COP26 deve responder quem pagará a conta do clima

COP26 deve responder quem pagará a conta do clima

Priscilla Negreiros e Barbara Buchner*

06 de novembro de 2021 | 08h00

Barbara Buchner. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não é por acaso que a 26ª Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas tem como principal foco o financiamento climático. O mundo precisa ultrapassar a marca de US$ 4,3 trilhões em investimento no clima ao ano até 2030 para alcançar os objetivos do Acordo de Paris, principal acordo internacional para limitar as emissões globais de carbono.

Só que não estamos nem perto disso. Dados inéditos do Panorama Global de Financiamento Climático, contabilizados pelo Climate Policy Iniatiative (CPI), mostram que os fluxos de financiamento de ações de adaptação e mitigação das mudanças do clima atingiram em média US$ 632 bilhões ao ano em 2019 e 2020. É necessário, portanto, que o valor anual que o mundo investe no clima cresça 588%. Necessário e urgente.

Embora atores públicos e privados tenham aumentado constantemente seus investimentos climáticos na última década, este ritmo desacelerou nos últimos quatro anos, como mostra o estudo do CPI, passando da casa de 24% em 2017/18 para 10% em 2019/20. Isso é preocupante não apenas porque o impacto da COVID-19 ainda será observado nos próximos anos, mas porque precisamos investir trilhões de dólares, não bilhões, para ter um impacto real no clima do planeta.

A COP26 pode ajudar a preencher essa lacuna, se a ambição necessária for levada à mesa. O primeiro passo é acelerar os compromissos de financiamento climático global. Na COP15, organizada em 2009 em Copenhagen, as economias desenvolvidas se comprometeram a mobilizar conjuntamente US$ 100 bilhões por ano até 2020 em economias desenvolvimento. Apesar de esse objetivo ter alta relevância por se tratar de uma questão de confiança, é difícil avaliar o quanto foi efetivamente investido. O principal ponto, porém, é que esse valor está muito aquém da necessidade.

Atrair mais investimentos do porte necessário será possível se os setores público e privado estiverem comprometidos com uma reestruturação de prioridades. Para o setor público, são necessárias metas financeiras claras e mais ambiciosas. Incentivos governamentais claros, com margem de manobra fiscal e alinhamento de políticas públicas, devem estar na ordem do dia. O setor público deve liderar a inovação visando investimentos para abrir frentes com maior atuação do setor comercial e financeiro, via regulação, transparência e adoção de incentivos fiscais claros que ajudem o investidor identificar o que é considerada uma atitude verde.

A União Europeia, por exemplo, lançou a sua taxonomia de investimentos verdes em março, o que aumentará a transparência para atores do bloco, reduzindo a possibilidade de greenwashing, ou seja, iniciativas vendidas como ambientais, mas sem impacto real. E, ainda mais importante, o mercado deve estar integrado a esse sistema, adaptando instrumentos financeiros que respondam aos desafios climáticos.

Há necessidade também de incluir novo financiamento para adaptação às mudanças climáticas, dado que esse setor recebe atualmente apenas 7% do total investido em financiamento verde de acordo com o CPI. Países mais vulneráveis ao novo clima já estão sofrendo com falta de água, ou com seu excesso, e não há expectativa de que os desastres naturais diminuam de ritmo. Segundo a Organização Meteorológica Internacional, na última década o número de catástrofes relacionadas ao meio ambiente aumentou de 500 para 700 por ano, com mais de 50 milhões de pessoas afetadas apenas em 2020 por falta de alimentos, secas e tempestades.

Esta década irá alcançar ou interromper a transição para um mundo sustentável. A COP26 marca cinco anos da entrada em vigor do Acordo de Paris e é uma oportunidade de estabelecer as bases para uma arquitetura financeira genuína que possa apoiar a transição para um mundo sustentável com zero emissões de carbono.

*Priscilla Negreiros é gerente de Financiamento Climático no Climate Policy Initiative

*Barbara Buchner é diretora global do Climate Policy Initiative

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