Covid-19 pode comprometer temporariamente a fertilidade masculina?

Covid-19 pode comprometer temporariamente a fertilidade masculina?

Maurício Chehin*

23 de agosto de 2021 | 14h05

Maurício Chehin. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde o surgimento da Covid-19, diversos cientistas e médicos tentam entender os efeitos do vírus dentro do organismo humano. Nos últimos tempos, estudos investigam as sequelas e os impactos causados a curto e a médio prazo. A comunidade científica, além de tentar encontrar soluções para minimizar o efeito devastador causado pelo SARS-CoV-2, ainda está lidando com outro mal: a desinformação causada pelas Fake News. Apesar da comprovação da eficácia das vacinas, existe uma parcela da população mundial que tem se mostrado receosa sobre os possíveis efeitos da vacina.

Recentemente circulou pelas redes sociais uma informação falsa de que a vacina contra a Covid-19 afetava a fertilidade masculina e causava disfunção erétil. Diversos homens estão se negando a tomar a vacina com medo de ficarem estéreis ou impotentes.

Pesquisadores da Universidade de Miami1 resolveram investigar o fato e comprovaram que a informação era falsa. Realizaram um estudo com homens saudáveis, sem sintomas e que testaram negativo para o vírus. A média de idade era de 28 anos e todos pretendiam se vacinar. Para participar da pesquisa, os voluntários fizeram um espermograma antes de tomarem o imunizante e depois da segunda dose. Ficou constatado que a vacina não influenciava de nenhuma maneira na produção de espermatozoides. Pelo contrário, em alguns homens houve um incremento na motilidade e volume dos espermatozoides. Os imunizantes analisados eram de mRNA, ou seja, carregavam o código genético do vírus e isso auxiliava que as células do corpo entendessem que era preciso produzir anticorpos contra o SARS-CoV-2. No entanto, é bom esclarecer que esses bons resultados não devem ser atribuídos à vacina, mas a outros fatores como uma certa tranquilidade dos participantes diante do estudo e o próprio tempo de abstinência um pouco maior entre a primeira e a segunda coleta.

O que se sabe até agora é que a infecção do SARS-CoV-2, assim como outras doenças virais, principalmente as que causam febre e reação inflamatória sistêmica, pode causar sequelas que afetam a fertilidade. O estudo alemão, da Universidade Justus-Liebig2, aponta que a COVID -19, pode alterar a qualidade seminal e intensificar a morte de espermatozoides. Os cientistas encontraram marcadores inflamatórios em níveis duas vezes maiores no esperma dos pacientes infectados do que naqueles sem a doença. A pesquisa chinesa realizada pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong3 corrobora também com essa descoberta e destaca que ainda se conhece pouco sobre como a infecção do coronavírus afeta a saúde sexual. Não se sabe, por exemplo, em quanto tempo é possível reverter os efeitos do vírus sobre os diferentes órgãos reprodutores masculinos. Diversos pesquisadores acreditam que as inflamações causadas pela infecção, os medicamentos e até os efeitos psicológicos da pandemia atingem de forma direta a saúde sexual da população mundial.

Diante de tanta especulação e desinformação, esses estudos estão se tornando cada vez mais necessários, não somente para identificar as sequelas deixadas pelo vírus dentro do organismo, como reforçar a importância dos cuidados de higiene, o uso de máscaras e reafirmar a importância das vacinas.

*Maurício Chehin, médico especialista em reprodução humana e coordenador da Oncofertilidade da Huntington Medicina Reprodutiva

Referências bibliográficas:

1- Sperm Parameters Before and After COVID-19 mRNA Vaccination

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2781360?guestAccess%5B…%5Dferral&utm_campaign=ftm_links&utm_content=tfl&utm_term=061721

2- COVID-19 and male reproductive function: a prospective, longitudinal cohort study

https://rep.bioscientifica.com/view/journals/rep/161/3/REP-20-0382.xml?rskey=4o3IBP&result=2

3 – COVID-19 and impairment of spermatogenesis: Implications drawn from pathological alterations in testicles and seminal parameters

https://www.thelancet.com/journals/eclinm/article/PIIS2589-5370(20)30415-6/fulltext

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