Conversa com Machado de Assis

Conversa com Machado de Assis

João Linhares Júnior*

07 de setembro de 2020 | 07h00

João Linhares Júnior. FOTO: DIVULGAÇÃO

– Sugeriu-me o cronista Rubem Braga realizar nova entrevista com o senhor, atualizando os temas. Pois bem, eu poderia ter dado um título com vários louvores atribuídos à sua pessoa, todavia os últimos entrevistados (Luiz Gama e Rui Barbosa) repeliram os adjetivos que lhes enderecei. https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/luiz-gama-o-mais-bravo-advogado-do-brasil/

https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/entrevista-com-rui-barbosa/

 Por dever de ofício, registro que muitos estudiosos asseguram que o senhor é o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

Machado de Assis -“Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até o corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado”

(A Semana, 25 de setembro de 1892)

 

– Pesquisa recente realizada a pedido do Congresso Nacional indicou que cerca de 79% da população brasileira informam-se por redes sociais, principalmente pelo “WhatsApp”. Em época de alastramento em massa de notícias falsas (fake news), tal fato pode causar muitos danos, como, por exemplo, o desequilíbrio em campanhas eleitorais e a ruína de reputações. O que o senhor acha disso?

– “O boato é um ente invisível e impalpável, que fala como um homem, está em toda a parte e em nenhuma, que ninguém vê de onde surge, nem onde se esconde, que traz consigo a célebre lanterna dos contos arábicos, a favor da qual se avantaja em poder e prestígio, a tudo o que é prestigioso e poderoso.”
(Comentários da Semana – série de crônicas, 7 de janeiro de 1862)

 

– Tem-se assistido a pendores autoritários e autocráticos em esferas governamentais…

– “(…) há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.”
(Dom Casmurro)

 

– A pandemia da covid-19 já redundou em uma imensa multidão de mortos no Brasil. Muitos criticam a reação silenciosa de certas autoridades sobre o assunto.

– “A falta de afeição é que traz a injustiça.”
(Histórias da Meia Noite)

 

– Diversos cientistas asseveram que as doenças epidêmicas serão cada vez mais frequentes, em razão da destruição da natureza. A humanidade caminha mal?

– “O homem é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.”

(Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

– As pessoas mudarão no pós-pandemia?

-“Quem escapa do perigo vive a vida com outra intensidade.”
(Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

– Alguns analistas explicitam que a nossa política é um jogo. O senhor afiança essa comparação? Qual deles seria?

– “O xadrez, um jogo delicioso, por Deus! Imaginem da anarquia, onde a rainha come o peão, o peão come o bispo, o bispo come o cavalo, o cavalo come a rainha, e todos comem a todos. Graciosa anarquia, tudo isso sem rodas que andem, nem urnas que falem!”

(A Semana, 25 de fevereiro de 1894)

 

– Como o senhor vislumbra o presidencialismo de coalizão e o fisiologismo com o “Centrão” para garantir a governabilidade?

– “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis…”
(Memórias Póstumas de Brás Cubas)

– No Brasil, talvez existam muitas polêmicas ocas, casuais, concebidas para insuflar o eleitorado, com desvio do foco daquilo que realmente importa.

– “Um dos defeitos mais gerais, entre nós, é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério, pois o tato para acertar nestas coisas é também uma virtude do povo.”

(Ao Acaso, 28 de março 1865)

 

– O senhor crê que a paz reinará a curto prazo no nosso cenário político?

– “Ouça-me este conselho: em política, não se perdoa nem se esquece nada.”
(Quincas Borba)

 

– O nosso arcabouço político passa por um crivo judicioso da opinião pública e parece padecer de algumas falhas sistêmicas.

– “Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir”
(Carta a Lucio de Mendonça, 24 de janeiro de 1872)

 

– Estão surgindo críticas apontando que há uma tentativa de implementar-se uma “gestão familiar do Estado”, bem como de revigorar o nepotismo e a acomodação de amigos na estrutura governamental.

– “Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.”
(Memorial de Aires)

 

– Recentes operações da Polícia Federal e do Ministério Público contra a corrupção resultaram no encarceramento de muitos poderosos. Alguns destes, atualmente soltos, procuram retornar ao protagonismo da cena política. Tem uma opinião a respeito?

– “Eu sinto a nostalgia da imoralidade”

(Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

– Há muitos filhos de figurões da política sendo eleitos pela popularidade de seus pais. Por vezes, os rebentos até os atrapalham nos assuntos da Administração. É um retrocesso?

