Crescimento do mercado de venture capital e private equity após as eleições

Crescimento do mercado de venture capital e private equity após as eleições

Roberto Hesketh*

10 Novembro 2018 | 04h00

Roberto Hesketh. FOTO: DIVULGAÇÃO

Na mitologia, unicórnio é um cavalo com um único chifre e sua imagem está associada à força. No mundo real, dos negócios, o termo unicórnio é utilizado para denominar investimentos em venture capital, protagonizados por empresas inovadoras e vencedoras, algumas com valores que superam a marca do bilhão de dólares, como Waze, Airbnb e Uber, outras não menos bem-sucedidas, como as brasileiras 99Taxi, Nubank, PagSeguro e Stone. A perspectiva de estabilização da economia e da pacificação política sugere que estaremos diante de um novo ciclo de crescimento da indústria de private equity e venture capital (PE/VC), com o surgimento de muitos unicórnios verde-amarelos.

O movimento brasileiro em private equity e venture capital tomou corpo no início do ano 2000 e teve como um de seus catalisadores a Associação Brasileira de Venture Capital e Private Equity (ABVCAP), que veio participar ativamente do setor reunindo gestores de fundos de investimentos e outras partes relacionadas, seja na publicação do seu guia de autorregulação para gestores, com o manual de melhores práticas, seja na interface junto a órgãos reguladores. Tudo isso, além de se constituir em um centro de inteligência e banco de dados da indústria, inclusive para consulta internacional.

Hoje essa atividade registra números expressivos: estudos da ABVCAP indicam que, na década atual, o montante médio anual de capital investido em PE/VC anda na casa de R$ 15 bilhões e estima-se um capital comprometido na casa de R$ 154 bilhões. Trata-se, portanto, de uma indústria com track record, com gestores consistentes, que fizeram investimentos sólidos e duradouros, completando ciclos de investimentos e desinvestimentos que consolidaram essa prática no País.

Com esse amadurecimento, estamos em um momento de socializar informações e oportunidades de investimentos, dando aos empreendedores de empresas nascentes, hoje startups, condições favoráveis de maior crescimento e profissionalização.

No segmento de venture capital, onde a prioridade é a presença exatamente de empresas inovadoras, mais jovens e de menor porte, o desafio é lidar com carteiras menores, com operações pulverizadas onde existe o desafio de cobrir custos operacionais caros com taxas de gestão baixas, até que receitas complementares por performance sejam obtidas, geralmente ocorrendo apenas em parte dos investimentos e somente ao término do período de gestão dos fundos na apuração do resultado consolidado para os investidores.

Isso ao longo dos tempos desestimulou gestores a, em certo ponto, criarem fundos dessa categoria, preferindo se aventurarem no private equity, que investe em empresas mais robustas e por isso, teoricamente de menor risco.

No entanto, com o suporte as iniciativas promovidas pela FINEP e pelo BNDES para expandir investimentos em novas empresas focadas em tecnologia e inovação, novos gestores e fundos de VC e de capital semente se desenvolveram. Os melhores exemplos dessas iniciativas foram os fundos Criatec e Primatec, que não só ampliaram o leque de recursos para empresas emergentes, como também contribuíram para a formação de novos gestores dentro deste segmento mais especializado.

Com esse impulsionamento, embora as empresas de TI tenham passado a ser o foco de muitos fundos de VC, visando nichos como inteligência artificial, internet das coisas, blockchain, fintechs, dentre outras, também se abriu espaço para inovações nas áreas de saúde, biotecnologia e agronegócios. Praticamente todas essas iniciativas se serviram dos avanços da internet e, em alguns casos, de intercâmbio internacional.

Mais recentemente, com a evolução de incubadoras e aceleradoras, estão surgindo diversos centros com novas iniciativas de formação de comunidades de startups com massa crítica relevante para o desenvolvimento desse ecossistema. Um dos exemplos vibrantes, que vem se multiplicando, é o projeto Habitat, implantado com o apoio do Bradesco, que em menos de seis meses já acumulava em um único ambiente mais de 130 empresas emergentes com infraestrutura de apoio e centro de informações e palestras atuante. O projeto a cada dia atrai novos empreendedores, que mediante cuidadosa curadoria, encontram um ambiente fértil para inúmeras sinergias.

