Conversando a gente se entende

Conversando a gente se entende

José Renato Nalini*

16 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Sou convicto adepto do diálogo. Por mim, obrigaria a tentativa conciliatória prévia a qualquer ingresso em juízo. Durante mais de quatro décadas vi picuinhas, questões mesquinhas e menores, converterem-se em volumosos autos judiciais. Um gasto imenso. Não só em recursos que poderiam ser utilizados em educação, saúde, infraestrutura, saneamento básico e tantas outras carências, mas que são entregues ao sustento de uma burocracia que poderia ser bem menor.

Mas o bicho humano é isso mesmo. Podendo brigar ele briga. Louco por uma encrenca, por um desentendimento, por exagerar qualquer mínima ofensa ou ameaça ao seu ego superlativo. Daí o Brasil ser o campeão dos litígios. Já chegou a ostentar a lamentável marca de cem milhões de processos judiciais em curso pelos 97 tribunais da República.

A mudança cultural precisaria começar na mais tenra infância. O lar é a instância da composição dos conflitos. Estes fazem parte da natureza humana. Mas o modo de tratá-los pode diferir.

O universo jurídico – principalmente o judicial – foi resistente às iniciativas de subtração de causas ao onipotente Judiciário. Rendeu-se diante do descalabro de verificar que temas singelos chegam ao foro e se prolongam durante anos. A sofisticada Justiça brasileira tem quatro instâncias e inumeráveis possibilidades de reapreciação do mesmo tema, diante de um caótico sistema recursal.

Por isso é bom começar do começo. Treinando as novas gerações a evitarem o Judiciário. Este precisa ser reservado para coisas realmente sérias. Para quem não tem pressa. Os processos judiciais podem demorar décadas. Só satisfarão os sucessores das partes e também os sucessores dos advogados.

Para esse treino, nada como ler obras insuspeitas, como o livro “Intersecionalidade”, escrito por Patrícia Hill Collins e Sirma Bilge. Elas propõem que as mentes esclarecidas abandonem a lógica da destruição do oponente, aprendam a ouvir e busquem pontos de encontro possíveis. Na verdade, é o que Denise Mota chama “reabilitação crítica do conversando a gente se entende”.

Interseccionalidade é um conceito que está sendo disseminado entre os civilizados. Apenas entre os civilizados. O termo teve início em 1990, como nova fórmula para enxergar e tratar de velhos problemas. Aplica-se a múltiplos projetos de justiça social, notadamente os de justiça racial, de gênero, econômica, sexual e ambiental.

O grande potencial da ideia de interseccionalidade é gerar novas questões e propiciar a constatação de que tudo está correlacionado. Ela transmite uma sensação que prestigia a humildade, ou seja: não há motivo para a rigidez na defesa de concepções individuais absolutas. A receita do convívio é respeitar a opinião alheia. Tudo ao contrário do que ocorre nas redes sociais, onde há um duelo permanente, nem sempre civilizado, pois elas se transformaram em arena de impenitentes fanáticos e raivosos.

Observa Patrícia Collins que “o anonimato é um convite para dizer tudo o que desejam, sem que tenham de prestar contas dos efeitos das suas palavras”. O muro do anonimato estimula posturas audaciosas, que não ocorreriam num encontro pessoal. Enquanto isso, a interseccionalidade propõe o compromisso de administrar as diferenças a partir da escuta atenta e do aprendizado mútuo.

Depois que o projeto genoma comprovou existir pouca diferença entre o DNA dos humanos e o dos insetos, é estranho que ainda exista preconceito e algumas minorias – que sequer podem ser consideradas minorias, tamanha a sua dimensão – sejam hostilizadas.

A espécie humana perde tempo e energia na construção de muros, enquanto assiste inerte à destruição de seu habitat, com a produção de venenosos gases, geradores do efeito estufa. A humanidade provoca a sua própria extinção, parecendo optar pelo suicídio coletivo, e de forma célere, não mais a conta-gotas, como sugerido há algumas décadas.

Quando será que os humanos vão perceber que são criaturas frágeis e efêmeras? Que estão sujeitas a pestes como a Covid19, que já levou quase seiscentos mil brasileiros e que outras pragas estão à espreita, pois não respeitamos o nosso ambiente e continuamos a fazer deste lindo planeta uma nojenta lata de lixo.

O trágico nessas reflexões é que elas só são lidas por quem já está convencido de que uma conversão interior é mais do que urgente. A turba irada e cega continuará na sua busca de ilusória segurança garantida por armamentos, na distinção entre amigos – os que praticam o mesmo credo político – e inimigos, aqueles que ousam pensar de forma diversa.

Enfim, a humanidade renitente colherá o que semeia. E não parece que a semeadura possa autorizar uma colheita conforme com as necessidades da espécie. Quem viver verá.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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