Covid-19: manter a quarentena trará mais benefício ou malefício?

Covid-19: manter a quarentena trará mais benefício ou malefício?

Edimilson Migowski e Ricardo Marques*

03 de junho de 2020 | 12h00

Edimilson Migowski e Ricardo Marques. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Alguns países deixaram para trás a pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS CoV2), entre eles estão a China, a Coréia do Sul e Nova Zelândia. Em comum, estes países contaram com liderança organizada, quarentena bem restrita e muitos testes sorológicos, medidas que proporcionaram informações confiáveis para tomada de decisões mais acertadas.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, infelizmente, não terão como esperar a onda de contágio cessar para só então pensar na retomada das atividades do cotidiano. Tão pouco parece crível que, a essa altura, exista uma receita única de reabertura, que sirva ao país todo, afinal vários são “os brasis” dentro do Brasil. Como reabrir uma empresa, se sentir seguro no meio de transportes públicos, aeroportos, rodoviárias ou dentro de táxis e de outros veículos que atendam por aplicativos?

Como se dará a abertura de shoppings centers, igrejas, teatros, museus, bibliotecas, centros culturais e esportivos? Estamos diante de situações difíceis, a quarentena reduz a incidência de doenças infectocontagiosas, porém aumenta o número de pessoas com doenças psiquiátricas e posterga o diagnóstico e tratamento de várias outras doenças. Como estará a cobertura vacinal, que prejuízos teremos na prevenção e detecção precoce de várias outras doenças? O tratamento proposto para qualquer doença não pode causar mais prejuízo do que benefício! Se iludem aqueles que monitoram “apenas” os que adoecem e morrem pela covid-19 para estabelecer e contabilizar o alegado sucesso no controle (ou descontrole) da pandemia.

O mais importante é que o afrouxamento das regras de quarentena, ainda sem data e incerta, seja feita com o máximo de planejamento e ações coordenadas.

Já temos uma nova regra de etiqueta para espirrar, tossir, usar máscaras de forma correta, evitar aglomerações, higienização das mãos e limpeza de ambientes e superfícies, tais medidas são prioritárias e essenciais.

A retomada das múltiplas atividades nos Estados, Municípios e empresas privadas e públicas deve ser após muita reflexão, estudos científicos e estatísticos, bom senso e experiência de comportamento socioeconômico.

Alguns municípios no país vem combatendo a epidemia, contratando hospitais de emergência, equipamentos, insumos, e outros itens de consumo imediato, sem, no entanto, ter um plano estratégico com a abertura de setores importantes e vitais, dependendo das características e vocações de regiões singulares no território nacional.

Um setor duramente afetado, entre tantos, foi o da educação. Escolas e universidades de todo o país estão sem aulas presenciais, sem saber exatamente quando e como será a reabertura, o que poderá acontecer somente em 2021. Afinal, como deve ser o processo de reabertura da economia em meio ao avanço de uma doença ainda mal compreendida pela ciência e que já contaminou milhões de pessoas pelo mundo? Para além das muitas preocupações e dúvidas, há esperanças como a descoberta de vacinas e medicamentos que possam minimizar o impacto dessa pandemia. É consenso que o pior cenário é o que engloba uma reabertura sem organização e normas da economia seguida de uma nova aceleração da curva do contágio, resultando em um aumento de internações e mortes e, consequentemente, levando a um INDESEJÁVEL (novo) fechamento das atividades.

Importante nesse momento é não ter viés político partidário, ou se deixar pautar por mídias sensacionalistas, politizadas e cheias de ideias preconcebidas. As cidades que ousam caminhar com as suas próprias pernas, até porque ninguém conhece mais a realidade de cada município do que os líderes e munícipes locais. Cabe a cada liderança reunir diferentes inteligências e especialistas (infectologistas, economistas, sanitaristas, virologistas e microbiologistas) para traçar planos e estudos de retomada das atividades de forma resiliente e ordenada com medições do fluxo de contaminação e estatísticas com métodos de prevenção.

De fato, esta é uma crise sem paralelo. Há simultaneamente um choque de oferta por meio da cadeia de valor, e de demanda, com todos os consumidores parando de consumir ao mesmo tempo ao redor do mundo, o que desnorteou governos e empresas.

A proposta de reabertura terá que – OBRIGATORIAMENTE – contemplar ações para o diagnóstico e tratamento precoces, capacitação de equipes multidisciplinares, protocolos de saúde pública, mapeamento da disseminação do vírus, monitoramento da reabertura em conjunto com o setor produtivo, regras de limpeza de acordo com aspecto de conscientização e volta gradativa das operações. A crise atual é diferente de todas as outras. Recomeçar será um enorme desafio para a saúde, a economia e a sociedade em geral – mas, sobretudo, para cada um de nós.

Repito, o medicamento pode ser amargo, porém não fazer mais mal do que bem!

*Edimilson Migowski, professor de Infectologia da UFRJ

*Ricardo Marques, advogado especializado em Direito Sanitário e Empresarial

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