Covid-19: o trabalhador brasileiro não está protegido

Covid-19: o trabalhador brasileiro não está protegido

Etore Frederici*

06 de setembro de 2020 | 10h30

A retomada gradual da economia, com a reabertura do varejo e da indústria em diversas cidades e estados brasileiros, acende um novo alerta em meio à crise da Covid-19. Em um país onde o uso de EPIs (equipamentos de proteção individual) já era insípido antes da pandemia, como proteger o trabalhador desse novo risco biológico?

O cenário atual ainda é de retração no mercado de trabalho. Entre maio e julho, o número de desempregados cresceu 20,9% no país, de 10,1 milhões para 12,2 milhões, segundo dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Nesses três meses, o número de ocupados também caiu: de 84,4 milhões para 81,4 milhões (3,5%).

Os exemplos de outros países, porém, mostram que, na medida em que a curva de infectados pelo coronavírus começa a subir menos, a atividade econômica ganha fôlego, com o consequente acompanhamento, ainda que tardio, do mercado de trabalho. Uma avaliação do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) feita sobre os dados do IBGE reforça essa tendência: para o instituto, a retomada de empregos no Brasil tende a vir depois da retomada econômica – o termômetro será o nível de segurança dos empresários quanto ao cenário econômico.

Etore Frederici. Foto: Divulgação

A reversão, porém, virá. E quando o trabalhador da indústria voltar à atividade ou o desempregado conseguir uma vaga no varejo, por exemplo, eles dificilmente estarão efetivamente protegidos do novo coronavírus em seu ambiente de trabalho. Essa situação é bastante clara por diversos motivos.

Primeiro, é preciso lembrar que o Brasil é o quarto país em número de acidentes de trabalho, atrás apenas de China, Estados Unidos e Rússia, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho). Em 2018, segundo o Ministério do Trabalho, foram contabilizados 576.951 acidentes de trabalho – estima-se que o número real seja entre duas e três vezes maior, já que os dados oficiais versam apenas sobre empregos formais. Desde 2012, um brasileiro morreu a cada 3 horas e 43 minutos em virtude de acidente ou doença laboral (foram mais de 20.280 mortes), aponta estimativa do Observatório Nacional de Saúde e Segurança do Trabalho.

Se, por um lado, a pandemia alertou a sociedade para o uso de máscaras, por outro a cultura do brasileiro para a prevenção de doenças ainda tem muito a evoluir. Prova disso são reportagens aos montes que mostram aglomerações em festas, pessoas multadas sem o equipamento de proteção e até textos sérios explicando que não adianta usar a máscara abaixo do nariz ou no queixo.

No ambiente de trabalho, por mais que na última década tenha havido uma evolução, essa cultura ainda persiste em menor grau. Uma parcela dos empregadores ainda enxerga os EPIs como gasto, e não investimento, preferindo correr o risco de pagar multa a proteger o trabalhador. Some-se a isso o fato de o próprio empregado às vezes preferir não usar um equipamento de proteção pelo desconforto ou pela dificuldade de higienização.

A questão não é só cultural, é também técnica. A discussão sobre riscos múltiplos no mercado de trabalho ainda engatinha. Basta imaginar um eletricista escalado para um serviço urgente em um hospital. O profissional provavelmente usará uma máscara de tecido. Se um acidente gerar um arco elétrico e chamas, as luvas e a roupa o protegerão deste dano, mas a máscara poderá derreter na sua face.

Esse é apenas um exemplo do chamado multirrisco, que se estende para milhares de outros profissionais e dezenas de atividades, como mineração, óleo e gás, químicas, atendimento de emergências e forças de segurança. Já há tecnologias no país que solucionam esse problema, como máscaras que protegem tanto contra chamas quanto contra o coronavírus, mas é forçoso dizer que a adaptação, a conscientização e o investimento chegarão aos ambientes de trabalho ao mesmo tempo em que a volta às atividades.

Para acelerar esse processo, a discussão sobre prevenção biológica precisa extrapolar a fronteira dos ambientes de saúde, com uma pauta pública séria e a participação de representantes de empregadores e empregados. Se a sociedade brasileira não acordar para essa necessidade, tudo o que nos restará será torcer.

Primeiro, torcer pela chegada rápida de uma vacina eficaz. Depois, torcer contra a História, afinal, teríamos que acreditar que, no futuro, não haverá mais pandemias.

* Etore Frederici é diretor de vendas da América Latina para o segmento de Proteção Pessoal da DuPont

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: