Crescimento do Brasil depois da pandemia passa pela infraestrutura

Crescimento do Brasil depois da pandemia passa pela infraestrutura

Luciano Machado*

23 de setembro de 2020 | 05h30

Luciano Machado. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os números oficiais registraram 12,3 milhões de brasileiros desempregados em julho, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), isso sem considerar a informalidade, que não é contemplada nos números oficiais e que agrava ainda mais o cenário revelado pelas estatísticas.

Para o Brasil, assim como para outras nações, é necessário buscar um caminho para o crescimento e para a criação de empregos. Para nós, posso afirmar, esse trajeto passa pela infraestrutura. A ampliação das estruturas de saneamento, transportes e energia causa um impacto direto na economia, possibilitando a implementação de novas atividades produtivas, além de contribuir de forma significativa para reduzir desigualdade de renda e a pobreza.

Após a Covid-19, ficou evidente um dos maiores gargalos do país: a falta de acesso ao saneamento básico. Apesar de ser uma necessidade primordial, 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada, conforme estudo do Instituto Trata Brasil (ITB). Como é possível exigir que todos lavem as mãos para prevenir a contaminação neste cenário?

É por esse motivo que a vinda do novo marco legal do saneamento básico é a notícia positiva do momento, já que pode permitir a ampliação do acesso a um direito básico para os habitantes brasileiros, direciona o país rumo ao crescimento e traz mais empregos e investimentos ao setor.

Outra área que pode aquecer o mercado e ajudar o país neste momento é o setor de transporte e logística. Como base da cadeia de desenvolvimento nacional, ele determina o desempenho dos demais espaços econômicos. Também contribui diretamente para o desenvolvimento regional, a geração de empregos, renda e a melhoria das condições de vida da população tanto na cidade, quanto no campo. O agronegócio, por exemplo, pode ser imediatamente beneficiado com investimento nos transportes. Inclusive, poderia produzir muito mais não fossem as limitações impostas pela falta de estradas, ferrovias e portos para escoar a produção.

Também é de se destacar o projeto de lei de cabotagem recém-assinado pelo governo federal, que pretende atrair R$ 1 trilhão de investimentos privados dentro de dez anos. A atividade pode ser uma alternativa ao transporte rodoviário e tem potencial no Brasil em função da extensão da costa.

Mas para que todas as iniciativas e desejos voltados à infraestrutura do país possam gerar frutos é necessário que o crescimento do segmento esteja alinhado com a indústria da construção, que enfrenta dificuldade para abastecer o mercado.

Um exemplo de setor afetado pela oferta reduzida de insumos para construção é o mercado imobiliário, que resistiu à parte mais crítica da pandemia no meio do ano, impulsionada pela autoconstrução e a retomada das obras posteriormente. Atualmente, nota-se a falta de parte dos insumos e a consequente alta dos preços é inevitável.

Dados das vendas de cimento do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) para o mês de junho corroboram a sensação de alta na demanda, já que registraram um salto 24,2% na comparação com o mesmo mês do ano passado, com 5,2 milhões de toneladas comercializadas.

E ainda: em levantamento realizado de março a julho de 2020 pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), construtoras de todo o país sentiram o aumento no preço de materiais.

Obras tendem a consumir volumes expressivos de insumos como cimento e concreto. O alinhamento com os investimentos na indústria da construção são de extrema importância tanto para o abastecimento de todos os setores como para equilíbrio de preços.

A aposta em infraestrutura é o caminho a ser adotado para o crescimento. A recente aceitação da equipe econômica em aumentar em mais R$ 1 bilhão o orçamento para a pasta em 2021 é a prova de que o governo também enxerga a questão desta forma. Mas a aceleração do crescimento e desenvolvimento econômico no Brasil pós-pandemia vai depender de um política consistente, estável e com forte investimento neste setor, coordenada com os atores deste mercado para a promoção de uma das principais forças de nossa economia.

*Luciano Machado é engenheiro civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especialista em administração com MBA pela FGV e sócio da MMF Projetos

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