Coronavírus força reinvenção no mercado de M&A

Coronavírus força reinvenção no mercado de M&A

Alexandre Pierantoni*

27 de maio de 2020 | 07h00

Alexandre Pierantoni. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia da covid-19 arrebatou a economia mundial e agora força transformações radicais e profundas em diversos setores. O setor de varejo, por exemplo, está vendo a ascensão do e-commerce em detrimento das lojas físicas; o aéreo se viu obrigado a pedir socorro ao Estado e o turismo começou a tomar linhas de crédito dia sim dia também. Bens de consumo, cada vez mais, aderem ao delivery. Buscar alternativas, reestruturar-se e planejar a recuperação dos negócios é fundamental – e é preciso fazer isto agora. Preparação é fundamental para se fortalecer e sair vitorioso desta fase. Processos de Fusões e Aquisições (M&A) são uma alternativa para sobreviver.

Na esteira da atividade do país dos últimos meses de 2019, o ano de 2020 começou positivo e cercado de otimismo  para crescimento da atividade econômica, investimentos e operações de M&A. Até 2018, atividades de M&A no Brasil tinham um patamar histórico de cerca de 750 transações ao ano, saltando para 1.050 em 2019 e a expectativa era de atingir 1.350 transações em 2020. No contexto do coronavírus, a realidade é que voltaremos a patamares de 2018 ou ainda abaixo da média histórica de 750 transações anunciadas, contando já com um possível início da retomada da economia no segundo semestre.

Além dos números, para manter a máquina girando, o mercado teve que se adaptar à distância e deixar de lado aquele contato pessoal, tão importante para conduzir as negociações e fechar o negócio. Afinal, fazer um M&A é, acima de tudo, trocar experiências pessoais e confiança.

No início de um processo de M&A, temos a apresentação do negócio, uma primeira oferta, e no fim, quando chegamos ao clímax da negociação, precisamos de troca pessoal e, de preferência, presencial. São nesses momentos que o vendedor e o comprador sentem as posições finais um do outro e estabelecem uma relação de confiança para o fechamento dos negócios.

A pandemia prejudicou a fase pessoal do M&A que fortemente acontece no início das conversas, durante o processo de visitas e avaliação do negócio, mas também ocorre muito no fim do trabalho, em conversas com acionistas e negociações entre as partes.

Como fazer agora na quarentena? Digitalmente, quando possível.

As fases de due dilligence (auditoria de aquisição onde são confirmadas as informações operacionais e financeiras) através de um data room, presentes no curso da negociação, já são realizadas em grande maioria de forma eletrônica. No passado, a fase de análise de documentação se dava presencialmente, o que, para todo o mercado otimizou os processos e compartilhamento de informações, foi uma mudança positiva.

O início e o fim da negociação são os que estão passando por uma transformação mais profunda. E desafiadora. Reuniões presenciais, no final do processo, exigiam de nós dias intensos, em salas fechadas e negociações finais para fechar um negócio. Atualmente, na mesma fase do processo, o “aperto de mãos” está exigindo, conference calls longas e diárias. Penso que estamos trabalhamos muito mais para entregar o mesmo resultado. Fruto da frieza que a pandemia impôs. Mas, conseguimos nos adaptar, e a prova disso é que o mercado não está estagnado.

É verdade que quando a pandemia passar haverá novo momento de acomodação do dos processos e atividades de M&A. Estamos atualmente nos extremos. Prematuro concluir qual será o resultado. O ‘novo normal’ deve impor virtualização de algumas fases, mas teremos um meio termo. Um tempo extraordinário, como este que estamos vivendo, requer medidas extremas, mas que não são sustentáveis a longo prazo. As taxas de renegociação de financiamento bancário e busca de capital, por exemplo, estão acontecendo virtualmente e assim devem permanecer mesmo após a pandemia porque agilizam o processo.

As perspectivas são positivas. Em processos e atividades. Esperamos uma recuperação nas atividades de M&A no segundo semestre do ano, com a retomada das privatizações e concessões planejadas pelo governo. Até lá, devemos ver a chegada de um novo perfil de transações, isso é, daquelas empresas que não tiveram capital e agora precisam ser vendidas. Isso deve ocorrer já em julho.

A crise fatalmente imporá o esvaziamento do caixa das empresas. Nos EUA, metade das empresas de pequeno porte do país tem dinheiro para sobreviver cerca de 30 dias paradas. Não é difícil imaginar que a situação no Brasil, em termos de caixa, seja ainda mais preocupante. Logo, empresas sem capital serão obrigadas a considerar irem à busca de recursos. E buscar um sócio e capitalizar-se é uma boa opção. Será que isto é apenas um bom momento para os compradores? Penso que não. Voltemos aos vencedores que mencionei no começo deste artigo.

O mercado de M&A passará por mudanças. Perdemos o aperto de mãos, mas poderemos sempre nos cumprimentar pelos cotovelos e continuar fechando transações.

*Alexandre Pierantoni, diretor executivo da Duff&Phelps no Brasil

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