Crise democrática: como virar o jogo do poder?

Crise democrática: como virar o jogo do poder?

Patrícia Villela Marino*

20 de janeiro de 2021 | 12h00

Patrícia Villela Marino. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos dias, assistimos ao Capitólio dos Estados Unidos – centro legislativo do país – se transformar num cenário caótico, digno das grandes produções distópicas de Hollywood. A radicalização extrema da polarização política resultou na perda de cinco vidas e deixou um fantasma assombroso vagando pelas ruas de Washington: a linha tênue que nos separa do caos social.

Os atos de terror e intolerância cometidos por americanos que se recusam a aceitar os resultados do pleito eleitoral refletem, para além do crescimento do conservadorismo, a fragilidade da democracia – e como esta deixou de ser uma situação relacionada apenas às democracias mais jovens e menos institucionalizadas de países latino-americanos e do leste europeu.

É impossível negar que as manifestações populares estão no cerne do regime democrático – em nosso próprio país, temos exemplos claros de como a ocupação de espaços públicos é capaz de catalisar mudanças sensíveis no cenário político, a exemplo dos “Caras-pintadas” de 1992 e dos movimentos de Julho de 2013. Entretanto, há de se notar um contraste profundo entre esses exemplos e o que ocorre hoje na nação mais poderosa do mundo.

Os horrores que tiveram como palco a sede do Congresso dos Estados Unidos, país considerado berço da democracia e sustentáculo dos valores republicanos, deixam-nos, todos, agonizantes pela selvageria óbvia. Mas, ainda que as imagens por si causem impactos negativos em nossas humanidades, as nuances menos óbvias que envolvem esta situação são os verdadeiros motivos de perplexidade.

Em 2018, os Estados Unidos lideravam o ranking geral de participação cidadã nas Américas – lista elaborada com base no Índice de Participação Cidadã nas Américas (America’s Civic Empowerment Index), pesquisa desenvolvida em uma parceria do Instituto Humanitas360 com a Economist Intelligence Unit (EIU) – e foram historicamente avaliados como um referencial na área.

Logo, a invasão da “casa do povo” na democracia mais sólida do mundo, detentora de tantos princípios e valores amplamente disseminados, cujos processos civilizatórios não culminam em regimes totalitários e governos autoritários, é aterrorizante por deixar claro o tamanho da crise humanitária que vivemos.

Ao longo dos últimos dois anos vimos emergir, de lugares onde menos esperávamos, os sinais desta crise democrática, sem sombra de dúvida  precedida por uma crise de participação cidadã, de desengajamento popular e de desqualificação da “coisa pública”, que, nesta circunstância, passa a ser o lugar de ostentação do desejo imediato, do individualismo e da sede de poder. Órgãos, instituições e aparelhos idealizados para disseminarem valores democráticos e serem reconhecidos “aglutinadores” do poder popular agora são meros reflexos de uma sociedade excludente.

Há de se ressaltar que a deterioração da ágora democrática começa no afastamento do indivíduo de sua melhor condição – a de cidadão – e o seu consequente comprometimento com uma conduta individualista e egocentrista, direcionada ao poder e sua manutenção, sem conexão alguma com o empoderamento cívico garantidor do bem-comum e, certamente, condicionador de um equilíbrio de forças, privilégios, direitos e obrigações, que nos tornam interdependentes.

O senso quase comum do homem que se faz por si mesmo, “self-made man”, tão cultivado na cultura capitalista de consumo e concentração, nos trouxe até aqui – e é exatamente este senso comum que devemos contrariar. É esta cultura dominante que devemos combater.

Acredito no esforço da reprogramação da mente humana pela espiritualidade e tenho a convicção de que somos esculpidos pelo nosso entorno, e, portanto, somos formados pela comunidade a que pertencemos. Urge que retomemos nossas ações cidadãs rotineiramente, provocando discussões diárias e gerando engajamento em todos os setores da sociedade, do público ao privado. A palavra de ordem para remediar a irradiante crise democrática é a COLETIVIDADE.

Assim, um novo anglicismo pode ser desenvolvido: é este o capítulo que devemos escrever a partir de agora, com o esforço individual de cada pessoa embebida de compromisso cívico e a convicção de que é possível lapidar o resultado coletivo que precisamos.

*Patrícia Villela Marino, advogada e ativista cívico-social. Cofundou e lidera o Instituto Humanitas 360, trabalho pelo qual foi reconhecida com o Prêmio Humanitário 2020, concedido pelo The Trust for the Americas, afiliada da Organização dos Estados Americanos (OEA). Pertence ao Conselho Consultivo do Centro Ruth Cardoso e integrou o conselho fundador dos Global Shapers do Fórum Econômico Mundial. Liderou a criação da Plataforma Latino Americana de Políticas de Drogas (PLPD)

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.