COP26: a Amazônia não serve a um grupo econômico; serve a todos os brasileiros, a toda a humanidade

COP26: a Amazônia não serve a um grupo econômico; serve a todos os brasileiros, a toda a humanidade

Dom Leonardo Ulrich Steiner*

08 de novembro de 2021 | 06h00

Dom Leonardo Ulrich Steiner. FOTO: DIVULGAÇÃO

Alcançar os objetivos do Acordo de Paris e assegurar que decisões concretas sejam tomadas na COP26 é um apelo que grande parte da humanidade faz nestes dias em que acontece em Glasgow (Reino Unido), a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Sabemos que o caminho das Conferências climáticas tem sido sofrido, mas também alentador. Os diálogos têm demonstrado as realidades gritantes e as necessidades urgentes de mudança no modo de viver e do conviver com a terra. A barreira a superar é sempre econômica; é dinheiro. Os interesses econômicos estão a devastar a terra e os povos originários. A poluição do ar, das águas, a devastação das florestas, a destruição pelo garimpo, está ligada ao lucro, ao dinheiro.

Não interessa o futuro, a vida dos povos, dos pobres, o desaparecer de culturas, da beleza, da poesia, da harmonia, da humanidade. Nesse sentido é urgente uma mudança de cultura ambiental, no mundo, mas especialmente no Brasil. Na COP, há necessidade de metas mais ambiciosas a curto prazo quanto ao CO2, há urgência de um fundo ecológico que ajude na preservação das florestas e na recomposição das mesmas e é urgente, urgentíssimo, despoluição do ar e das águas dos rios e do mar. “Desplastificar” as águas; os animais estão a morrer de plástico!

Certamente, se os países todos buscassem educar para a ecologia, despertar para o cuidado da casa comum, teríamos mais chance de uma terra também habitável no futuro. A ecologia não deveria estar ligada à compreensão de dominação e lucro, mas à compreensão de cuidado e cultivo.

A COP21, celebrada em Paris em 2015, foi marcada pela Encíclica Laudato Sì de Papa Francisco. Presente nos debates, fundamentando a necessidade de metas. Os encontros, os debates entre delegações foram decisivos para chegar a um acordo que fosse aceito pelos países participantes. É sempre difícil negociar quando existem realidades nos diversos países que exige mudança em relação ao cuidado do meio ambiente.

Apesar dos retrocessos depois da COP21, essas Conferência são importantes por manterem viva a discussão e a busca de soluções em relação às mudanças climáticas. Se formos analisar as conferências, veremos um caminho onde se vai construindo consensos e buscando metas. Temos governos que negam a necessidade de uma responsabilização em relação à casa comum, por negarem a ciência, mas a ciência se impõe sempre mais nas discussões.

As COP são oportunidades para manter a discussão, o diálogo, a reflexão, aprofundando sempre mais a questão da mudança climática. Especialmente importante a escuta dos povos mais atingidos pelas mudanças, os povos mais agredidos pela devastação das florestas. As ações não caminham como desejamos, nem mesmo conforme a necessidade, apesar do perigo que estamos a correr. Mas, no futuro não poderão dizer que não buscamos, que não propomos, que não escutamos o gemido da terra e dos povos, que não tentamos superar a crise em que nos encontramos.

A promessa do governo brasileiro de eliminar o desmatamento ilegal até 2030 soa como um bom propósito. O que temos ouvido, visto e sentido é o descaso em relação ao meio ambiente, especialmente em relação a Amazônia. Não que o Cerrado esteja protegido e a Mata Atlântica, o Pantanal e outros estejam a salvo. O descaso é grave. As políticas, o desmonte dos órgãos ambientais, como também do órgão de relação com os povos indígenas, saltam aos olhos e demonstram que os pobres e o meio ambiente podem ser menosprezados e descartados.

O que nos mantém na atenção, na discussão, na reflexão é a própria sociedade através dos povos indígenas e ribeirinhos, dos cientistas atentos, das igrejas, de entidades que cuidam do meio ambiente, dos meios de comunicação que percebem a necessidade de mudança de rumo. O garimpo tem sido uma destruição, não apenas das matas, mas também das águas. As populações indígenas e ribeirinhas acabarão eliminadas pelo alto índice de mercúrio no organismo devido as águas contaminadas dos rios.

No Compêndio da Doutrina Social da Igreja encontramos uma sabedoria que nos ajuda a entender a necessidade do empenho de cada um para a tutela dos outros e do meio ambiente: “A caridade social leva-nos a amar o bem comum e a buscar efetivamente o bem de todas as pessoas, consideradas não só individualmente, mas também na dimensão social que as une”. Está em jogo toda a obra criada e toda a humanidade. Somos chamados a caminhar juntos. O isolamento, a ideologia fechada leva à morte e pode levar à destruição do planeta terra.

A insistência da Igreja na Amazônia, o Sínodo da Pan-Amazônia, o texto pós sinodal Querida Amazônia, estão a indicar o caminho comum. Existe um patrimônio cultural, religioso, social, ambiental a ser cultivado. A Igreja que está na Amazônia deve ser capaz de suscitar novos caminhos, renovar as estruturas, organizações sociais, incentivar ordenamentos jurídicos que preservem o meio ambiente, demonstrar a beleza, a poesia, a arte, a convivialidade da Amazônia.

Hoje temos necessidade de demonstrar a agressividade despudorada em relação à Amazônia, pelo interesse econômico. É urgente estar na atenção de que a Amazônia não serve a um grupo econômico; serve a todos os brasileiros, a toda a humanidade. Ela tem uma incidência enorme quanto ao equilíbrio do meio ambiente do planeta terra. A Igreja estará junto aos povos originários ajudando a conservar as suas culturas e aprender com eles. Buscará se inculturar e inculturar a espiritualidade, a fé. A Igreja da Amazônia caminha na esperança; de esperança em esperança! Apesar de todas as agressões e destruições, ela mantém viva a esperança de um futuro melhor, imagem do Reino que anuncia.

*Dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo metropolitano de Manaus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.