– “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

(Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

– “Petrolão” e “rachadinhas”, o que dizer?

– “Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: ‘A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.’”

(Esaú e Jacó)

 

– Esses movimentos ‘terraplanistas’, contra vacinas, movidos por teorias conspiratórias e que renegam a ciência são distópicos?

– “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”
(O Alienista)

 

– E por que ainda existem tantos seduzidos por narrativas ilógicas?

– “Não é a verdade que vence, é a convicção.”
(Esaú e Jacó)

 

– Passagens bíblicas vêm sendo ultimamente muito invocadas nos debates políticos.

– “Uma coisa é citar versos, outra é crer neles.”
(Memorial de Aires)

 

Mas esse tipo de discurso ostenta forte apelo e adesão de um segmento popular. O que o senhor, numa missiva, assinalaria ao orador desse gênero?

– “Tudo o que dizes ou digas estás dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires.”

(A Igreja do Diabo)

 

– Um setor oficial do Estado aparenta noivar com uma determinada vertente religiosa. Este comportamento é positivo?

– “Deus, para felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.”

(Ressurreição)

 

– Como avalia o Brasil?

— “O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.”

(Comentários da semana, 29.12.1861)

 

– E a política brasileira?

– “A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que diz respeito à política, nada temos a invejar ao reino de Liliput.”

(Comentários da semana, 29.12.1861)

 

– Poderia explicitar uma mensagem ao leitor?

– “Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.”

(Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

– À derradeira, não posso perder a oportunidade de decifrar um dos grandes enigmas da literatura, há muito enfrentado por aqueles que se debruçam sobre a sua obra e até hoje inextricável, com apaixonadas opiniões contrapostas, sem qualquer consenso entre os acadêmicos e fãs. Preciso desatar esse nó górdio! Capitu traiu Bentinho?

– “Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.”

Machado, ao explicitar isto, sob o acúleo da consciência, sorriu com certo ar de triunfo, como se houvesse uma ideia sarcástica no seu espírito, nesse breve instante de eternidade, que o fazia superior ao próprio Deus; olhou marotamente de soslaio, coçou levemente a cabeça, ajeitou os óculos, apertou o nó da gravata, deslizou a mão direita pela longa barba grisalha, suspirou vagarosamente e inclinou-se em minha direção, fazendo um sinal com o dedo indicador para que eu me aproximasse dele e, tal qual uma senha, sussurrou, no meu ouvido esquerdo, a resposta em três letras…

*João Linhares Júnior, mestre em Garantismo e Direito Processual Penal pela Universidade de Girona – Espanha; pós-graduado em Direitos Fundamentais e Jurisdição Constitucional – PUC/RJ. Reside em Dourados-MS

Fontes:

Andrade, Gentil de. Pensamentos e Reflexões de Machado de Assis, ed. Civilização Brasileira;

Prado Lopes, Lucia Leite Ribeiro. Machado de A a X – Um Dicionário de Citações, ed. 34;

https://www.revistaprosaversoearte.com/entrevista-com-machado-de-assis-rubem-braga/

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-12/whatsapp-e-principal-fonte-de-informacao-do-brasileiro-diz-pesquisa

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/tecnologia/2019/12/10/interna_tecnologia,812946/whatsapp-e-a-principal-fonte-de-informacao-dos-brasileiros-indica-pes.shtml

https://www.machadodeassis.org.br/abl_minisites/cgi/cgilua.exe/sys/start73a5.html?infoid=304&sid=112

https://www.revistaprosaversoearte.com/o-pais-real-esse-e-bom-revela-os-melhores-instintos-mas-o-pais-oficial-esse-e-caricato-e-burlesco-machado-de-assis/

Machado de Assis. Ao Acaso, 28 de março 1865;

– A Igreja do Diabo;

– A Semana, 25 de setembro de 1892;

– A Semana, 25 de fevereiro de 1894;

– Carta a Lucio de Mendonça, 24 de janeiro de 1872;

– Comentários da semana, 29.12.1861;

– Comentários da Semana – série de crônicas, 7 de janeiro de 1862;

– Dom Casmurro;

– Esaú e Jacó;

– Histórias da Meia Noite;

– Memorial de Aires;

– Memórias Póstumas de Brás Cubas;

– O Alienista;

– Quincas Borba;

– Ressurreição.

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