COP-26: o Brasil precisa entender a urgência ambiental, econômica e social das mudanças climáticas

COP-26: o Brasil precisa entender a urgência ambiental, econômica e social das mudanças climáticas

Giovanni Mockus*

09 de outubro de 2021 | 10h00

Giovanni Mockus. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Durante as duas primeiras semanas de novembro, os olhos do mundo estarão voltados para Glasgow, na Escócia, onde acontecerá a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 26). Com o tema central pautado nos impactos que a humanidade vem causando ao planeta, provocando as mudanças climáticas – e como podemos atuar para revertê-las – a COP 26 deverá ter uma abordagem mais incisiva na perspectiva econômica e social, se comparada a outras conferências do tipo.

Para além da real urgência de sobrevivência da nossa espécie, as mudanças climáticas também estão afetando a economia global e há um movimento, entre os economistas do planeta, para aproveitar a COP 26 como uma oportunidade de se tentar consensuar propostas a fim de se evitar o colapso financeiro e agravamento das desigualdades sociais, que se potencializam a partir das alterações no clima.

A preocupação dos líderes mundiais com o impacto financeiro provocado pelas mudanças climáticas, como queimadas e furacões, além do aquecimento global, se justifica: de acordo com um estudo da The Economist Intelligence Unit (EIU), divisão de pesquisa e análise do Economist Group (The Economist), as mudanças no clima deverão gerar, até 2050, um prejuízo financeiro da ordem de US$ 7,9 trilhões ao planeta, maior do que o PIB de Japão, Alemanha e Reino Unido, e cerca de cinco vezes o PIB do Brasil em 2020.

Alguns países, em especial na Europa, já se deram conta dessa realidade há alguns anos e já estão mobilizando recursos e alterando legislações no sentido de mitigar as mudanças climáticas. A exemplo, temos governos regulamentando mercados de carbono e até mesmo proibindo carros a combustão a partir de 2035. Do lado do capital, empresas também já estão se mexendo, preocupadas com seus impactos ambientais, sociais e de governança, e têm sido cada vez mais comum a adoção de práticas ESG (environmental, social and governance).

No exemplo da proibição de carros à combustão, a montadora sueca Volvo está se tornando a primeira a descontinuar a produção de carros com motores movidos à combustíveis fósseis, focando 100% nos elétricos. Nessa nova proposta, a empresa prepara para os próximos meses um IPO (oferta inicial de ações) na Europa, com previsão de alcançar US$ 30 bilhões em valor de mercado. Só a título de comparação, isso é quase três vezes mais do que a Renault, também com forte tradição no mercado europeu, que tem um valor de mercado estimado em US$ 11 bilhões.

Já no Brasil, ainda estamos longe de entender que o combate às mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável também têm uma perspectiva econômica. Na contramão do mundo, o governo de Jair Bolsonaro vem desmontando as legislações de fiscalização ambiental, incentivando o desmatamento e as queimadas, o que tem provocado graves prejuízos para a sociedade. Sob o aspecto econômico, países europeus, como Noruega e Alemanha, interromperam o financiamento ao Fundo Amazônia e o assunto tornou-se um entrave para a aprovação do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. No comércio internacional, não é incomum notícias da China e outros países da Ásia e Europa suspendendo importações do agronegócio brasileiro, por conta da política anti-ambiental.

Em carta aberta, enviada em maio deste ano a deputados e senadores brasileiros, um grupo de empresas europeias, que inclui as redes britânicas de supermercado Tesco e de lojas de departamentos Marks & Spencer, manifestou preocupação com as proporções que o desmatamento tem tomado no Brasil e ameaçou parar de comprar commodities brasileiras caso o Congresso aprove o projeto de lei de regularização fundiária que é derivado da medida provisória conhecida como MP da Grilagem.

A COP 26 será a oportunidade para o nosso país se recolocar no debate ambiental global, no qual fomos protagonistas durante governos anteriores. Apesar da comitiva oficial de Bolsonaro, com clara agenda destrutiva, essa será uma conferência marcada também pela presença de uma comitiva de parlamentares federais e cerca de dez governadores de estados brasileiros, preocupados com as mudanças climáticas em suas perspectivas ambiental, social e econômica. Nossa postura, como país, precisa ser a de se sentar à mesa como um player no combate às mudanças climáticas e fiador de uma retomada econômica verde, que foque o desenvolvimento sustentável, práticas ESG e transição para uma matriz energética limpa.

Cenas apocalípticas, como as registradas no interior do Estado de São Paulo e outros estados brasileiros, com imensas tempestades de areia e disparada dos termômetros, não são por acaso. O combate às mudanças climáticas está atrasado e é urgente. Os prejuízos ambientais, sociais e econômicos estão surgindo dia-a-dia. Alguns, já irreversíveis.

Está na hora de os governos federal, estaduais e municipais, assim como as empresas nacionais, perceberem a urgência do que está acontecendo e ajustarem suas condutas e diretrizes para a sobrevivência do que conhecemos como sociedade. Alguns países já entenderam isso. Passou do momento do Brasil entender isso também.

*Giovanni Mockus é gestor de políticas públicas pela Universidade de Brasília (UnB) e porta-voz (presidente) da Rede Sustentabilidade no Estado de São Paulo. Coordena a equipe legislativa e jurídica da líder da Rede, deputada Joenia Wapichana, na Câmara dos Deputados

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