Contratos e notas revelam elo de cartel com Dirceu e mulher de ex-ministro do Peru

Contratos e notas revelam elo de cartel com Dirceu e mulher de ex-ministro do Peru

Lava Jato suspeita que propina de empreiteiras que atuavam na Petrobrás foi oculta em triangulação com consultorias do ex-ministro da Casa Civil e de Zaida Sisson, que intermediava contratos com governo peruano

Redação

07 de agosto de 2015 | 10h00

Rodolfo Bravo e Zaida Sisson. Foto: Alberto Villanzona/ Archivo El Comercio

Rodolfo Bravo e Zaida Sisson. Foto: Alberto Villanzona/ Archivo El Comercio

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

Os investigadores da Operação Lava Jato têm os contratos, notas e trocas de mensagens da Galvão Engenharia – empreiteira acusada de cartel e corrupção na Petrobrás – e a SC Consultoria, empresa de Zaida Sisson de Castro, mulher do ex-ministro da Agricultura do Peru, Rodolfo Beltrán Bravo (governo Alan García). Zaida é suspeita de ser o elo do ex-ministro José Dirceu com o governo peruano.

A Polícia Federal afirma, em relatório da Operação Pixuleco – 17ª fase da Lava Jato, que levou Dirceu e outras sete pessoas à prisão e fez buscas em endereço de Zaida no Brasil, na segunda-feira, dia 3 -, que a mulher do ex-ministro do Peru foi destinatária de valores remetidos pela JD Assessoria e Consultoria, empresa do ex-ministro usada para dar consultorias e palestras, após ele deixar o governo Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005.

Trecho do pedido de prisão de José Dirceu e buscas em endereço de Zaida Sisson / Reprodução

Trecho do pedido de prisão de José Dirceu e buscas em endereço de Zaida Sisson / Reprodução

Foram identificadas pela Polícia Federal 20 transferências bancárias da JD para a empresa de Zaida, entre 16 de janeiro de 2009 e 16 de novembro de 2011, totalizando R$ 364.398,00. Nesse período, Dirceu foi contratado por duas empreiteiras do cartel que atuava na Petrobrás, para supostamente prospectar negócios no Peru, entre elas a Galvão Engenharia e a Engevix.

‘Não fui operadora do sr. Dirceu’, afirma mulher de ex-ministro peruano

Zaida anota que prestou efetivamente serviços de consultoria para a JD no Peru, mas que a SC Consultoria nunca recebeu valores da empresa de Dirceu. Diz que iniciou um trabalho conjunto em 2008, dado seu conhecimento com o mercado peruano. “Apresentei meus serviços para identificar possibilidades para empresas do Brasil no Peru, principalmente na área de infraestrutura’. O vínculo com a empresa do ex-ministro preso terminou em setembro de 2011, destaca.

“A SC Consultoria nunca faturou para a JD”, disse Zaida. “A Blitz de Brasil é que faturou a JD, porque tinha empresas que queriam pagar aqui (no Brasil).” A Blitz está registrada em nome da filha da investigada.

Documento da Receita com pagamentos da JD para Blitz Trading, de Zaida de Castro

Documento da Receita com pagamentos da JD para Blitz Trading, de Zaida de Castro

Triangulação. Para investigadores da Lava Jato, os contratos e notas que mostram o vínculo entre empreiteiras do cartel, a JD de Dirceu e a SC da mulher do ex-ministro peruano, são indícios claros de uma triangulação entre o ex-ministro e Zaida em um esquema de propina oculto em forma de “consultorias”.

“José Dirceu expandiu sua ‘consultoria’ para Zaida, que, segundo Milton Pascowitch, seria casada com um agente político do Perú, para atuação naquele país”, registra o delegado Polícia Federal Márcio Adriano Anselmo, no pedido de prisão do ex-ministro.

nota jd e galvao

Zaida Sisson, mulher de Rodolfo Beltrán Bravo, ex-ministro da Agricultura do Peru (governo Alan García), foi alvo da Operação Pixuleco, 17.º capítulo da Lava Jato. A Polícia Federal vasculhou um apartamento no Centro de São Paulo, endereço da investigada, segundo os investidores. Brasileira, ela teria sido elo do ex-ministro-chefe da Casa Civil (Governo Lula) José Dirceu em negócios da empreiteira brasileira Engevix e Galvão Engenharia no Peru.

