Corrupção do ciclo cultural

Rodrigo Merli Antunes*

28 de julho de 2020 | 06h00

Rodrigo Merli Antunes. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Neste fim de semana, assisti a um dos jogos da última rodada do campeonato inglês de futebol, bem como fiquei sabendo de uma nova série que foi ao ar em um famoso programa dominical. Imediatamente, e na mesma esteira do que vem acontecendo há tempos, me lembrei das aulas que tive sobre marxismo, globalismo e guerra cultural.

Para quem ainda não sabe, é certo que, após a constatação de que a teoria inicial de Marx não vingaria, pois o proletariado industrial não aderiu à revolução, pegando até mesmo em armas durante a primeira guerra mundial para lutar com proletários de outras nações, alguns neo-marxistas de plantão (em especial Antonio Gramsci e os fundadores da Escola de Frankfurt) se empenharam em reinventar aquele pensamento original, concluindo todos eles que o problema estaria na cultura ocidental. Para eles, os proletários não teriam aderido à revolução por conta de não possuírem a chamada consciência de classe, esta não desenvolvida por conta dos valores e ideais burgueses ainda enraizados na população.

Era preciso, pois, acabar com esta cultura, em especial com o tripé que lhe dá sustentação, mais precisamente a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã. Destruído tudo isso, não só uma nova sociedade seria possível, como também o surgimento de um novo homem. A revolução, portanto, não deveria mais ser violenta e armada, mas sim lenta e gradual, alcançando-se primeiro a hegemonia de pensamento, para somente depois alcançar-se o poder de forma pacífica e até mesmo pelo voto.

Como implementar isso? Fácil! Pervertendo e subvertendo a sociedade, disseminando vetores de destruição e, principalmente, retirando os vetores de conservação que permitiram a estabilidade das civilizações até então existentes.

Yuri Bezmenov, ex-agente secreto da KGB, que desertou para o Canadá na década de 70, já explicou esse processo de corrupção do ciclo cultural há muito tempo. Entretanto, infelizmente, quase ninguém o conhece e sequer parou para pensar o que vem acontecendo no Brasil e no mundo em relação a isso.

Disse ele, quando ainda vivo, que o processo de subversão de uma sociedade ocorre em algumas etapas, levando-se alguns anos para que cada uma delas seja completamente vencida. No entanto, apesar de haver uma certa sequência a ser respeitada, elas podem também ocorrer de forma simultânea, o que, aliás, é bastante comum.

A primeira fase é a de desmoralização da sociedade, onde se incentiva a imoralidade, o desapego à vida, a massificação de vícios e a apologia ao crime e ao criminoso. É aqui, também, que se combate a religião e a transcendência divina. Pois bem, se você se lembrou de revolução sexual, divórcio, aborto, garantismo penal, desencarceramento em massa, guerra contra a polícia e liberação das drogas, é exatamente isto que essa coisa significa.

A segunda etapa é a de desestabilização. Aqui, o propósito principal é alcançar a erosão das instituições representativas da sociedade e propiciar e fomentar as mais diversas tensões sociais. A ideia é criar antagonismos e conflitos entre a própria população. É dividir e catalogar a sociedade, colocando um setor contra o outro. Ao invés dos indivíduos agirem de forma unida e organizada, de modo a funcionarem como uma comunidade produtiva, eles agem de forma concorrente, buscando sempre a tutela do estado para dirimir esses conflitos. Aqui, se você se recordou de homens x mulheres, negros x brancos, heterossexuais x homossexuais, ricos x pobres e nortistas x sulistas, mais uma vez lhe digo que você está certo.

A terceira fase é a denominada crise. Nela, órgãos artificiais não eleitos passam a reinvindicar poder. Coletivos, conselhos e organizações das mais variadas, sem legitimação popular alguma, passam não só a legislar, como também a exigir participação nos processos decisórios. É exatamente neste ponto, após as etapas anteriores, que a sociedade entra em colapso e deixa de funcionar. E, com o caos instalado, com as instituições representativas desacreditadas ou sem poder, e com o povo desesperado, estará ele pronto para a fase final. Se você lembrou nessa fase da ONU, OMS, UNESCO, União Européia, Conselhos e tribunais nacionais e internacionais, mais uma vez acertou na mosca!

A última etapa é, ironicamente, chamada de normalização. Mas, na verdade, ela nada possui de normal. Na realidade, é aqui que, após a somatória de todas as fases anteriores, o colapso da ordem atinge o seu grau máximo. E, para que o povo desesperado tenha um pouco de paz, ele fará qualquer coisa para que isso ocorra, inclusive consentirá com a supressão de todas as suas liberdades individuais, desde que um líder qualquer lhe prometa uma certa tranquilidade. Ah, é nesta etapa, também, que haverá a eliminação daqueles indivíduos que foram responsáveis pelos estágios anteriores (os chamados idiotas úteis), visto que não interessarão mais aos tiranos que já terão chegado ao poder.

Em resumo, o que quero dizer com tudo isso é que, com a corrupção de todo o ciclo cultural, o objetivo final será literalmente alcançado, qual seja, o caos social. E, com a chegada deste, os indivíduos cederão, por desespero, as suas liberdades individuais a qualquer um, podendo ser a um Estado, a um organismo internacional ou a um agente totalitário, os quais nunca se preocuparão com seus súditos, até porque, como já dizia Saul Alinsky (o guru de Obama e Hillary), a causa nunca é a causa, mas sim a revolução.