Cabe registrar ainda o Programa BNDES Garagem de Startups e o Centro de Inovação e Empreendedorismo recém-divulgado pelo BNDES em edital, que coloca o Rio de Janeiro mais uma vez na rota de desenvolvimento desse importante ecossistema de inovação e tecnologia.

Ora, a evolução natural do Brasil na arena de inovação e tecnologia mundial passa necessariamente por uma difusão de fluxo de conhecimento técnico-cientifico juntamente com o fluxo de capitais em busca de negócios com grande potencial e de sucesso. Neste sentido, todos os atores envolvidos abrem um olhar novo para que investidores institucionais locais ampliem sua interatividade em centros de excelência internacionais com uma melhor leitura das iniciativas que podem vir a ser potencializadas no País.

Atualmente, os investimentos em startups e fundos de venture capital vêm atraindo boa parte de capital de poupança privada gerida por family offices, que muitas vezes encontram nos fundos especializados uma estrutura ideal para mitigar riscos e capturar startups com maior potencial de sucesso.

Certamente estamos diante de uma nova era e é tempo de todos os participantes desse segmento olharem para o futuro com otimismo. Com os avanços da internet, o mundo evoluiu para iniciativas sem fronteiras, dando espaço a inovações em que os empreendedores passaram a atuar com grande intercâmbio. Um exemplo recorrentemente citado é o ecossistema de Israel, formado com apoio governamental a iniciativas científicas e empreendedoras. Para Israel, tecnologia é uma prioridade, inicialmente para projetos de defesa militar, e subsequentemente com resultados empresariais fortemente impactantes no PIB nacional.

O modelo israelense pode servir de exemplo para países como o Brasil. Neste caso não basta apenas apoio governamental em recursos financeiros, mas também um arcabouço jurídico mais adequado. Com isso, novas empresas florescerão no País, gerando empregos e ativando a economia. Este cenário estimulará investidores locais e internacionais a conviverem em um círculo virtuoso de fluxo de informação e de capitais.

O Brasil, embora este ano tenha subido do 69.º para o 64.º lugar no Índice Global de Inovação (IGI), publicado pela Universidade de Cornell, INSEAD e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO na sigla em inglês), ainda continua em posição muito desfavorável em comparação com outros países. O País é considerado hostil e desestimulante para implantação de empresas, pela excessiva burocracia, sistema tributário, legislação trabalhista, entre outros entraves.

Felizmente, o governo começa a reagir ao colocar em discussão a legislação trabalhista. A lei da desburocratização (Lei nº 23.726/2018) recentemente sancionada, que entra em vigor a partir de 24 de novembro, também é mais um passo à frente e sinaliza o inconformismo com certas idiossincrasias e redundâncias cartoriais relacionadas a algumas exigências de reconhecimentos de firma e outras autenticações.

Uma boa iniciativa que fortalece e enriquece um intercâmbio com o modelo israelense tão bem-sucedido é a realização de eventos como o SPIN Summit Brazil 2018, dentro da SP Tech Week 2018, que ocorrerá em São Paulo nos dias 28 e 29 de novembro e já faz parte do calendário anual de fóruns sobre startups no País. Trata-se de um encontro com foco em novos negócios de tecnologia, no qual participam atores de diversos centros de excelência, não somente de Israel, mas também de outros países, destacando-se aqueles dos principais núcleos de tecnologia da costa oeste e leste dos Estados Unidos.

Sem querer fazer qualquer tipo de inferência política aqui, parafraseando um candidato nas atuais eleições se referindo a Israel, em comparação ao Brasil, “olha o que eles não têm e o que eles são e olha o que nós temos e o que nós não somos!”, é exatamente isso, o potencial do Brasil nessa área é imenso e precisamos utiliza-lo, desburocratizando e firmando parcerias com aqueles que já conhecem a estrada.

Sem dúvidas o segmento de startups brasileiro pode alcançar os mais elevados níveis internacionais. Afinal, inteligência e vontade empreendedora não são um privilégio de poucos países. Vontade e ações governamentais concretas sim.

*Roberto Hesketh é economista, fundador da Associação Brasileira de Venture Capital e Private Equity (ABVCAP) e CEO da consultoria financeira Multicapital

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