Crise entre EUA e Irã e a política de combustíveis: como isso influi no Brasil?

Crise entre EUA e Irã e a política de combustíveis: como isso influi no Brasil?

Rodrigo Alcântara*

22 de janeiro de 2020 | 08h00

Rodrigo Alcântara. FOTO: DIVULGAÇÃO

O ano mal começou e já tivemos preocupações relacionadas a política internacional e mercado financeiro devido aos conflitos recentes entre os Estados Unidos e o Irã. O ataque via drone e de alta precisão, perpetrado pelo governo americano, e que acabou causando a morte de Qassim Suleimani – major-general iraniano da Guarda Revolucionária Islâmica (GRI), comandante da Força Quds e um dos homens mais poderosos do Irã – gerou grande inquietação por abrir portas para possíveis conflitos, que iriam representar a retaliação iraniana à maior potência militar do mundo.

Além dos conflitos bélicos no oriente médio, esse desentendimento entre as duas nações gerou muita ansiedade em relação a comercialização do petróleo e ao aumento de seu valor, em praticamente todos os países.  Sendo assim, a pergunta que não quer calar é: como esse conflito entre os Estados Unidos e o Irã pode afetar o preço do petróleo e de que forma isso pode atingir os brasileiros, tendo em vista a atual política tarifária dos combustíveis?

O primeiro ponto a se entender é como o Irã pode influenciar na alteração do preço do petróleo no mercado internacional. Depois, vamos voltar um pouco mais, para entender como é a nossa política de preço atual, que influencia diretamente as bombas de combustíveis em todo o Brasil.

Nas décadas de 90 e 2000, os iranianos não construíram uma interação tão amigável com as grandes potências econômicas mundiais (Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, China e Rússia), pois se suspeitava que os mesmos estavam trabalhando na elaboração de projetos para a produção de armas nucleares. Depois de acusações e tentativas de investigações, a Organização das Nações Unidas (ONU) aplicou sanções ao Irã para que o projeto nuclear fosse interrompido. Tais medidas prejudicaram bastante a economia iraniana, o que por sua vez, provocou um período de crise e de constantes protestos populares.

Mesmo depois do presidente iraniano, Hassan Rouhani, firmar acordos com as potencias econômicas mundiais para a retirada das sanções em troca da diminuição das atividades nucleares, os protestos prevaleceram e o governo do país não tolerou as desordens sociais, o que deu origem a conflitos internos e até mortes.

Desde então, críticas e acusações, contra o governo iraniano, foram feitas pelo presidente americano Donald Trump, que em 2018 retirou os EUA do acordo nuclear com o Irã, retomando as sanções contra o país. A acusação mais séria de Trump foi atribuir ao governo iraniano, a responsabilidade pelo ataque que ocorreu em setembro de 2019, a uma refinaria na Arábia Saudita.

O desenrolar do conflito vem sendo muito discutido e acompanhado pela mídia, uma vez que, podem causar consequências graves a economia mundial. Além disso, Trump pode ganhar popularidade em ano de eleições nos Estados Unidos, uma vez que, tenta se mostrar como um bom articulador e negociador em um momento bem próximo do período de votações. Mas o que realmente preocupava ao mercado financeiro é a especulação de uma possível intervenção dos iranianos no Estreito de Ormuz – que é um canal que conecta o Oceano Índico com o Golfo Pérsico, sendo uma das principais rotas do comércio de petróleo no mundo.

Essa especulação trouxe mais volatilidade ao mercado financeiro e o aumento do preço do petróleo. Não somente isso, mas vários outros fatores, fizeram o petróleo dar um pico de alta, como por exemplo, a sazonalidade das commodities. O elevado preço que se faz presente em quase todos os anos no mês de dezembro é devido ao inverno no hemisfério norte e a baixa na produção do óleo. Outro fator que pode ter impactado o aumento do petróleo foi a procura dos investidores por uma maior proteção, algo inerente a lei da oferta e demanda. Comum no mercado financeiro, quando há conflitos e realizações de posições de ativos financeiros pelos investidores devido a incertezas, a procura por commodities – como o ouro e o petróleo – acabam servindo como hedge ou proteção nas operações.

Os aumentos do valor do petróleo identificados nos dias 3 e 6 de janeiro acabaram desacelerando para um patamar próximo ao que estava antes da tensão entre os EUA e o Irã. Caso essa situação prevalecesse, as bombas de combustíveis poderiam ser impactadas. Isso porque, desde 2016, a Petrobrás, segue a política de ajustes de preço à cotação do petróleo internacional e da variação do dólar, assim, qualquer impacto geopolítico pode sim afetar o mercado brasileiro. O desafio é apurar a magnitude desse impacto nos preços dos produtos.

*Rodrigo Alcântara, economista e assessor de investimentos na Atrio Investimentos

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.