‘Corona office’: dicas de sobrevivência para gestores e colaboradores

‘Corona office’: dicas de sobrevivência para gestores e colaboradores

Francisco Nogueira e Nina Campos*

10 de setembro de 2020 | 04h00

Nina Campos e Francisco Nogueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há décadas se prevê a adoção do home office de forma mais factível pelas empresas brasileiras. Seja para driblar questões estruturais, como o tempo (e dinheiro) desperdiçado no trânsito das grandes cidades ou o valor dos aluguéis corporativos, seja para propiciar maior flexibilidade às pessoas no que diz respeito aos horários e à duração de suas jornadas de trabalho. Mas, até a pandemia, esse movimento foi pouco relevante. Poucas empresas arriscaram tanto.

Mas, como sabemos, com a imposição do isolamento social a necessidade bateu à porta de todos, fazendo com que esse movimento fosse acelerado e… improvisado.

Seis meses depois, as empresas contabilizam alguns benefícios palpáveis: diminuição de custos, aumento da produtividade e da autonomia das equipes. Essas parecem conquistas a serem celebradas, pelo menos até este momento. Talvez ainda não tenhamos instrumentos para calcular o custo real desses ganhos.

Estarão empresas e colaboradores considerando as diferenças entre um home office e o que nós batizamos de “corona office”, para que o resultado final dessa mudança seja, de fato, um passo à frente em termos de organização do trabalho?

No home office “de verdade” temos à disposição uma série de requisitos físicos fundamentais, adequados em termos de necessidade técnica e ergonomia, como equipamento adequado, luz, boa internet e telefone.

Mas o que temos hoje, em grande parte das casas, é o que chamamos de “corona office”. Uma adaptação às pressas, com inúmeras limitações. Um computador incompatível com as necessidades do trabalho, uma impressora comprada às pressas com o próprio dinheiro, cadeiras, mesas e iluminação improvisadas com o que se tem em casa. O home office da pandemia está sendo feito na cozinha, na varanda, no quarto, na sala, dividindo espaço com crianças em homeschooling, com a panela de pressão apitando e uma certa bagunça física e mental.

Portanto, como já percebemos dentro de nossas próprias casas, esse tal de home office implica em muito mais do que a simples mudança de local de trabalho.

Processos e procedimentos, horários e metas tem que ser revistos e acordados entre empresa e colaboradores.
É preciso encontrar novas opções de apoio no cuidado com os filhos, com a casa e alimentação.
Como a empresa dará suporte e segurança emocional ao colaborador em questões como previsibilidade e sociabilidade nesse novo ambiente virtual? Trabalhar em casa, à médio e longo prazos será escolha ou obrigação?

A verdade é que gestores também foram pegos de surpresa e os novos processos ainda estão sendo definidos, se é que estão. Quem paga a conta de telefone e internet, cuidados com o sigilo de informações, prazos e procedimentos para trabalhos, reuniões virtuais e muito mais?

E o mais importante, a insegurança emocional atingiu a todos nós em todas as áreas da vida. E ela permeia a tudo, inclusive as relações de trabalho.

Sentimentos como o medo, a angústia, a ansiedade, a ameaça real de adoecer ou de perder alguém, a insegurança quanto a manutenção do emprego, a difícil convivência diária dentro de casa…. tudo isso faz parte do quadro emocional de colaboradores e gestores. E tem que ser tratado de forma profissional pelas empresas.

Ter clareza desse cenário pode ajudar a todos na compreensão do que deve ser feito para vivermos melhor nas relações de trabalho daqui para a frente. Com ou sem home office.

Dicas? Vamos a três delas.

O trabalho online aumenta a pressão sobre nosso sistema psicossensório. A exaustão ao final do dia é infinitamente maior do que em um dia normal no escritório. Faça pausas a cada hora ou hora e meia.

Se acalme e aceite a falta de controle. Entenda que perdemos os mecanismos de avaliação sobre o trabalho do outro, da equipe. Hábitos do escritório, observações visuais e do ambiente que são, também, informações de balizamento, desapareceram. Gestores precisam ficar atentos a demandas desnecessárias e possível sobrecarga das equipes por conta dessa sensação.

É essencial praticar a tolerância. Primeiro consigo mesmo, depois com sua equipe. Precisamos lembrar que ninguém foi treinado pra fazer home office, não foi uma simples troca de local de trabalho.

É importante lembrar que este momento vai passar e que precisamos estar bem e não em burnout, quando esse dia chegar. Como disse Elke Van Hoof, professora de psicologia da saúde e especialista em estresse e trauma na Universidade de Vrije, em Bruxelas: “se não prestarmos atenção suficiente à saúde mental, não haverá resiliência. Se não reagirmos rapidamente a possíveis problemas que as pessoas possam sofrer, teremos uma bomba-relógio. Essas pessoas são as mesmas de que precisamos para dirigir nossa sociedade após o confinamento”.

*Francisco Nogueira, psicanalista; Nina Campos, designer de relações. Fundadores da consultoria Relações Simplificadas

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