Coronavírus: como diminuir o número total de mortes diretas e indiretas

Coronavírus: como diminuir o número total de mortes diretas e indiretas

Não se trata de escolher entre pessoas e economia, mas minimizar o total de mortes causadas pela doença e pelo empobrecimento da população

André Castellini e Ricardo Gold*

27 de março de 2020 | 08h30

André Castellini e Ricardo Gold. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Neste instante em que a covid-19 chega com força ao Brasil, temos uma vantagem: a experiência e os dados dos países por onde iniciou antes. Já sabemos que a doença afeta a todos, não apenas os idosos. Porém, os resultados da infecção são muito diferentes. Nos países onde são feitos muitos testes clínicos (Alemanha, Coréia, Áustria e Noruega), os dados são inequívocos: os infectados são distribuídos de maneira bastante homogênea por faixa etária. No entanto, afirmar que os jovens estão em risco é capcioso. Abaixo de 50 anos, a taxa de mortalidade de pessoas sem patologias anteriores, por enquanto, é muito próxima de zero. Ela é inferior a 0,1% para ser mais exato.

Entre 50 e 60 anos, a mortalidade aumenta, mas é ainda bastante baixa para quem não tem outras patologias. Com base nos dados coletados em alguns países europeus, a estimativa para a taxa de mortalidade em um número mais realista infectados é de um para cada 400 ou 600 pessoas.

Mesmo assim, os últimos dados mostram que a Itália – que já teve 7 mil mortes – deverá ter entre 20 mil e 50 mil mortes, dependendo da eficácia das medidas de contenção em curso e de liberalização.  Reduzir os casos diários na Itália dos atuais 700 ou 800 por dia para 100 ou 200 ainda levará tempo, talvez até o meio ou o final de maio.

Não vamos nos enganar sobre o que ocorrerá no Brasil: uma simples regra de três implicaria em algo entre 70.000 e 175.000 mortes aqui. Difícil ainda dizer se o número será melhor ou pior: temos pontos favoráveis, como uma população na média mais jovem e que fumou menos e em alguns estados tomamos as medidas de contenção mais cedo. Por outro lado, as medidas ainda estão descoordenadas, como na Itália, temos hábitos similares e uma estrutura hospitalar pior.

A covid-19 e seu combate irão trazer mortes diretas (causadas pelo vírus) e indiretas, induzidas pela depressão econômica em um país com grande parte de sua população pobre (exemplos: famílias que deverão se mudar para habitações sem saneamento básico devido ao desemprego; deterioração da qualidade de alimentação e o aumento da criminalidade). O objetivo dos nossos governantes deve ser reduzir o número de mortes totais (diretas e indiretas) através de medidas de quarentena eficazes, que atrasem a contaminação, mas também um processo e calendário de retirada das restrições diferenciado por perfil de cidade, região e idade das pessoas que evitem que a economia entre em  colapso.

Nesse contexto, a prioridade absoluta nessas próximas duas semanas deveria ser a de contenção, tentando “achatar” a curva dos contágios para que o sistema de saúde não entre em colapso. Ações prioritárias nesse momento obviamente incluem a defesa dos profissionais de saúde, a montagem de hospitais de campo e uso de telemedicina para evitar idas desnecessárias a hospitais. É necessário também garantir um bom isolamento do interior e do Centro-Oeste, uma vez que nosso agronegócio representa 25% do PIB.

Os 15 dias que vêm pela frente são fundamentais para definir quais medidas de contenção incrementar, manter ou relaxar, visando minimizar a soma das mortes diretas e indiretas. Essas medidas devem considerar diferenças importantes entre as cidades grandes (motores da economia nos setores secundário e terciário), as pequenas (propulsoras no setor primário), idade das pessoas e relativo isolamento de certas áreas do país.  As análises para determinar essas escolhas devem utilizar as ferramentas avançadas de data analytics e devem cobrir velocidades e perfis de contaminação nas diferentes regiões e municípios e nos diferentes perfis demográficos e sociais da população.

Olhando a recuperação chinesa, acreditamos que a partir de final de abril a atividade econômica nas áreas mais afetadas já possa ser gradualmente reiniciada, possivelmente um pouco antes nas áreas menos afetadas.  A partir desse modelo, podemos discutir opções para o Brasil que permitam implementar de forma inteligente medidas que minimizem o número de mortes totais. Entre elas a implantação de protocolos rígidos de higiene e distanciamento social, para permitir a reabertura gradual dos serviços a partir do fim de abril, e acelerar a utilização de tecnologias que permitam rápida contenção de novos focos para possibilitar uma maior liberação em maio.

Os dados e conclusões emergentes deverão ser analisados quase que diariamente para confirmar ou mudar essas datas, com base no que está acontecendo no exterior e no Brasil. Importante destacar que a grande maioria das medidas que permitiriam o controle rápido de novos focos necessitam que o número de novos caso esteja baixo para que elas sejam eficazes. Por isso, é crítico o sucesso das medidas de contenção iniciais.  Se surgirem novos cenários que mudam o panorama atual (tratamento, vacina, mutações genéticas ou mortes), o programa deverá ser ajustado. Como em organizações complexas, um pequeno número de pessoas deve assumir a responsabilidade.

Conter o número de mortes indiretas requer evitar o colapso econômico, o que irá nos obrigar a agir com determinação para minimizar os danos da “contaminação” nas empresas, focando inicialmente aquelas que são as “artérias” da economia e cuja falência levaria à quebra em cadeia dos demais órgãos. Na economia, os grandes empregadores e o sistema financeiro são essas artérias, onde não pode deixar de circular o sangue (dinheiro).

Será fundamental desenvolver nessas duas semanas um programa de dimensões sem precedentes de apoio a indivíduos e empresas:  incisivo e inspirador. Um slogan único e abrangente, muito forte e motivador para o trabalho, negócios, sindicatos e bancos. Em 1o de setembro de 2020, todas as empresas e negócios brasileiros que estavam operando em 1o de fevereiro de 2020 devem permanecer “vivos”, prontos para a recuperação. Todos, sem exceção.

A ambição e visão inicial são a de um “back stop” estatal para as perdas de crédito de empresas, sujeitas a abertura rápida de crédito, não burocráticas para todas as companhias que precisam delas – sem estatizações Ao mesmo tempo, as políticas públicas deveriam prever um suporte de renda para todos os trabalhadores e empresas. Medidas certamente extraordinárias difíceis de implementar, mas que podem ser desenvolvidas com base no princípio “na busca do ótimo, não se faz o bom”. Outros países estão prestes a lançar medidas nessa linha.

Na batalha contra a covid-19, dar transparência sobre o custo humano de qualquer escolha e gerenciar expectativas de forma realista e madura é fundamental: não se deve tentar “tampar o sol com uma peneira”. Seria fundamental que interesses maiores se sobreponham sobre os menores. Uma trégua entre rivais políticos e suporte aos líderes do país seria um ato patriótico e necessário para poupar vidas e reduzir o aumento da miséria.

*André Castellini é sócio cofundador da Bain & Company no Brasil; Ricardo Gold é sócio da Bain& Company no Chile

Colaboraram Giovanni Cagnoli, presidente da Carisma, e Luis Meloni, ex-professor da Poli e FEA e sócio-proprietário da Meltech

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