Crise empresarial: os cinco estágios

Crise empresarial: os cinco estágios

Alberto Becker*

10 de julho de 2019 | 17h42

Alberto Becker. FOTO: EVERTON ROSA

Em nenhum manual de administração, tampouco nesses cursos de empreendedorismo da moda, podemos encontrar uma regra geral, que possa ser aplicada a todo e qualquer negócio e que, inexoravelmente, o levará ao topo. Não há fórmula universal do sucesso de uma empresa. Tal tesouro, se alguém descobriu, está guardado a sete chaves.

É claro que é possível enumerar alguns empresários que obtiveram sucesso em campos de atuação completamente diferentes uns dos outros. E, evidentemente, quando isso ocorre, não é fruto do acaso. Existem, de fato, princípios norteadores em comum, visões de mundo, práticas de gestão que explicam por que esses empreendedores visionários obtiveram êxito. Contudo, não se pode perder de vista que tais casos constituem verdadeiras exceções e que mesmo estes Outliers – na expressão de Malcolm Gladwell – escolhem com muito critério o seu campo de batalha, não aplicado indiscriminadamente sua metodologia e seus recursos.

Nessa ordem de ideias, se não é possível estabelecer uma regra que determine que uma organização atinja seu ápice, quer dizer, se as empresas não prosperam pelas mesmas razões, analisando o histórico das crises empresariais, com base na lei das médias, podemos identificar pontos comuns. É possível afirmar que a maioria das empresas quebra parecido. Não no que diz respeito às causas da crise econômico-financeira (que são, sabidamente, multifatoriais), mas na forma, isto é, no “como”, percorrendo verdadeiros estágios de desenvolvimento da crise.

Atuamos há uma década e meia vivenciando muito de perto complexos processos de gestão de crise empresarial. Há alguns anos, identificamos esse padrão de funcionamento, este fenômeno tão peculiar de nossos tempos. Na esperança de ajudar uma ampla maioria daqueles que, eventualmente, estejam vivendo um período difícil, auxiliando-os a identificar em que momento se encontram e, também, no objetivo de encorajá-los a agir para evitar o pior, é bom que falemos a respeito.

Pois bem. Tudo começa quando o problema surge, mas sua presença não é notada pelas pessoas encarregadas pela gestão. Este é o primeiro estágio: o Desconhecimento. Na nossa experiência, quase sempre os problemas são resultado da ausência ou ineficiência do controle sobre determinado aspecto da operação (nomeadamente, no que diz respeito à gestão financeira).

Ocorre que, justamente por ignorar sua existência, a encrenca progride e começa a causar danos até ser, enfim, percebida pela empresa. É então que se inicia o segundo estágio: a Negação, a qual é comumente identificada por expressões clássicas “com o novo governo, o dólar vai baixar”, “no Brasil, o ano só começa mesmo depois do carnaval”, “no próximo mês vai ter um REFIS”, “ano de eleição é complicado”, “na Copa, o país fica parado” entre outras desculpas que adoramos dar para que ninguém possa tentar nos despertar do sono letárgico e da inação. É claro que esses clichês não ajudam em nada, e o tema vai causando estragos demais para continuarem sendo negados.

Nessa quadra, geralmente, começa o terceiro estágio, que é quando o empresário é acometido da Síndrome de Super-Homem. Criamos este apelido, que é carinhoso. Pois é comum, neste momento, ouvirmos expressões como “ninguém conhece a minha empresa melhor do que eu”, “eu fundei a empresa há tantos anos, e eu que vou resolver”. Faz parte. Raramente isso funciona. Assim, em seguida, inicia-se o quarto estágio: a procura por Auxílio Externo, com profissionais chamados para “apagar incêndios”. Se o socorro vem a destempo, e os danos forem irreversíveis, chegamos o quinto estágio, a Falência, que representa a morte da empresa.

É importante ter presente que toda empresa é reflexo da mentalidade de seu dono. Talvez esta construção nossa dos Cinco Estágios não se aplique integralmente às megacorporações, com estruturas extremamente complexas. Todavia, nos parece que seja o caso da amplíssima maioria das empresas brasileiras, notadamente as que enfrentam dificuldades. Para concluir, gostaríamos de poder dizer que o Estado vai fazer algo para ajudar os empresários de nosso país. Mas ele não vai. Os problemas que ocasionam uma crise empresarial, lamentavelmente, não se resolvem de forma espontânea.

É preciso enfrenta-los, com coragem e com estratégia adequada. Enquanto atribuirmos a fatores externos a tarefa de construir nossas soluções ou mantivermos a crença de que temos que resolver tudo sozinhos sempre, que é feio pedir ajuda, infelizmente, estaremos condenados a cumprir o roteiro da crise, exatamente como o apresentamos, como uma profecia. Temos que romper com este ciclo e salvar nossas empresas enquanto é tempo.

É claro que a história de uma empresa é algo que deve ser respeitado. Porém, a solução para o que não percebemos, negamos, tentamos resolver sozinhos e não conseguimos pode estar naquilo que não sabemos e não tentamos ainda. Fazer o que é preciso é questão de escolha. Afinal, como disse Einstein: nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de mentalidade que o criou.

*Alberto Becker é advogado

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