Coronavírus: o choque econômico de 2020

Coronavírus: o choque econômico de 2020

Roberto Dumas*

16 de março de 2020 | 07h00

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Que começo de ano. Apesar do ano novo no Brasil só começar depois do carnaval, enquanto a Sapucaí e o Sambódromo brilhavam muita coisa já havia acontecido e ceifado parte do nosso crescimento econômico de 2020. Lá pelos lados da China chegou um vírus, talvez semelhante a de uma gripe, no entanto com poder de alastramento bem maior que o da SARS de 2003. Enquanto a SARS infectou 8,000 pessoas, a covid-19, nome científico para a estrela maldita de 2020, o coronavírus, já infectou quase 150,000 pessoas causando a morte de 5,600. Isso em um período menor que 3 meses.

Obviamente que a economia global já sentiu e sentirá por demais os efeitos desse vírus. Começando pela classificação desse choque que afetou o mundo. Sim, pois todo economista que se preze precisa ao menos dar um nome ao choque. Para complicar as coisas, a ocorrência dessa pandemia como já confirmada pela OMS, pode ser classificada por nos economistas, como choque de demanda e de oferta. Como se as coisas já não estivessem suficientemente complicadas. Eu explico:

Choque de demanda pois o impacto do coronavírus afetou e afetará ainda mais o crescimento econômico de vários países, principalmente o da China. Durante o episódio da SARS, a China era 7 vezes menor do que é hoje em termos de PIB. Em dezembro de 2019, estimávamos um crescimento econômico para o gigante asiático de 5.9%. Atualmente, se o país crescer “apenas” 4.5% já seria uma dádiva. Mas por que 4.5% entre aspas? Ninguém discorda que 4.5% de crescimento econômico ainda mostra uma pujança econômica, o problema é que sempre precificamos ativos, tais como commodities, ações, moedas, etc., utilizando a premissa de o que poderá acontecer com o país no futuro. Se o coronavírus tirou mais de 1% do crescimento econômico chinês para 2020, imaginem o impacto que isso suscitaria no preço das principais commodities, tais como minério de ferro, zinco, cobre, alumínio, petróleo, soja, etc. Aliás não custa lembrar que a China consome de 50% a 60% de todos essas commodities produzidas no mundo. Se a nossa projeção cai de 5.9% para 4.5% então o preço, dada a menor demanda por essas commodities, caem também. Isso sem falar no câmbio dos países que exportam tais commodities, como Brasil (minério de ferro, soja, petróleo), Chile (cobre), Austrália (minério de ferro) e por aí vai. Ora menor procura por essas commodities que esses países produzem e vendem para a China, menor a quantidade de dólares que entrará nesses países, junte-se a isso o receio de uma recessão global, a mistura fica completa: Menor quantidade deverá entrar no país, e mais pessoas buscarão refúgio na moeda do Tio Sam, para se proteger dos efeitos de uma possível recessão global. Cenário perfeito para uma maxi depreciação do Real, e de outras moedas ao redor do mundo.

Mas os efeitos contracionistas não param por aí. Todos temos acompanhado a limitação imposta à viagens, o receio de ir à lugares cheios etc. Já se percebe que setores como turismo, aviação, restaurantes, hotéis, agências de viagens, petrolíferas, mineradoras e siderúrgicas já estão sofrendo com esse choque de demanda. E o que é pior: Alguns serviços, como viagens, restaurantes, hotéis, etc., não se recuperarão em dobro quando a vacina ou um novo “tamiflu” chegar. Sim, pois ninguém irá ao restaurante ou viajará duas vezes por não ter viajado durante a crise do vírus.

Como desgraça pouca é bobagem, nós economistas ainda classificamos esse surto de coronavírus, como um choque de oferta também, além de um choque de demanda, exposto logo acima. Ou seja, dada a interligação das cadeias de suprimento globais, equipamentos eletroeletrônicos, de telecomunicação (iphone, por exemplo), carros, autopeças, farmacêuticos (genéricos), utilizam grande parte de seus componentes vindos de outros países, principalmente a China. Se um carro montado no Brasil não conseguir importador uma peça ou clusters da China, esse carro não sai da montadora. Dai o choque de oferta, pois menos desses produtos serão ofertados, pois estão inacabados dada a falta de produtos ou insumos para completar sua produção.

Como vemos o desafio é grande e se pensarmos um pouco do lado do Brasil, o desafio é maior ainda, pois não podemos contar com uma política fiscal expansionista contracíclica, pois já gastamos demais e o governo não tem dinheiro, dai as rusgas entre o executivo e o legislativo quanto a aprovação de reformas que enderecem o nosso tão necessário ajuste fiscal, além do que se pensarmos em uma política monetária expansionista (cortes maiores de juros), para conter o contracionismo desencadeado pela doença, talvez essa medida possa se tornar contraproducente. Se aproximadamente de 30% a 40% dos investimentos em formação bruta de capital utilizam bens de capital importados, uma queda de juros maior ainda no Brasil tenderá a suscitar uma maior depreciação cambial, o que tornará esses insumos importados mais caros. Some-se a isso as incertezas externas e domésticas, difícil acreditar que os investimentos no Brasil, assim como o PIB decolarão em 2020.

*Roberto Dumas, economista

Tudo o que sabemos sobre:

Artigocoronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.