Coronavírus: o ‘day after’

Coronavírus: o ‘day after’

Augusto Pinto*

06 de maio de 2020 | 05h00

Augusto Pinto. FOTO: DIVULGAÇÃO

Até aqui, toda a nossa preocupação foi com o isolamento social e os cuidados com a saúde de nossas famílias e de nossos colaboradores. Porém, como tudo o que é bom um dia acaba, o que é ruim também. E, de repente, como um respiro em meio a tanto sufoco, vemos fotos nos jornais de crianças barcelonenses liberadas, ainda que uma hora por dia e acompanhadas de seus pais e responsáveis, para gastarem um pouco  de energia ao Sol. Atentos e ansiosos, acompanhamos, também,  o retorno às aulas, bem como a abertura do comércio, que, timidamente, começa a acontecer nos países adiante de nós na curva da contaminação. Então, eu mergulho num dilema existencial que ora enxerga uma “luz no fim do túnel”, ora não faz a menor ideia do que pode nos aguardar do lado de fora.

Pensando nesse contexto e no nosso “day after”, imaginei uma fábula. A história ocorreu, supostamente, nos últimos dias da 2ª Grande Guerra e tem dois personagens: um inglês, londrino, e um japonês, residente nos subúrbios de Nagasaki (mas que, também poderia ser Hiroshima). Ambos passaram por um trauma, mas em circunstâncias diferentes.

Nosso amigo inglês, John, lia o jornal e tomava seu chá matinal, quando ouviu o alarme. Era a  Luftwaffe que chegava para mais um dos rotineiros bombardeios sobre Londres. Com toda a sua fleuma britânica, John pegou seu jornal e um resto de torrada e se dirigiu à estação de metrô mais próxima, o protocolo padrão de proteção durante os bombardeios. Lá chegando, sentou-se no chão, no meio da multidão e calmamente continuou lendo seu jornal e saboreando sua torrada. O chão tremeu com o impacto das bombas alemãs. Mas, passados trinta minutos, o silêncio retornou e novamente a sirene de alarme tocou, liberando todos a voltarem para suas casas. Do lado de fora, um cenário trágico aguardava John. A padaria da esquina tinha virado um monte de escombros e a casa de seu vizinho tinha ruido, com, provavelmente, todos mortos dentro dela. Felizmente, sua casa continuava em pé. E, triste e impactado, ele voltou para casa para terminar sua refeição matinal e se dirigir ao trabalho, para mais um dia, como tantos outros em sua rotina. Tudo mudou, mas nada mudou.

Já o nosso amigo de Nagasaki, Hiroshi, estava lavando a louça junto da família, quando ouviu um silvo assustador, seguido de um clarão e de repente tudo se apagou. Quando ele acordou, um minuto ou uma hora depois, a primeira coisa que fez foi procurar por sua família, que, felizmente, estava bem e, como ele, recém-acordada do susto. Todos saíram à porta e o que viram tirou-lhes o fôlego e fez seus corações dispararem. À sua volta não existia mais nada, além de  cinzas e escombros. Uma ou outra casinha de vizinhos, como a sua, resistiu, mas a maioria virou escombros. O que fazer e por onde (re)começar? E, ao contrário de John, Hiroshi não tinha a menor ideia.

Bem, o que essa fábula me traz à memória é o que encontraremos quando sairmos à luz do Sol. E eu temo que estaremos mais para o cenário encontrado por Hiroshi do que por John. Se compararmos a situação atual, particularmente do Brasil, com outras crises que já vivemos, constataremos que ela é, hoje, bem mais grave. Além da pandemia e suas implicações, o Brasil vive uma monumental crise fiscal e, talvez, a maior crise institucional de sua fase democrática. A injustiça social e os problemas causados pela má distribuição de renda tendem a exigir de nós ações radicais que nunca tivemos coragem para tomar.

Comparemos a crise atual com outras grandes crises econômicas globais dos últimos cem anos. Em 1929, a queda dramática dos preços agrícolas destruiu a Bolsa americana e levou o mundo todo à recessão. Em 1971, puxado pelos gastos excessivos no Vietnã, os EUA liquidam sua reserva de ouro, criando outro pandemônio global. Em 1973, a OPEP faz o embargo do petróleo, levando o preço do barril às nuvens. No ano 2000, o furo da bolha das empresas “ponto com”, as empresas da Internet, arrasa a NASDAQ, levando ao fechamento de 5 mil companhias de tecnologia ao redor do mundo. E, em 2008, a má gestão de riscos dos negócios imobiliários cria a crise dos subprimes, causando um impacto econômico global que nos levou à criação da moderna governança corporativa. Mas, em todas essas crises, voltamos para casa e para nossos empregos, ou subempregos, como o John, com seu jornal embaixo do braço. Só que, desta vez, não.

E o que acontecerá agora? Quem é que sabe. Só sabemos que nada será como antes. Experimentos como home office, EAD e reuniões à distância bem-sucedidas, causarão transformações exponenciais em negócios imobiliários, educação, transportes aéreos e hotelaria, por exemplo. E o que cada um de nós pode fazer quando chegar a nossa vez de retornarmos à rotina? Bem, eu acho que algo parecido com o que o Hiroshi deve ter feito. Avaliar os prejuízos e os riscos e tomar as decisões mais imediatas com relação à nossa segurança e de nossa família. E, depois disso… interagir, interagir e interagir. Conversar com nossos pares na empresa, com nossos amigos e com nossos clientes. Entender como a crise mudou suas vidas e seus negócios. E aí pensar no impacto que essas mudanças trarão à nossa própria vida e aos negócios da nossa empresa, sejamos nós empresários ou  colaboradores.

Na comunicação, que é o meu negócio, eu espero mudanças dramáticas. Acredito que as mídias impressas, que já estavam no corner, sofrerão grandes impactos e ainda mais mudanças. A experiência de termos suspensos os jornais e revistas impressos e lermos tudo digitalmente, consolidou uma mudança de hábitos. As empresas descobriram novas formas de se comunicar, diretamente, com seus clientes, promovendo lives e podcasts. Os vídeos passaram a ser o tipo de conteúdo preferencial do público. O tom utilitário das ações de comunicação se mostrou efetivo, aproximando marcas e pessoas. E esses são apenas alguns exemplos.

Mas, acima de tudo, o “novo normal” será a Essencialidade. Durante a quarentena aprendemos a valorizar o essencial, em detrimento do supérfluo. Isso vale para botar um freio no consumismo, mas também se aplica à comunicação. As marcas vão ter que aprender o que é realmente essencial em sua comunicação com o público. Quais são as mídias e conteúdos essenciais à valorização das marcas. E isso pode significar um “cavalo de pau” na estratégia de comunicação. Como o Hiroshi conversou com seus vizinhos, conversarei com meus sócios, com nossos colaboradores e com nossos clientes e começaremos a “reconstruir nossa Nagasaki”, a partir do conceito da Essencialidade.

Nossa “nova Nagasaki” será uma cidade diferente da anterior. Mais simples e frugal, mas também mais linda e mais justa do que a recém-destruída. E assim faremos, exatamente, como no trecho do lindo poema de Rudyard Kipling, o ‘If’ – “vendo destruída pela sorte maldosa a obra de nossa vida, vamos tomar da ferramenta desgastada e recomeçar tudo do nada”. Lindo, né? E muito real.

*Augusto Pinto, sócio-fundador da RPMA Comunicação

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