‘Corrupção no Brasil está em processo de metástase’, alerta procurador da Lava Jato

‘Corrupção no Brasil está em processo de metástase’, alerta procurador da Lava Jato

Athayde Ribeiro Costa diz que esquemas de propinas não estão adstritos à Petrobrás; Operação Radioatividade mira contratos da Eletronuclear

Redação

28 de julho de 2015 | 10h55

Obras de Angra 3. Foto: Eletronuclear

Obras de Angra 3. Foto: Eletronuclear

Por Fábio Fabrini, Julia Affonso, Talita Fernandes e Beatriz Bulla

O procurador da República Athayde Ribeiro Costa, que integra a força-tarefa da Operação Lava Jato, disse nesta terça-feira, 28, que a corrupção no Brasil é endêmica e está em “processo de metástase”. Ao revelar detalhes da Operação Radioatividade, 16.ª fase da Lava Jato, o procurador anotou que a corrupção “não está adstrita à Petrobrás, espalhou-se para outros órgãos da administração pública”.

A Radioatividade é a nova fase da Lava Jato e sai do âmbito da Petrobrás – alvo maior de todas as quinze etapas anteriores da investigação. A Radioatividade mira exclusivamente contratos relativos às obras da Usina Nuclear Angra III.

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O alvo principal agora é o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente licenciado da Eletronuclear, subsidiária da Eletrobrás. Ele foi preso em Niterói, no Rio, em regime temporário por cinco dias – o Ministério Publico Federal havia pedido prisão preventiva, sem prazo definido, do almirante, mas o juiz federal Sérgio Moro entendeu que a temporária é o regime mais adequado neste momento da investigação.

A força-tarefa da Lava Jato constatou que o almirante recebeu R$ 4,5 milhões em propinas por meio da Aratec Engenharia, controlada por ele.

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Trecho da delação de Dalton Avancini. Clique para ampliar. Foto: Reprodução

Parte desse valor, o presidente licenciado da Eletronuclear teria recebido em dezembro de 2014, um mês depois da prisão dos principais empreiteiros do País, na Operação Juízo Finas, deflagrada em novembro.

A Polícia Federal e a Procuradoria da República identificaram um rol de empreiteiras que teriam se reunido para discutir as propinas para o almirante da Eletronuclear: Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Odebrecht, Techint, MPE, Camargo Corrêa e UTC.

O esquema de corrupção envolvendo Othon Luiz Pinheiro da Silva foi revelado pelo ex-presidente da Camargo Corrêa, Dalton dos Santos Avancini, que fez delação premiada e atualmente cumpre prisão em regime domiciliar.

“A palavra do colaborador por si só não leva a medidas de prisão, ainda que prisão temporária. Com as investigações realizadas corroboramos em grande parte o que foi dito por Dalton Avancini”, declarou o procurador Athayde Ribeiro Costa.

O delator apontou o presidente Global da Andrade Gutierrez Energia, Flávio Barra, como o representante da empreiteira que discutiu valores da propina no âmbito das obras de Angra 3.

Os repasses para o presidente licenciado da Eletronuclear teriam ocorrido por meio de empresas de fachada utilizadas pelas empreiteiras. Essas empresas de fachada não tinham quadro técnico para os serviços que teriam prestado.

“O dinheiro pingava nos cofres das empresas até o repasse para Othon”, disse o procurador.

“Há indicativos de que a corrupção é endêmica, estamos vivendo um processo de metástase da corrupção. A gente dá um passo, mostra que a corrupção não está adstrita à Petrobrás, espalhou-se para outros órgãos da administração pública.”

A Eletronuclear informou que desde 30 de abril tem um presidente interino, Pedro Figueiredo.

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

A Andrade Gutierrez está acompanhando a 16ª fase da Operação Lava Jato e destaca que sempre esteve à disposição da Justiça. Seus advogados estão analisando os termos desta ação da Polícia Federal para se pronunciar.

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT:

“A Construtora Norberto Odebrecht esclarece que na manhã desta terça-feira, 28 de julho, foi alvo de busca e apreensão em sua sede, no Rio de Janeiro, bem como na residência de um de seus executivos, que também foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento perante a Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Todos os nossos executivos, assim como a empresa, sempre estiveram à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e apresentar documentos no âmbito das investigações da operação Lava Jato, sendo injustificáveis as medidas empreendidas nesta data.

A CNO reafirma que nunca participou de oferecimento ou pagamento de propina em contratos com qualquer cliente público ou privado, o que obviamente inclui a Eletronuclear, portanto não reconhece como verdadeiras as afirmações de delator premiado que, visando obter a sua liberdade, em razão de prisão preventiva, não tem qualquer compromisso com a verdade.”

COM A PALAVRA, A QUEIROZ GALVÃO:

“A Construtora Queiroz Galvão informa que está cooperando com as investigações. A companhia nega veementemente qualquer pagamento ilícito a agentes públicos para obtenção de contratos ou vantagens. A empresa reitera que todas as suas atividades e contratos seguem rigorosamente a legislação vigente”.

COM A PALAVRA, O GRUPO MPE:

” A EBE participa do Consórcio Angramon e está colaborando com as informações solicitadas pela Polícia Federal, embora não haja nenhuma acusação diretamente contra a EBE.

Hoje, dia 28, o Presidente do Conselho de Administração do Grupo MPE, Renato Ribeiro, da qual a EBE faz parte, prestou depoimento na condição de testemunha na sede da Polícia Federal do Rio de Janeiro, sendo liberado logo depois.”

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