Zaida Sisson foi citada na delação premiada do lobista Milton Pascowitch, que denunciou propinas para o ex-ministro José Dirceu. “Zaida foi mencionada por Milton como esposa do Ministro da Agricultura do Peru e indicada por Dirceu a atuar na obtenção de contratos para a Engevix naquele país. Aliás, Zaida também foi citada em informações prestadas por outra empreiteira cartelizada, a Galvão Engenharia, como responsável pela SC Consultoria S.A.C., indicada por Dirceu para prestar assessoria à Galvão no Peru”, aponta documento do Ministério Público Federal no pedido de prisão de Dirceu.

contrato galvao e sc consultoria de zaida

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Documentos. Os contratos em poder da PF foram entregues pela própria Galvão Engenharia, a pedido do delegado Eduardo da Silva Mauat. Eles foram apresentados junto com os contratos e notas de pagamentos para a JD Assessoria e Consultoria, do ex-ministro. Para a empreiteira, os serviços são legais e foram executados.

Nos argumentos que apresentou à Polícia Federal, a Galvão explicou que contratou em 2009 a JD para buscar negócios na América Latina. O contrato foi mantido até 2011 prevendo pagamentos mensais de R$ 25 mil.

A Galvão informou que contratou a SC Consultoria por intermédio da JD. “Dentro do escopo contratado, a JD Assessoria e Consultoria Ltda, por meio de parceria internacional, disponibilizou os serviços da empresa SC Consultoria para proceder o apoio necessário à expansão do negócio da Galvão Engenharia S.A em solo peruano”, informou a empreiteira à Lava Jato.

Trecho de documento da Galvão Engenharia enviado à Lava Jato / Reprodução

Trecho de documento da Galvão Engenharia enviado à Lava Jato / Reprodução

Em nota enviado ao Estadão, a mulher do ex-ministro informou que “no caso da Construtora Galvão e Engevix não participou em nenhum projeto concluído ou em curso a estas empresas”.

A PF tem um contrato com a SC de 15 de julho de 2010. Pela Galvão, quem assina é Marcos de Mora Wanderley. O contrato previa o pagamento mensal de US$ 5 mil. O contrato foi reincidido pela Galvão em 25 de junho de 2012 de forma amigável entre as partes.

O contrato da SC Consultoria com a Galvão teria servido para buscar negócios em dois projetos: Projeto Especial Binacional Puyango-Tumbes, para irrigação das áreas de cultivo no Peru e no Equador e o Projeto Especial de Irrigação da Marge Direita do Rio Tubes.

Segundo a Galvão, a “SC Consultoria ainda auxiliou a Galvão em projeto de saneamento contratado junto à estatal peruana Sedapal (Empresa de Servicios de Agua Potable Y Alcantarillado de Lima), intermediando as demandas da empresa junto ao cliente”, em 2010.

doc sc para galvao projeto tumbes

Rechaça. Zaida informou na quarta-feira, 5, que jamais recebeu pagamentos ilícitos da JD, empresa do ex-ministro José Dirceu. Zaida é taxativa. “Não é certo como mencionam alguns meios que fui o braço direito ou operadora do sr. Dirceu em Peru. Meu rol foi sempre laboral e de orientação com o devido cumprimento e ética.”

“Rechaço categoricamente haver recebido pelas consultorias neste período comissão ou pagamento com algum proposito ilícito”, ela afirma. “Meus honorários foram em torno de R$ 15 mil durante 35 meses devidamente justificados e declarados ante as autoridades tributárias de ambos países.”

contrato galvao sc consultoria 5 mil mes

“Por quase três anos, a SC Consultoria deu suporta a alguns projetos da Galvão Engenharia, realizou reuniões periódicas com representantes da peticionária com ministros da Agricultura, com o presidente regionais de Tumbes no Peru, prospectou possíveis projetos de interesses nas áreas de infraestrutura, saneamento, rodovias, etc, sendo que em ao menos uma dessas reuniões José Dirceu esteve presente”, declarou a Galvão, em documento entregue à PF, datado de 16 de abril.

COM A PALAVRA, A DEFESA

ZAIDA SISSON DE CASTRO, DONA DA SC CONSULTORIA

Zaida Sissin de Castro informou nesta quinta-feira, 6, que seus serviços para a Galvão Engenharia não foram feitas via JD. “A consultoria que dei a Galvão Engenharia no Peru, não foi pela JD, porque o diretor local tinha total autonomia e nunca chegou a conhecer o JD”.
“Tenho todas as notas fiscais e impostos pagos e eu fazia informes do meu trabalho de 3 em 3 meses. A empresa tem todos os documentos.”

