas para os grandes problemas nacionais somente os fará agravar até o ponto de se tornar insustentável qualquer negacionismo ou cegueira ideológica.

Enfrentar a crítica de forma humilde e objetiva, portanto, é a solução. É o que ensina qualquer manual de compliance para o controle de crises. Estar no meio de um escândalo, de uma crise reputacional exige sempre inteligência e responsabilidade. Isso vale para todos aqueles que vivem em função do público, sejam profissionais liberais, celebridades ou empresas. Isso vale também para qualquer governo.

Dessa forma, o discurso de Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas – ONU é a representação de tudo o que de errado pode ser feito em casos de crise como as que o Brasil enfrenta atualmente. Negar fatos e distorcer informações diante de uma plateia qualificada só traz descrédito para a pessoa que o faz. Culpar inocentes para proteger interesses econômicos equivocados é demonstração de um espírito pequeno e mesquinho. Em nada a participação de Jair Bolsonaro acrescentou de positivo ao país. Pelo contrário, só confirmou o obscurantismo e negacionismo que impera hoje em nosso governo.

O Brasil, por óbvio, é maior que Jair Bolsonaro. Nosso país precisa reagir e demonstrar por seus setores econômicos modernos que a retórica de nosso presidente não impedirá que a sociedade corrija os rumos do país, seja através das eleições, seja por pressão constante sobre os agentes políticos para que ajam no real interesse do país.

A crise do desmatamento e queimadas é emblemático dessa situação. O setor do agronegócio brasileiro é pujante, tecnológico e globalizado. Conhece muito bem o valor agregado aos produtos por certificações e boas práticas que estão ligadas à conservação ambiental. Acessar os mercados mais exigentes e sofisticados como o europeu e o americano garante a diversidade de compradores necessário para enfrentar situações de crises políticas em países importadores menos exigentes. Enfim, tornar-se um pária no mundo dos negócios para sustentar uma visão anacrônica de um grupo ideológico é um erro.

Assim, se o cartaz negativo das críticas mundiais pode ser usado por Jair Bolsonaro para encantar a parcela obscurantista e antiglobalista de nossa população, ela não é nem política nem economicamente sustentável. O Brasil não se pode dar ao luxo de permitir que Jair Bolsonaro destrua a reputação do país. Não podemos cantarolar o bom e velho Ataulfo enquanto a riqueza nacional vai virando fumaça.

*Carlos Fernando dos Santos Lima é advogado especialista em compliance e procurador da República aposentado

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.