Coronagame

Coronagame

Cassio Grinberg*

26 de abril de 2020 | 06h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Um dilema do século IX sugere que um fazendeiro foi ao mercado e comprou um lobo, um carneiro e uma alface. No caminho para casa, arrendou um barco. Na travessia de rio por barco, é posto que ele poderia levar apenas a si mesmo e uma única de suas compras — o lobo, o carneiro, ou a alface. Deixados sozinhos na mesma margem, o lobo comeria o carneiro e o carneiro comeria a alface.

O coronavírus é um dilema que o mundo recebeu, e que poderia muito bem ser solucionado em conjunto. No entanto, gamificamos o dilema na direção errada: em vez de procurarmos benchmarkings e adequarmos estratégias, nos isolamos e competimos para ver quem alcança os menores níveis de culpa e número de mortes. E cometemos, pior, o mesmo equívoco em nível estadual e municipal — por que um estado americano não pode aprender com um brasileiro? Por que uma cidade do Brasil não pode aprender com uma de Singapura?

Em recente artigo no Financial Times, Yuval Harari brilhantemente diz: “um coronavírus na China e um coronavírus nos EUA não podem trocar dicas sobre como infectar humanos.” Um coronavírus não conversa com outro, mas os países bem poderiam conversar: fico pensando se não seria interessante que houvesse o cargo de “Presidente do Mundo”. Meu voto seria para Bill Gates.

Imagine um mundo direcionando recursos para testes em massa. Velocidade: quarentena, tratamento, liberação para os imunizados. Mega-ações simultâneas de testes, áreas de recuperação com pessoas levadas por aviões hoje parados. Uso de hotéis ociosos, liberação de hospitais. Resguardo aos de risco, voluntários imunizados para ajudar nos testes. Financiamento de testes para empresas, aplicação pelo médico do trabalho. Faz isso até ter vacina. Cura as pessoas e permite que o mundo volte a funcionar. Talvez não exatamente assim, mas por que não exercitar um pouco mais o cérebro global?

O fazendeiro traz primeiro o carneiro. Retorna para o lado original, busca a alface e na volta leva consigo o carneiro. Deixa lá o carneiro e traz de volta o lobo. E então vem buscar o carneiro.

O mundo resolverá o dilema do coronavírus. Mas sem conversa e ação conjunta, teremos cicatrizes, e uma alface que precisará ser replantada e colhida apenas muitos meses após.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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