Corretor afirma que Dirceu lhe pediu para comprar casa ‘para não inflacionar’

PF suspeita que Julio Cesar dos Santos ocultou patrimônio de ex-ministro-chefe da Casa Civil (Governo Lula) ao adquirir imóvel onde mora a mãe de José Dirceu, em Passa Quatro (MG)

Redação

08 de agosto de 2015 | 18h00

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

José Dirceu. Foto: André Dusek/Estadão

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O corretor de imóveis Julio Cesar Santos, alvo da Operação Pixuleco – 17.º capítulo da Lava Jato – revelou à Polícia Federal que em 2004 José Dirceu lhe pediu que adquirisse a casa onde mora a mãe do ex-ministro-chefe da Casa Civil (Governo Lula), em Passa Quatro (MG). Segundo Santos, o imóvel foi comprado na época por R$ 250 mil e está registrado em nome de sua empresa, a TGS Consultoria. Ele alega que Dirceu fez o pedido ‘para não chamar a atenção o fato de estar sendo aquirida por ele, que então era ministro de Estado, o que poderia inflacionar o valor’.

Para a PF, a declaração de Julio Cesar Santos evidencia que ele, por meio da TGS Consultoria, ‘atuou na ocultação de patrimônio de José Dirceu’. A PF diz que reforça a suspeita a análise da caixa de correio eletrônico do corretor de imóveis, que foi sócio minoritário da JD Assessoria e Consultoria, controlada pelo ex-ministro e sob suspeita de ter sido usada para captar propinas de empreiteiras no esquema de corrupção na Petrobrás.

Julio Cesar dos Santos e Dirceu foram presos na Pixuleco segunda-feira, 3.

O corretor declarou, ainda, que a casa onde reside a mãe de Dirceu no interior de Minas foi quitada para ele com a emissão de boletos bancários em nome da TGS. Ele disse que ‘não foi lavrada escritura nem foi realizado o devido registro imobiliário’. “Mesmo sendo corretor de imóveis e tendo conhecimento do funcionamento do mercado fiz isso por relação de confiança com José Dirceu.”

Outro episódio que na avaliação da PFindica a atuação do corretor na ocultação de bens do ex-ministro e lavagem de dinheiro foi a compra de um imóvel, também em nome da TGS, no Condomínio Santa Fé, em Vinhedo (SP), ao lado da residência de
Dirceu, em 2010, no valor de R$ 110 mil. Um ano depois, ele vendeu o imóvel por R$ 200 mil para o próprio ex-ministro, já réu na Ação Penal 470 (Mensalão) no Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, o ex-ministro assumiu a dívida do condomínio, que foi parcelada pelo corretor.

Julio Cesar dos Santos declarou à PF que ‘tomou conhecimento de que o imóvel foi reformado por Milton Pascowitch’.
Apontado como lobista e operador de propinas na Diretoria de Serviços da Petrobrás. Pascowitch é o pivô da prisão do ex-ministro. Ele fez delação premiada e relatou os bastidores das relações de Dirceu com empreiteiros que formaram o cartel de fraudes na Petrobrás.

Segundo o corretor, o irmão de Dirceu, Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, comentou que a reforma seria realizada por Pascowitch. “Tratava-se de uma construção inacabada. A operação de compra e venda foi formalizada em um contrato particular, embora não tenha sido escriturada e com o devido registro”, afirmou Julio Cesar.”

“Além de haver integrado o quadro societário da empresa JD Consultoria, foi possível identificar que Julio Cesar dos Santos mantém intenso relacionamento com a estrutura criminosa ora investigado”, assinala a PF.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ROBERTO PODVAL, DEFENSOR DE JOSÉ DIRCEU

O criminalista Roberto Podval, que defende José Dirceu, disse que ainda não conversou com ele especificamente sobre a questão da casa onde reside a mãe do ex-ministro, em Passa Quatro (Minas). “Depois que falar com o Zé terei condições de me manifestar sobre isso (a compra do imóvel)”, disse Podval.

Na semana passada, ao refutar com veemência envolvimento do ex-ministro do governo Lula no esquema de propinas na Petrobrás, o advogado afirmou. “O Zé não é dinheirista.”

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