Segundo Zaida, “a SC Consultoria nunca faturou para a JD”. “A SC Vondiltoria é minha empresa peruana. A Blitz de Brasil é que faturou a JD, porque tinha empresas que queriam pagar aqui.”

LEIA A ÍNTEGRA DO COMUNICADO DE ZAIDA SISSON, DIVULGADO NO DIA 5

Ante as informações aparecidas ontem e hoje nos meios do Brasil e Peru sobre uma suposta participação de minha pessoa em atividades relacionadas com a investigação denominada Lava Jato por parte das autoridades judiciais e Ministério Público do Brasil, devo aclarar o seguinte:

1) Minha pessoa, desde o ano de 2001 vem prestando serviços de consultoria a empresas que se estabelecem no Peru e em alguns casos no Brasil.

2) Entre 2001 e 2003 fui designada vocal da Câmera de Comércio e Integração Peru Brasil, entidade que posteriormente segui apoiando Ad Honorem. Este favoreceu grandemente o comércio Bilateral Peru e Brasil.

3) Com relação a consultoria que prestei a JD Consultoria de José Dirceu, no Peru, iniciei contato com a empresa no ano de 2006 e comecei um trabalho em conjunto no ano de 2008. Dado meu conhecimento com o mercado peruano, apresentei meus serviços para identificar possibilidades para empresas do Brasil no Peru, principalmente na área de infraestrutura. Esta consultoria com a JD Consultoria terminou em setembro de 2011.

4) Meu trabalho consistia em apoiar as empresas em sua fase de instalação em um novo País, recomendações locais, legislação, normas legais, laborais, indicação de profissionais competentes, identificação de projetos pela via legal e transparente do setor público, a várias empresas que desejava, estabelecer-se no Peru. Também de acompanhar aos diretivos das empresas as reuniões solicitadas quando estivessem em Lima, assim como o Sr. José Dirceu.

5) Rechaço categoricamente haver recebido pelas consultorias neste período comissão ou pagamento com algum proposito ilícito. Meus honorários foram em torno de 15.000 reais durante 35 meses devidamente justificados e declarados ante as autoridades tributárias de ambos países incluindo viáticos e gastos de viagem entre Peru/Brasil.

6) Não é certo como mencionam alguns meios que fui o braço direito ou operadora do Sr. Dirceu em Peru. Meu rol foi sempre laboral e de orientação com o devido comprimento e ética.

7) Ademais assessorei outras empresas que serão informadas dentro do devido processo as autoridades brasileiras. Cabe mencionar que o percentual das empresas comprometidas com a denominada operação Lava Jato, é mínimo com relação a totalidade das empresas consultadas pela minha pessoa desde 2001. Algumas não passaram de simples consultas e outras se concretaram sempre com o devido contrato e declaração de impostos e sobre tudo justificadas com atividades lícitas e transparentes.

8) Todos meus ingressos estão devidamente justificados por faturas, contratos e recibos declarados de acordo a lei ante os organismos fiscalizadores e tributários de Brasil e Peru.

9) Todas as consultorias no Brasil e Peru se realizaram efetiva e transparentemente sempre seguindo os canais da administração pública de ambos países.

10) O Arquiteto Rodolfo Beltran é meu esposo com quem estou casada formalmente desde o ano 2008. Durante o período de 1989-1990, que foi Ministro de Estado, não tinha nenhum vínculo com ele. No período de 2006 – 2011 o cargo de meu esposo no setor de Agricultura não influenciou em nenhuma decisão relacionada com minhas consultorias. Temos separação de bens e cada um tem seu campo de ação laboral bem definidos.

11) Minha filha Carolina Sisson é sócia da empresa Blitz Trading, mas não participou em nenhum trabalho ou ação realizada comercialmente.

12) Cabe ressaltar que os projetos que participei dentro de minhas consultorias no Brasil não foram concluídos, apesar do trabalho formalmente realizado. No caso da Construtora Galvao e Engevix não participei em nenhum projeto concluído ou em curso a estas empresas.

13) Não é certo que minha casa no Brasil tenha sido vasculhada até o dia de hoje e retirado documentos comprometedores ou provas. O processo neste caso no Brasil se denomina “PEDIDO DE BUSCA E APREENSÃO”. Esta ordem até o momento não foi iniciada e me encontro a espera para colaborar com as autoridades.

