Coronavírus: desafios para minimizar efeitos da crise

Coronavírus: desafios para minimizar efeitos da crise

Alfredo Pinto*

14 de abril de 2020 | 05h30

Alfredo Pinto. FOTO: DIVULGAÇÃO

Com o número de infectados pela covid-19 aumentando em grande parte dos países, o surto do coronavírus está provocando choques sem precedentes na economia mundial. Os mercados de ações em todo o mundo despencam para seus menores níveis em muitos anos, e os governos adotam medidas para contingenciar a extensão dos danos. Diversos índices mostram que os mercados financeiros já estão precificando uma recessão iminente.

O Índice do Relatório Situacional de Ameaças (Sitrep), elaborado pela Bain Macro Trend Group, é uma avaliação composta com base em todas as informações disponíveis sobre as condições epidemiológicas, econômicas e sociais ligadas ao surto. O índice provavelmente alcançará o nível 7 neste mês de abril, em uma escala de 1 a 10. Nesse patamar, já são esperados impactos severos no mercado em todo o mundo. Nos degraus mais altos, os cenários são compostos de condições possíveis para uma forte recessão global. Apenas na China, a Bain estima que o impacto no PIB pode ultrapassar os US$ 70 bilhões, valor acima de qualquer outra crise oriunda de epidemias, como foi o caso da Sars.

O problema é ainda mais grave, pois a cadeia de suprimentos chinesa foi severamente afetada pelo vírus. Seu funcionamento melhorou apenas de forma discreta nas últimas semanas, e os indicadores econômicos mostram pouca melhoria na produção. Uma rápida recuperação em “V” agora parece improvável, e uma crise financeira para pequenas e médias empresas, que prolongaria a desaceleração econômica, está se tornando mais provável a cada dia. A piora na situação dos maiores exportadores de manufaturados do mundo – Coreia do Sul, Japão e Alemanha – também indica que as interrupções na cadeia de suprimentos não se limitarão à China.

É preciso preparar-se para o pior e uma abordagem de esperar para ver não é uma opção. Haverá um impacto substancial na receita da grande maioria das empresas, levando a uma potencial crise de liquidez para muitas delas. Diante disso, organizações de todos os setores precisam se movimentar de forma extremamente ágil para minimizar os danos. É necessário ativar o quanto antes procedimentos de contingência que incluam mitigação de ameaças imediatas ao pessoal, revisar e adiar investimentos não estratégicos e fazer planejamento para um ambiente de negócios equivalente a uma recessão de todo um trimestre.

Contudo, tais medidas não são suficientes para evitar os piores efeitos da turbulência. Com o agravamento do cenário, as empresas devem capacitar suas equipes de gestão de crises, otimizar o fornecimento e a logística, economizar dinheiro, comunicar com eficiência e de forma colaborativa. Trata-se, sem dúvida, de um momento decisivo para as lideranças. Acima de tudo, a segurança dos funcionários e clientes é fundamental.

Assim como nos tempos de bonança, o desafio das empresas em momentos obscuros varia de acordo com o segmento de atuação. No setor de supermercados, por exemplo, muitas redes já enfrentam o aumento do tráfego nas lojas físicas e on-line, à medida que o pânico começa a tomar conta dos clientes que buscam armazenar mantimentos. A expansão das operações on-line para atender a essa demanda não é particularmente fácil, dada a dificuldade de encontrar rapidamente pessoal suficiente – e com as habilidades certas. Enquanto isso, o conceito de jornada de compras em lojas físicas ganha um novo significado e importância, em vista do potencial de transmissão do vírus a cada interação.

Na maioria dos outros segmentos, o surto implicará redução de tráfego e, consequentemente, de receita. Empresários de todos os setores devem estar preparados para agir rapidamente para mitigar o impacto dessa turbulência, além de aprender com a experiência de seus pares na China e em outros países atingidos. Mesmo que o foco imediato esteja nas contingências de curto prazo, os executivos precisam começar o planejamento de médio prazo, para acelerar o ciclo de recuperação. Certamente haverá mudanças de comportamentos permanentes, acelerando tendências já previstas. Agir agora pode preparar as empresas para a sobrevivência durante a crise e além.

*Alfredo Pinto é office-head da Bain & Company na América do Sul

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