Caso alguém acredite que eu estou ficando maluco ao dar atenção a Yuri Bezmenov, ou então que sou adepto da teoria da conspiração, sugiro apenas que leia as obras de Bertrand de Jouvenel (O poder) e de Pascal Bernardin (Maquiavel pedagogo), bem como que assista as aulas do promotor de justiça Diego Pessi sobre direito e globalismo. Fatalmente, poderão constatar que, se estou realmente entrando em parafusos, ao menos estou bem acompanhado nesta empreitada.

Aliás, para aqueles que não entendem a relação entre marxismo e globalismo, creio que a situação está agora esclarecida. Todo o cabedal teórico do marxismo, em especial a substituição das individualidades pelo coletivismo, se encaixa como uma luva às ideias de poder global. Isso sem contar no totalitarismo e no controle dos indivíduos, que são desejados por ambos, bem como na relação econômica promíscua existente entre eles. Ludwig von Mises já dizia, desde a década de 20 do século passado, que a total estatização dos meios de produção sempre foi algo impossível. Logo, o negócio é desenvolver uma economia fascista: o Estado divide o seu poder com meia dúzia de multibilionários, os quais financiam o primeiro e, depois, todos eles se retroalimentam. Já o pequeno e médio empresário que se danem! É por isso que George Soros e as famílias Rockefeller e Rothschild sempre estão atrás das agendas esquerdistas.

Dito isto, creio que, no Brasil e no mundo, já estamos ao menos na terceira fase de subversão acima mencionada, caminhando a passos largos para a última. Entretanto, como dito no início, as etapas não são excludentes entre si, podendo haver o desenvolvimento de todas elas ao mesmo tempo, em especial a desmoralização e a desestabilização da sociedade.

E é por isso que, no início do texto, mencionei o campeonato inglês de futebol e o programa dominical brasileiro. O primeiro vem há tempos enaltecendo um movimento de divisão e rotulação da sociedade (Black Lives Matter), bem como incentivando, de modo subliminar, um verdadeiro sentimento de guerra contra a polícia. Faixas, bandeiras e camisetas com o nome deste grupo foram expostas sem parar em muitas rodadas, em especial nas últimas. E veja que a narrativa é completamente desapegada da realidade, muito embora, infelizmente, eu não negue a existência do racismo em muitos lugares. No entanto, dizer que este é estrutural e sistêmico, em especial no país de origem do movimento (EUA), me parece bem equivocado. Basta ler ou assistir os livros e entrevistas de Heather Mac Donald, Thomas Sowell e Larry Elder, por exemplo (estes dois últimos negros), para se constatar que o propalado genocídio de uma polícia branca em face dos negros não passa de falácia. Se a polícia dos EUA mata mais brancos do que negros em confrontos, se cerca de 90% dos negros americanos são mortos por outros negros, e se o número de crimes de negros contra brancos é, em números absolutos, cinco vezes maior, e em números proporcionais, vinte e cinco vezes maior do que o de brancos contra negros, como se sustentar que o país é estruturalmente racista, ainda mais quando os ídolos do esporte e do cinema são quase todos negros, e quando um negro foi eleito e reeleito para a presidência da república, mesmo quando a população negra constituía apenas 13% do todo?

Muito difícil, não é mesmo? A explicação, então, é realmente outra. Fomentar uma guerra contra a polícia (sistema de lei e ordem), bem como fomentar a divisão e o ódio entre grupos, atomizando e desestabilizando a sociedade, tudo como parte do processo de destruição do ciclo cultural antes analisado. Aliás, vejam quem financia o tal grupo e outros semelhantes. Se encontrarem algum globalista já citado, creio que terão que me dar razão.

E o mesmo ocorre com o tal programa de TV também mencionado. Tempos atrás, até abraço em um pedófilo já tivemos. Nesses dias, a ênfase foi agora em supostos erros judiciários, como se estes significassem a maioria em nosso país, sabidamente um dos mais violentos e geradores de impunidade de todo o globo terrestre. E qual a intenção disso tudo? Óbvia! Desestimular a sociedade, o Estado e seus agentes de condenarem pessoas, sob o risco de praticarem injustiças. Com medo, não condenarão mais ninguém, inclusive todos os culpados, fomentando-se, assim, o caos social, o crime e os delinquentes em geral, tal como visto lá na fase de desmoralização da sociedade.

Bem que David Rockefeller já disse que “A nova ordem emergirá do caos”.

Portanto, caro leitor, fique atento e não se deixe iludir com propostas aparentemente sedutoras e politicamente corretas. Muitas vezes, o buraco é mais embaixo e proporcionado por gente maluca que vive neste mundo, e que só possui interesse em uma coisa: poder!

E é exatamente por isso que William Shakespeare já dizia que choramos ao nascer, não por conta de respirarmos pela primeira vez, mas sim porque chegamos a este imenso cenário de dementes.

*Rodrigo Merli Antunes, promotor de Justiça em São Paulo e pós-graduado em Direito. Membro do MP Pró-sociedade

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