Corpo de Golias e espírito inventivo de Davi

Corpo de Golias e espírito inventivo de Davi

Ricardo Piccoli*

28 de fevereiro de 2021 | 10h30

Ricardo Piccoli. FOTO: DIVULGAÇÃO

Houve um tempo, não muito distante, em que toda pequena empresa buscava replicar a líder do setor. A pequena empresa olhava para as grandes referências multinacionais ou nacionais como inesgotável fonte de inspiração, tendência e pensamento de futuro, e tentava, a todo custo, diminuir seu gap de inovação – mas jamais zerá-lo. Parecia um mundo distante competir de igual para igual com a grande corporação e suas infinitas vantagens competitivas, sua escala, seu know-how e capacidades, visão de longo prazo e amplo acesso ao capital.

Não faz tanto tempo assim, mas muita coisa mudou muito rápido. O jogo virou.

Hoje, são as grandes corporações que buscam inspiração de inovação no mundo das startups. E isso aconteceu basicamente porque as antigas vantagens competitivas das corporações gigantes diminuíram rapidamente e vou explicar por quê.

Primeiro, o acesso ao capital nunca foi uma barreira de entrada tão baixa. No mundo das taxas de juro zero, excesso de liquidez financeira na mão de venture capitalists, e novas modalidades de captação como SPACs, nunca foi tão fácil para um pequeno empreendedor ter acesso ao capital.

Além disso, os custos nunca foram tão baixos e tão fáceis de variabilizar: Software as Service, Cloud Storage e tantas outras ferramentas que hoje podem facilmente se adaptar ao nível de escala do negócio sem pesar a estrutura com custos fixos.

Sem falar que ter um impacto regional, nacional e global nunca foi tão fácil. Footprint global sempre foi uma vantagem das grandes corporações e hoje o são ainda mais. E o mais importante: nunca o mundo mudou tão rápido!

Alguns chamam de mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo no acrônimo em inglês); outros especialistas dizem que a velocidade e agressividade das mudanças acelerou tanto que o mundo pode ser descrito com outro acrônimo – BANI (frágil, ansioso, não-Linear e incompreensível). Mas o fato é que as tecnologias são grandes catalisadores dessa velocidade. Hoje, novas trends emergem em menos de um dia e se tornam fenômenos globais.

E, nesse contexto, velocidade vira a vantagem competitiva mais importante e mais perene. É difícil prever o futuro, mas a certeza é que ele continuará mudando cada vez mais rápido. A escala, que muitas vezes ajudava, vira somente “tamanho” e os grandes músculos do Golias corporativo começam a atrapalhar onde antes ajudavam.

Os processos, feitos para maximizar eficiência sob a lógica da economia industrial do século 20, não garantem a velocidade necessária. As estruturas de gestão verticais, hierárquicas, top down, criadas para garantir alinhamento, estabilidade e eficiência viram inimigas da inovação. E o footprint global vira desconexão com o consumidor local.

É exatamente por isso que as grandes corporações estão obcecadas em entender melhor como ser mais start up. Elas entenderam que é questão de sobrevivência. Muitas delas perseguem esse objetivo através de aquisições e outras criando suas células internas de inovação, com suas próprias regras, processos e orçamentos. Elas entenderam que mais importante do que seguir a “próxima trend” no horizonte (que é uma vitória de curto prazo) é garantir que desenvolvam a capacidade de se mover rápido e com conexão ao consumidor, reagindo as mudanças do mundo e do mercado de forma cada vez mais responsiva (essa sim uma vantagem de longo prazo, para surfar todas as oportunidades). E isso demanda mudanças gigantes no perfil de talentos, diversidade, processos, rotinas e modus operandi.

Mas nem tudo são flores no mundo dos pequenos Davis.

A mesma tecnologia traz os chamados efeitos-de-rede que tendem a consolidar negócios e gerar monopólios. Ninguém quer pesquisar no “segundo melhor Google”. A era da informação é também a era da consolidação rápida e toda startup tem como seu maior imperativo e seu maior desafio o de ganhar escala rápido. Isso é extremamente difícil e doloroso. Pouquíssimas startups conseguem crescer. Menos ainda conseguem criar culturas organizacionais e adquirir talento humano que seja adaptável em todos os ciclos e tamanhos da organização, e na inabilidade de crescer, morrem.

Mas… Contradição das contradições! Não acabamos de falar que o tamanho atrapalha? Hum. Não!

Startups têm se mostrado muito mais ágeis, adaptáveis e capazes de rapidamente conectar com necessidades do consumidor. Criar produtos desejáveis, enquanto as grandes corporações já aprenderam a jogar o jogo da escala e criar viabilidade para suas operações.

Aparentemente o mundo do futuro pertencerá aos mestres do modelo híbrido: aquelas que conseguem crescer rápido sem perder a velocidade e foco no consumidor dos seus primeiros dias de negócio.

Desenvolver esse modelo deveria ser hoje a coisa mais importante na agenda estratégica da sua organização. Corpo de Golias e espirito inventivo de Davi.

*Ricardo Piccoli é diretor de Categoria e New Ventures na Kraft Heinz – Europa

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