14) Atualmente me encontro no Brasil justamente para esclarecer o que as autoridades creiam conveniente, com os quais estou prestando toda colaboração.

15) Muito agradecerei o encerramento das especulações em alguns meios que não sejam baseados em documentos ou declarações reais. Estimo se devem referir sempre a fontes oficiais e esperar o julgamento devido antes de pré-julgar.

Zaida Sisson de Castro.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE IMPRENSA DO EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU

NOTA 1 – Sobre três maiores pagadores à JD Assessoria e Consultoria

A assessoria do ex-ministro José Dirceu informa que é equivocada e sem qualquer fundamento a afirmação, registrada pelo blog, de que a JD Assessoria e Consultoria teria faturado “R$ 21,3 milhões em depósitos mensais e ininterruptos realizados por apenas três grupos empresariais”.

Embora a reportagem não esclareça quais seriam as três empresas nem a fonte da informação, basta lembrar que a relação e os valores de todos os contratos da JDA tornaram-se públicos quando a Justiça Federal do Paraná levantou, ainda em março, o sigilo sobre as informações, recebendo ampla atenção de toda a mídia nacional.

Entre os três maiores contratos da empresa do ex-ministro, existe apenas uma construtora investigada na Operação Lava Jato, a UTC, que faturou contra a JDA R$ 3,086 milhões, entre 2012 e 2014, conforme contratos e notas fiscais encaminhada à Justiça. A empresa com maior faturamento contra a JDA é um laboratório farmacêutico brasileiro e a segunda, uma multinacional mexicana.
Em nota divulgada na segunda-feira (3), o advogado Roberto Podval também já havia alertado para o cálculo equivocado apresentado pela Polícia Federal sobre os supostos recebimentos ilícitos por meio da JDA. Na coletiva daquela manhã, o delegado Márcio Anselmo afirmou que o montante chegaria a R$ 39 milhões. “Esse é o total faturado pela empresa em 8 anos de atividade, quando atendeu a cerca de 60 clientes de quase 20 setores diferentes da economia”, diz Podval. “Não há qualquer razoabilidade imaginar que os pagamentos de multinacionais de diversos setores da indústria teriam relação com o suposto esquema criminoso na Petrobras.”
Desde 2006, a JDA foi contratada por empresas como a Ambev, Hypermarcas, Grupo ABC, Telefonica, EMS, além dos empresários Carlos Slim e Gustavo Cisneros. Todos, quando procurados pela imprensa, confirmaram a contratação do ex-ministro para orientação de negócios no exterior ou consultoria política.

NOTA 2 – Sobre o escritório Unicon Contabilidade

A assessoria do ex-ministro José Dirceu informa que a Unicon é a empresa responsável pela contabilidade da JD Assessoria e Consultoria desde sua fundação. Os pagamentos à Unicon são relativos aos serviços prestados em todo o período.

NOTA 3 – Sobre contrato com empresa de Zaida Sisson

A assessoria do ex-ministro José Dirceu refuta com veemência a ilação, apontada por investigadores da Operação Lava Jato, segundo registra este blog, da existência de “uma triangulação entre a JDA e a consultora Zaida Sisson em um esquema de propina oculto em forma de consultoria”.

“Não há nada mais inverossímil. Pelo contrário, a parceria com a consultora Zaida Sisson só comprova, além da documentação já apresentada pela defesa, que o ex-ministro efetivamente prestou consultoria, no Peru, para construtoras investigadas na Lava Jato”, afirma o advogado Roberto Podval. “O detalhamento do trabalho prestado pela JDA e por Zaida Sisson depõe contra a tese dos investigadores de que os contratos do ex-ministro com as empreiteiras seriam mera fachada para recebimentos ilícitos oriundos da Petrobras”.

Zaida Sisson trabalhou em parceria com o ex-ministro na prospecção de negócios no Peru para clientes da JD Assessoria e Consultoria, conforme a defesa de José Dirceu vem afirmando publicamente desde janeiro. No período de parceria, a empresa de Zaida Sisson no Brasil, a Blitz Trading recebeu da JDA R$ 364,3 mil por seus serviços prestados.

A JDA prestou consultoria no Peru às construtoras Engevix, OAS, Galvão Engenharia e UTC, que já reconheceram publicamente a razão da contratação. Todas as informações sobre os contratos foram encaminhadas pela defesa do ex-ministro à Justiça Federal do Paraná.

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