Crie sua startup

José Renato Nalini*

02 de julho de 2021 | 05h30

É preciso reagir à tendência de fuga do Brasil, demonstrada por inúmeros jovens insatisfeitos com a situação atual.

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Verdade que eles têm todas as razões para estarem desanimados com o país que não consegue reduzir as desigualdades, condena milhões à exclusão, não compreende o que significa educação de qualidade e, simultaneamente, elimina seu maior patrimônio: a biodiversidade.

Contudo, é preciso contextualizar. Não há mal que sempre dure. O Brasil é muito maior do que a coleção de infortúnios que o atormenta.

As novas gerações já nasceram sob o influxo da profunda mutação disruptiva gerada pela velocidade com que ciência e tecnologias mudam a face da Terra. Só que essa transformação precisa ser impulsionada e ganhar escalabilidade, a partir do talento de uma juventude criativa e inovadora.

Existem infinitas possibilidades de responder a uma crescente e sofisticada demanda. Enquanto as chamadas autoridades tradicionais persistem num sono num sono inerte, as ideias que fervilham na mente dos moços podem se converter em realidade.

Ousadia e audácia constituem ingrediente imprescindível. Não se espere apoio estatal. Primeiro, é preciso investir no crescimento pessoal em tecnologia, pois as empresas de tecnologia ganham relevância a cada dia maior. Avanços tecnológicos são hoje o grande catalisador de mudança. Depois, é começar a caminhar de maneira modesta, mas firme. Quando se obtiver algum resultado palpável ou, ao menos, um potencial de êxito, é procurar que um investidor ou entidade empenhada no estímulo à criatividade acredite no projeto.

Os problemas a serem resolvidos não faltam. Gerações que permaneceram estacionadas no tempo nem sempre os enxergam. São os nativos digitais aqueles que podem reverter o marasmo e sepultar a arqueologia ainda reinante no universo dos negócios.

As startups são nichos criativos que conseguem desenvolver estratégias aptas à obtenção de sucesso pois são ágeis, flexíveis, arrostam desafios e têm resiliência.

Todas as mais bem sucedidas iniciativas recentes contam com um jovem a liderar o processo. Embora a educação convencional prefira continuar a adestrar os educandos num sistema de memorização de informações quase sempre superadas, o jovem dotado de perspicácia poderá mergulhar no universo de conhecimento disponível, principalmente na esfera das ciências duras, como a matemática, a física, a química e a biologia. Sem deixar de conferir às tecnologias da comunicação e informação, ao mundo web, à informática, à eletrônica, à robótica, à nanotecnologia, a atenção que as melhores inteligências já reservaram a tal abrangente e predominante domínio.

São esses os setores que podem responder ao anseio universal por novas formas de convívio e de garantir subsistência digna para os novos habitantes do planeta. Devotar-se com fervor a esse campo negligenciado, enquanto se recompõe a política, seriamente enferma e causadora de quase todos os males que afligem a humanidade neste século, é missão imposta à lucidez residual que subsiste neste globo disperso e sem direção.

O Fórum Econômico Mundial pretende discutir em 2022, com os maiores líderes empresariais e representantes da sociedade civil, o Grande Reinício do mundo pós covid19. Os sete grandes temas escolhidos evidenciam a preocupação da liderança com o enfrentamento de crises que tendem a se agravar. Assim, debater-se-á: como salvar o planeta, economias equânimes, tecnologia para o bem, empresas imparciais, futuros mais saudáveis e geopolítica.

Apesar de não se encontrar essa agenda, ao menos com a frequência necessária, nos pobres currículos das escolas brasileiras, isso não deve frustrar quem tem vontade de saber o que de fato interessa para subsistir nesta era tão desafiadora. Qualquer pessoa curiosa e com um mobile, pode acessar cursos da Harvard, pesquisar nas maiores bibliotecas do mundo, pleitear financiamento para projetos bem elaborados e concretizar, no plano pessoal, o conceito ESG.

O mundo não conseguirá solucionar as questões que põem em risco a própria sobrevivência da humanidade, se não vier a tratar de forma consistente e séria, o tríplice eixo que inspirou essa cultura: cuidar conjunta e simultaneamente, do meio ambiente, das desigualdades sociais e de uma governança inteligente.

As startups já nasceram impregnadas dessa consciência e são ferramentas eficientes para oferecer aos racionais, respostas que o ranço conservador não permitiu sequer fossem identificadas.
O jovem inteligente e desejoso de oferecer ao seu país mais uma chance, deve enfrentar a oportunidade de criar uma startup e de fazer com que ela, no devido tempo, se converta em unicórnio.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – gestão 2021 – 2022

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