Corpo em evidência

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Luiz Verzegnassi*

09 de janeiro de 2020 | 08h00

Luiz Verzegnassi. FOTO: DIVULGAÇÃO

A agência americana responsável pela liberação de remédios, procedimentos e equipamentos voltados à saúde nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), acaba de liberar o uso, naquele país, do primeiro raio-x da medicina capaz de indicar aos médicos os casos prioritários para atendimento após avaliações pulmonares. Foram necessários 124 anos depois da descoberta do raio-x pelo físico Wilhelm Conrad Rontgen para que a saúde humana contasse com um aparelho que, além de fazer a imagem dos pulmões, processa os retratos e aponta qual paciente deve ser atendido antes. Sua chegada ao mercado, porém, representa com perfeição dois fenômenos: a profunda transformação pela qual a medicina passou nas últimas décadas e o caminho a seguir no cuidado com o corpo daqui para frente. As máquinas são e deverão ser cada vez mais inteligentes e nem o raio-x, o mais antigo aparelho de imagem do mundo, ficou de fora. Elas ajudarão os médicos a detectarem com extrema acurácia o problema de cada indivíduo, fornecendo dados que contribuirão para o desenho de tratamentos únicos. Por isto mesmo, mais eficazes e sustentáveis financeiramente, uma vez que a chance de uso de recursos desnecessários se reduz significativamente. Bem-vindos à era da medicina de precisão.

O conhecimento genético e a evolução da biologia e da engenharia molecular são dois dos pilares que sustentam a aplicação desta nova medicina. Outros são os exames de imagem, como está claro pelo exemplo do raio-x. Desenvolvido em parceria com a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, seu uso guiado por Inteligência Artificial (IA) abreviará o tempo para o atendimento de um paciente com colapso pulmonar, grave condição de saúde que pode levar à morte. Está dentro do contexto das emergências hospitalares, em que cada minuto conta – a favor ou contra o paciente. Sem este recurso, o tempo médio para a confirmação do diagnóstico é de mais de oito horas.

Aparelhos de imagem inteligentes, como se vê, são vitais para o fortalecimento da medicina de precisão, ajudando a salvar vidas. Por esta razão, os esforços do setor responsável pela fabricação dos equipamentos estão voltados para o desenvolvimento desses sistemas, geralmente em parceria com instituições de pesquisa renomadas de todos os continentes. Revoluções científicas são feitas a partir da soma de conhecimentos e nós, da indústria, estaremos sempre dispostos a trabalhar em conjunto com integrantes da comunidade acadêmica. O fruto dos investimentos é fabuloso.

Esta nova fronteira que se abre na área da medicina diagnóstica trará benefícios diretos aos pacientes, facilitará o trabalho dos médicos, que terão tempo para dedicar às questões realmente mais relevantes de cada indivíduo, e também provocará impacto positivo para a sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde. A maioria dos países enfrenta desafios para manter no azul as contas da assistência médica a seus habitantes ou luta para sair do vermelho, caso do Brasil. Sabe-se que parte do rombo nos gastos com saúde é resultante de desperdício. Isto envolve desde gasto indevido de materiais até a realização de exames desnecessários. Segundo a Organização Mundial da Saúde, na área pública, a perda de recursos pode chegar a 40%. Na privada, a 20%. Cada diagnóstico preciso realizado com a ajuda de aparelhos de imagem inteligentes tira da fila mais um paciente que poderia ser submetido a um exame do qual não necessita, estimulando a necessária sustentabilidade econômica do setor.

Uma experiência realizada no Hospital RS Premier Bintaro, em Jakarta, na Indonésia, deixa claro os benefícios da adoção de sistemas inteligentes de diagnóstico e de gestão para o sistema como um todo. A instituição foi uma das primeiras a introduzir o agendamento de consultas online e o prontuário totalmente digital. Há três anos, o hospital decidiu também implantar um esquema que integra informações do setor de radiologia, permitindo ao médico armazenar, ver e compartilhar com colegas imagens obtidas por equipamentos como ressonância magnética e tomografia computadorizada. Uma avaliação recente revelou que o RS Premier Bintaro economizou 31% no custo por exame e reduziu em 38% o tempo para a geração do resultado. Desta maneira, os pacientes esperaram menos para serem atendidos nas consultas e os médicos responsáveis por casos urgentes contaram com os resultados radiológicos rapidamente.

Imagens são componentes fundamentais de qualquer história. Muitas vezes, sozinhas revelam nuances de situações complexas e difíceis de compreender. Na saúde, agora enriquecidas com sistemas de inteligência artificial capazes de interpretá-las, contribuirão ainda mais para consolidar a medicina de precisão e tornar o paciente cada vez mais o centro de tudo. Medicina de precisão representa um avanço inquestionável que já pode – e deve – ser aproveitado ao máximo pelo Brasil.

*Luiz Verzegnassi é presidente e CEO da GE Healthcare na América Latina

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