“Corremos o risco de sermos pegos na mentira”

“Corremos o risco de sermos pegos na mentira”

Ex-supervisora da BRF, responsável por análises laboratoriais dos produtos da empresa, processou grupo sob alegação de que sofria pressão para alterar resultado de exames que apresentavam diagnóstico de contaminação

Julia Affonso e Ricardo Brandt

05 Março 2018 | 11h20

 

O grupo BRF, alvo da Operação Trapaça, terceira fase da Carne Fraca deflagrada nesta segunda-feira, 5, foi processado por uma ex-supervisora de laboratório. Adriana Marques de Carvalho moveu uma ação trabalhista e relatou à Justiça que sofria pressão que ‘de seus superiores para alterar o resultado das análises que apresentavam diagnóstico de contaminação’.

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A ex-supervisora trabalhou na BRF por 14 anos, segundo a investigação da nova fase da Carne Fraca. Antes de ser desligada da empresa, Adriana Marques Carvalho exerceu a função de supervisora de laboratório.

“Caso a análise realizada constatasse a presença de sorotipos da bactéria salmonella ou outro tipo de contaminação, por ordem expressa dos superiores, Adriana deveria alterar as informações constantes dos laudos destinados à fiscalização”, aponta a Trapaça.

“Além da alteração de resultados, a ex-supervisora era obrigada a proceder à simulação de laudos e de amostras, como se tivessem ocorrido normalmente, inclusive tendo que realizar rastreabilidade da amostra de forma simulada, para apresentar às auditorias externas.”

A Polícia Federal analisou e-mails trocados internamente na BRF e identificou supostas irregularidades no laboratório da empresa em Rio Verde (GO). Em 18 de junho de 2014, uma funcionária da Garantia de Qualidade da BRF enviou um e-mail para a então supervisora pedindo ‘alteração para geração de laudos’ relativos a sobrecoxas de frango. No assunto: ‘laudo Rússia’.

Na resposta, Adriana Marques Carvalho afirma que ‘as duas primeiras rastreabilidades já haviam sido modificadas’.

“Os laudos desses já foram enviados já foram enviados dia 05 e 06 de junho de 2014. Assim não iremos alterá-los novamente. Os demais iremos alterar conforme sua solicitação”, afirmou a então supervisora.

“Obs: Está acontecendo muito esses pedidos de alterações nos resultados, causando grandes transtornos em ‘passar a limpo’ todas as rastreabilidades das análises, sem falar que corremos o risco de sermos ‘pegos’ na mentira. Favor tentar p/ que isso não ocorra mais, pois estamos com o quadro de pessoal reduzido (pessoas de férias).”

A funcionária que havia solicitado a alteração escreve para Adriana. “Ok, cuidaremos mais.”

Para a PF, ‘a conduta de modificar os resultados de exames laboratoriais é ação corriqueira e aceitável pelos servidores da empresa’.

A Operação Trapaça identificou que o processo movido por Adriana Marques Carvalho foi ‘à ciência da alta cúpula da BRF, e que a preocupação com a exposição do processo judicial foi consenso entre os executivos’. Mensagens trocadas pelos executivos da empresa, segundo a PF, ‘demonstraram preocupação com o risco de o conteúdo da ação movida por Adriana ser encaminhado a órgãos competentes para apuração de irregularidades sanitárias’.

Os investigadores afirmam que os dirigentes da BRF adotaram a estratégia de ‘tratar o assunto com rapidez, aceitando realizar um acordo extrajudicial com Adriana’.

Trapaça. Cerca de 270 policiais federais e 21 auditores fiscais federais agropecuários participam das ação coordenada entre a Polícia Federal e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A investigação aponta que cinco laboratórios credenciados junto a Agricultura e setores de análises do grupo empresarial fraudavam resultados de exames em amostras de seu processo industrial, informando ao Serviço de Inspeção Federal dados fictícios em laudos e planilhas técnicos.

As fraudes tinham como finalidade burlar o Serviço de Inspeção Federal (SIF/MAPA), do Ministério, e, com isso, não permitir que a Pasta fiscalizasse com eficácia a qualidade do processo industrial da empresa.

As investigações indicam que a prática das fraudes contava com a anuência de executivos do grupo empresarial, bem como de seu corpo técnico, além de profissionais responsáveis pelo controle de qualidade dos produtos da própria empresa.

Também foram constatadas manobras extrajudiciais, operadas pelos executivos do grupo para acobertar a prática desses ilícitos ao longo das investigações.

O nome dado à fase é uma alusão ao sistema de fraudes operadas por um grupo empresarial do ramo alimentício e por laboratórios de análises de alimentos a ele vinculados.

Os investigados poderão responder, dentre outros, pelos crimes de falsidade documental, estelionato qualificado e formação de quadrilha ou bando, além de crimes contra a saúde pública.

