Crise de liderança impacta o futuro do País

Alfredo Behrens*

08 Maio 2018 | 05h00

Em um ano eleitoral até agora insípido em opções, o leitor poderá se perguntar por que no Brasil há tão poucos líderes políticos originados do mundo dos negócios?

Para serem eleitos, os líderes de negócios precisariam ser reconhecidos. Porém, mais de 40 executivos não conseguiram associar a metade das fotografias dos CEOs das dez maiores empresas brasileiras aos logos delas.

Se as empresas não formam líderes nacionais, os partidos políticos não oferecem a capilaridade necessária para absorver novos talentos e os sindicatos perderam o interesse em desempenhar o papel de incubadoras de líderes. Enfim, quem incuba líderes no Brasil?

O alinhamento de grandes grupos ativistas não é mais gerado apenas pelas mídias tradicionais. Facebook, Twitter, WhatsApp e semelhantes são agora as maiores plataformas políticas.

Neste próximo inverno farão cinco anos das manifestações de rua que estremeceram o governo Dilma. Apenas dois anos antes, movimentos semelhantes paralizaram o governo de Piñera no Chile, e também deu Occupy Wall St. e a Primavera Árabe.

Todos esses movimentos tiveram jovens como protagonistas içados através redes sociais. Mas, não geraram líderes organizacionais.

As redes sociais suscitam oportunidades de protagonismo. Nelas, os jovens respondem aos chamados de mobilização focados em ideias simples e atraentes como o preço da passagem dos ônibus e o custo das mensalidades universitárias.

Os jovens se formaram mais na era dos ‘videoclipes’ do que dos livros. Mas, isso não os impede de reconhecer que a corrupção tem invadido a política, as grandes empresas de construção civil, de proteína animal e setores da área médica que vem receitando próteses que pacientes não precisam em troca de propina. Daí, a força dos movimentos por abaixo-assinados que ganham ímpeto apoiados na plataforma avaaz.org e outras similares.

Os jovens são como a seiva que brota na primavera, são irrefreáveis, simplesmente brotam. Não aproveitar a sua força é uma burla contra a Natureza. Lampião entrou para o cangaço aos 23 anos. Steve Jobs fundou a Apple aos 22 anos e Bill Gates, a Microsoft aos 20 anos. Seabra fundou as Natura aos 27, Fernando Beira Mar tinha 20 anos quando roubou armas do exército.

Para o bem ou para o mal, a juventude é uma força da Natureza. O pífio crescimento da economia brasileira nas últimas décadas entravou o desabrochar dos jovens. O custo do baixo crescimento não é apenas a renda perdida nestas décadas, é a frustração que resulta da falta de oportunidades de realização pessoal, das oportunidades perdidas ao desistir de empreender ou de se capacitar porque as perspectivas foram pouco lisonjeiras.

E agora? As perspectivas são melhores? Não parecem ser; inclusive são mais demoradas. É pela falta de oportunidades nas empresas que a sócia de uma das grandes consultorias de gestão lamentava que seu filho tivesse escolhido estudar para administrador. “Na administração demora-se muito até virar alguém,” explica ela.

Não surpreende que tantos jovens desistam de entrar nesse “filme”. Tanto que, numa pesquisa que fiz com mais de 700 respondentes entre maiores escolas de negócios do mundo, quando defrontados com a escolha de torcer pelo Coiote ou o Papaléguas, dois terços dos jovens executivos brasileiros escolheram torcer pelo Papaléguas.

Mas, acontece que o genial cartunista Chuck Jones desenhou o cartoon para a plateia americana torcer pelo Coiote. Isto é, o americano típico “se amarra” no Coiote e curte comprar armadilhas na ACME para pegar o Papaléguas. Já o jovem brasileiro adotaria o comportamento do Papaléguas e escolheria pixar a cidade toda, desafiando os Coiotes que com as suas brochas tudo apagam.

Minha interpretação sugere que no lugar de reprimir e oferecer perspectivas maçantes, seja na universidade ou nas empresas, deveríamos canalizar a ânsia de protagonismo da nossa juventude em caminhos desafiadores e atrelados a causas mais dignas do potencial deles. Nem as universidades nem as empresas parecem estar oferecendo o que os jovens buscam, e nisto elas vêm fracassando em criar a motivação para liderar e, eventualmente, participar numa contenda eleitoral. ONGs como a ACM, o escotismo, ou mesmo o antigo Projeto Rondon encolheram e sentimos a sua falta.

Desesperadamente, precisamos canalizar mais rapidamente essa garra da nossa juventude para construir algo ainda maior do que eles mesmos; se for apenas para selecionar líderes já seria muito bom.

Mas, para selecionar líderes é necessário despertar na juventude a motivação para liderar e, para isso, precisamos de causas. E nisso estamos falhando, sendo que só temos nós mesmos para culpar.

*É Ph.D. pela Universidade de Cambridge, professor de liderança na FIA e coordena os encontros de executivos Winvest Cafés, autor de Gaucho Dialogues on Leadership and Management (2017)

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