Crédito para Pequenas e Médias Empresas (PMEs): o papel dos FIDCs

Crédito para Pequenas e Médias Empresas (PMEs): o papel dos FIDCs

Lucas Lima*

04 de novembro de 2020 | 08h00

Lucas Lima. FOTO: DIVULGAÇÃO

Dificuldades no acesso ao crédito bancário têm sido uma constante na vida das pequenas e médias empresas, mesmo antes da pandemia do Covid-19. A pesquisa Sebrae/FGV (1) mostra que, apesar de todos os problemas ocorridos com as medidas restritivas ao funcionamento normal das atividades econômicas, até o mês de maio menos de 40% das PMEs haviam tentado recorrer a bancos para obter empréstimos. Se não o fizeram, mesmo precisando de recursos (46% relataram interrupção no funcionamento normal), é um claro indício das dificuldades no acesso a recursos bancários historicamente percebidas pelas PMEs.

Apesar da pesquisa mais recente indicar uma melhora nesse percentual (50%) somente 31% das PMEs tiveram seus pedidos aprovados. Trata-se de mais um dado que comprova a dificuldade para obterem crédito junto ao sistema financeiro tradicional, mesmo com a existência de programas governamentais como o Pronampe, em que o governo cobre 85% das perdas totais das carteiras dos agentes financeiros (a nova fase desse programa cobrirá apenas 25%(2)).

A importância das PMEs é um fato: existem no Brasil 6,4 milhões de empresas, sendo que 99% são micro e pequenas empresas, as quais respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado (3). Condições adequadas de funcionamento e crescimento são primordiais, e dentre elas o acesso a crédito tem um papel fundamental.

Nesse sentido, o papel dos FIDCs tem sido importante ao permitir às PMEs um canal adequado de financiamento de capital de giro, oxigênio básico para o dia a dia das empresas. E, não só diretamente por meio das operações de desconto de recebíveis, via os chamados fundos multissacado-multicedente, mas também, como tem ocorrido em anos recentes, via o provimento de funding para fintechs que atuam na concessão de empréstimos. Estas configuraram-se como uma excelente alternativa aos bancos tradicionais, viabilizando crédito de forma mais ágil e menos burocrática e encontraram nos FIDCs um parceiro ideal, que traz para esse cenário os investidores que aplicam nesses fundos, propiciando uma desintermediação bancária.

Vale destacar que os FIDCs multissacado-multicedente mostraram, durante a pandemia, capacidade de resistência a um momento de crise aguda. De acordo com reportagem do Valor(4), os montantes normalmente relativos às aquisições de recebíveis caíram de R$ 9 bilhões para R$ 4,4 bilhões (maio/20), mas começaram a se recuperar em seguida, chegando a quase R$ 7 bilhões (julho/20). Renegociações foram feitas, redirecionamentos de operações (para setores menos afetados pelo fechamento dos estabelecimentos) foram efetivados, e o resultado é que o setor soube administrar bem a fase mais difícil da crise.

Outro ponto relevante é a importância dos FIDCs para os chamados investimentos de impacto, em que o investidor busca não apenas o retorno financeiro, mas também contribuir com causas socioambientais. Esses tipos de fundos são estruturados junto a empresas voltadas para a área da educação, saúde, proteção ambiental, geração de energias sustentáveis, entre outras.

(1)   O impacto da pandemia de coronavírus nos pequenos negócios – 8ª edição; 28/Set a 01/Out

(2)   InfoMoney 21/Out

(3)   www.sebrae.com.br “Pequenos negócios em números”

(4)   Valor Econômico 09/Set: “FIDC volta a liberar crédito para pequenas empresas”

*Lucas Lima, sócio-consultor e membro do Conselho de Administração da Empírica Investimentos

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