Cracolândia, a feira livre do tráfico e a polícia

Cracolândia, a feira livre do tráfico e a polícia

Delegado Palumbo*

17 de agosto de 2021 | 07h00

Cracolândia. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Na cidade que nunca dorme, a boca de fumo mais conhecida do país segue o mesmo ritmo. O cenário é o mesmo há décadas, usuários amontoados na rua Helvétia e nos entornos do centro de São Paulo.  Na rotina, venda e consumo de drogas a céu aberto, prostituição para bancar o vício, troca de produtos roubados e, vez ou outra, arrastão contra comerciantes e motoristas da região.

A Cracolândia está ali, para todo mundo ver, não é mesmo? Acontece que a questão é realmente complexa e, até agora, nenhuma medida de política pública surtiu efeito a longo prazo. Enquanto o problema continua, o desafio de manter a ordem em um local tão degradante fica por conta de funcionários da saúde e agentes de segurança.

O clima é quase sempre tenso, principalmente, entre os dependentes químicos e a polícia. Uma simples faxina na rua, pode desencadear um tumulto com pedradas, correria, bomba, gás lacrimogêneo e tiros. É fato que o “fluxo”segue mesmo com a presença dos agentes, mas, também, é notório que o policiamento é necessário para diminuir a oferta de drogas e garantir mais segurança à população. Na prática, sabemos que a polícia sozinha não vai acabar com a Cracolândia, mas a tarefa diária de “enxugar gelo não pode parar, mesmo com todas as críticas de quem não conhece a realidade do feirão das drogas.

O trabalho ostensivo, na maior parte, é feito pela Guarda Civil Metropolitana, que conta com efetivo de quase 200 homens, que além de apoiarem a prefeitura durante a limpeza das ruas, revistam suspeitos para impedir a entrada de mais produtos ilegais na Cracolândia. A atuação da guarda é difícil, pois além da presença de traficantes lidam com alguns dependentes que abusam do crack, surtam e perdem a noção da realidade. Às vezes, o confronto é inevitável.

Delegado Palumbo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Você com certeza já viu nos noticiários imagens dos dependentes químicos partindo para cima dos motoristas, quebrando vidros de veículos para roubar, são nessas situações que a polícia militar age, com o objetivo de dispersar os dependentes. As investigações para identificar os traficantes que alimentam a Cracolândia cabem à polícia civil. Na última ação, em 22 de julho, a “princesinha da Cracolândia”, como era chamada pelo próprios usuários, foi presa. Lorraine Bauer, de apenas 19 anos, se apresentava nas redes sociais como influenciadora digital e levava uma vida de luxo financiada pelo tráfico de drogas no centro da cidade. Ao todo, 15 pessoas foram presas acusadas de fazer parte do esquema. Segundo apurações da polícia, só o lucro da jovem influencer chegava a R$ 6 mil por dia.

Essa última investigação, que durou seis meses, e contou com policiais infiltrados e apoio da GCM, mostrou como o tráfico se adapta às fiscalizações na região. O crime organizado adotou o esquema de desmontar e movimentar as barracas, onde ficam os traficantes com as drogas. Sempre que a prefeitura e GCM avançavam pelas ruas, as barracas itinerantes mudavam de posição. No atual modelo seriam cerca de 30 barracas, coordenadas por três traficantes cada uma.

Ações como essa são importantes para identificar os grandes traficantes da região que querem manter o domínio sobre quem frequenta a Cracolândia. O crime aproveita da vulnerabilidade social para flagelar essa população. Então, é certo dizer, que o enfrentamento será sempre paliativo se não tivermos ações integradas de saúde, social e segurança, além de leis mais rígidas que prendam os pequenos e grandes traficantes da Cracolândia.

*Delegado Palumbo (MDB), vereador de São Paulo

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