A reportagem procurou a BRF. O espaço está aberto à manifestação.

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

Foi deflagrada nesta segunda-feira (05) a Operação Trapaça relacionada à fraude na emissão de resultados de análises laboratoriais para fins de respaldo à certificação em alguns estabelecimentos registrados junto ao Serviço de Inspeção Federal.

A referida operação visa apurar indícios de fraudes relacionadas à emissão de laudos por laboratórios privados e credenciados junto à Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) por laboratório privado e acreditados na ABNT NBR ISO/IEC 17025, para sustentar o processo de controle de qualidade e a certificação de produtos para o mercado.

A SDA do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento conta com uma equipe de auditoria especializada atuando em conjunto com a Policia Federal, que pode adicionar ferramentas de investigação para desvendar este processo de fraude que poderia comprometer o sucesso de programas higiênico-sanitários no Brasil.

As empresas investigadas burlavam a fiscalização preparando amostras, através dos laboratórios investigados, com o objetivo de esconder a condição sanitária dos lotes de animais e de produtos, evitando, assim, uma medida corretiva restritiva do Serviço Oficial.

O alvo principal desta operação é a fraude nos resultados de análises laboratoriais relacionados ao grupo de bactérias Salmonella spp. A presença da bactéria salmonela é comum, principalmente em carne de aves, pois faz parte da flora intestinal desses animais. No entanto, quando utilizados os procedimentos adequados de preparo minimizam os riscos no consumo da Salmonella, uma vez que a bactéria é destruída em altas temperaturas, como frituras e cozimento.

Dentre os mais de dois mil sorovares (espécies de Salmonella), existem dois de preocupação para a saúde animal e dois de saúde pública, que devem desencadear medidas específicas dentro das granjas avícolas e nos produtos sabidamente positivos para salmonela, visando a melhoria do manejo, a redução de riscos do campo à mesa do consumidor final.

O processo de fiscalização do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal já havia identificado irregularidades nos procedimentos para respaldo à certificação sanitária implementada em algumas unidades frigoríficas, o que resultou em exclusão destes estabelecimentos para exportação aos doze países que exigem requisitos sanitários específicos de controle e tipificação de Salmonella spp.

Os procedimentos adotados pela SDA a partir desta ação conjunta com a Polícia Federal são:

– Suspensão do credenciamento dos laboratórios alvo da operação, até finalização dos procedimentos de investigação, que poderão resultar no cancelamento definitivo do credenciamento;

– Suspensão dos estabelecimentos envolvidos para exportar a países que exigem requisitos sanitários específicos de controle e tipificação de Salmonella spp;

– Implementação de medidas complementares de fiscalização, com aumento de frequência de amostragem para as empresas envolvidas, até o final do processo de investigação.

Demais providências:

– Implementação pela SDA de novos modelos de controle de laboratórios credenciados visando a redução de fraudes;

– Aprimoramemto de ferramentas de combate a fraudes em alimentos, como também continuidade de ações já desempenhadas pelo Serviço de Inspeção Federal, possibilitando redução de não conformidades a curto e médio prazo.

Brasília, 05 de março de 2018

COM A PALAVRA, O SINDICATO NACIONAL DOS AUDITORES FISCAIS FEDERAIS AGROPECUÁRIOS

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários apoia a Operação Trapaça

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) apoia a Operação Trapaça realizada pela Polícia Federal, na manhã desta segunda-feira (5), em cinco Estados brasileiros.

A operação conta com a participação de 21 auditores fiscais federais agropecuários e é desdobramento da Operação Carne Fraca, realizada em março de 2017 em decorrência de denúncias de um auditor fiscal federal agropecuário.

O objetivo da operação Trapaça é apurar indícios de fraudes em emissão de laudos de laboratórios privados que realizam processo de controle de qualidade e certificação de produtos para o mercado. Esses laboratórios criariam amostras com objetivo de esconder a condição sanitária dos lotes de animais e de produtos. O foco principal é a fraude nos resultados associados ao grupo de bactérias Salmonella spp.

A salmonela é comum em carne de aves, porque faz parte da flora intestinal destes animais, mas, em geral, é destruída no preparo regular dos alimentos. Porém, há dois tipos de Salmonela que são danosos à saúde pública e dois à saúde animal. Ao serem detectados devem desencadear uma série de procedimentos dentro de granjas e nos produtos, com objetivo de garantir a segurança alimentar do consumidor.

A ação destaca a importância de um sistema de inspeção agropecuária rigoroso, que envolva servidores públicos que atuem de maneira independente e que tenham compromisso com a segurança alimentar do brasileiro e dos consumidores dos produtos agropecuários brasileiros exportados.

O Anffa Sindical apoia a operação e reforça a necessidade da atuação independente e autônoma de servidores públicos no processo de inspeção agropecuária.

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